UOL Notícias Internacional
 

02/03/2010

Ahmad Chalabi: a volta da fênix política iraquiana

Le Monde
Patrice Claude
Enviado especial a Bagdá
  • Samir Mizban/AP - 24.nov.2004

    Simpatizantes de Ahmad Chalabi se manifestam em Bagdá exibindo fotos dos ex-informante dos EUA e depois acusado pelos americanos de fraudes financeiras contra o país

Seus adversários achavam que ele estava morto politicamente, desacreditado para sempre, o mais impopular possível e isolado definitivamente de seus últimos intermediários nos vários corredores do governo iraquiano. Grande erro.

Aos 65 anos, Ahmad Chalabi, que continua rico, carismático, calculista, intelectualmente afiado e em grande forma física, para desgosto de seus antigos amigos americanos, que hoje o acusam de tê-los manipulado e de na realidade sempre ter estado “a serviço de Teerã”, está de volta.

Candidato bem cotado para as eleições gerais de 7 de março, as segundas pós-Saddam Hussein e certamente as mais determinantes para o futuro do país, uma vez que os soldados americanos estão de saída, Chalabi tem um plano, um programa e uma obsessão...

O candidato Chalabi propõe: “Devolver a independência à política iraquiana, reduzir a influência americana e construir uma aliança regional duradoura com o Irã, a Síria e a Turquia”. Como uma confissão posterior do jogo duplo do qual Washington o acusa de ter conduzido com maestria durante uma década até a invasão de março de 2003 que tanto beneficiou o Irã...

Em uma sala de sua elegante residência familiar em Bagdá – uma entre uma dúzia de outras no Iraque, em Londres e em Beirute - , Ahmad Chalabi, de terno claro e gravata colorida, sorri com sinceridade. “Teria eu manipulado toda a administração americana, a CIA,o Pentágono, o departamento de Estado, a Casa Branca, para derrubar Saddam Hussein em benefício do Irã? Eu, sozinho? Bobagem. Os americanos manipularam a si mesmos. Eles acreditaram em sua própria propaganda. Eu sempre joguei limpo, queria a libertação de meu país e de meu povo”.

Ainda que tenha sido preciso mentir para ter sucesso, produzir várias falsas testemunhas iraquianas que tivessem “visto” ou até “cooperado” com o mítico programa nuclear e biológico iraquiano – muitos deles foram apresentados aos serviços americanos por Chalabi - , o resultado está lá. O tirano está morto, e seu regime também. Agora, diz o homem que os teria levado a essa aventura, os “libertadores” devem ir embora.

Ahmad Chalabi

  • Caren Firouz/Reuters

Comandante dos 96 mil soldados presentes no Iraque (o menor contingente desde 2003), o general Ray Odierno mencionou na semana passada “a possibilidade, se for necessário”, de estender a presença de suas tropas de combate além de 31 de agosto de 2009. “Nem pensar”, diz Chalabi. “Obama deu a ordem de retirada de todos seus combatentes no final de agosto, os conselheiros e soldados da logística devem deixar o Iraque em 31 de dezembro de 2011. O calendário acordado com o Iraque deve ser respeitado”.

Repetida em todas suas reuniões eleitorais, essa pequena ponta de nacionalismo não pode comprometer o “novo Chalabi” que está emergindo. Além disso, observou recentemente Ryan Crocker, que foi embaixador americano em Bagdá até 2009, “seria errado pensar que Chalabi é o agente do Irã ou de quem quer que seja. É um oportunista e um nacionalista que usará qualquer meio ou plataforma para deslanchar seus projetos”.

Seria a desqualificação, no mês passado, de cerca de 500 candidatos às eleições, majoritariamente sunitas e xiitas laicos, pela comissão de “debaathificação” [afastamento de membros do partido Baath] ainda presidido por ele – sua última carta “oficial” –a própria exemplificação dessa abordagem? A questão teve grande repercussão no Iraque e leva todos os partidos, inclusive o do governo, a fazerem maiores promessas na caça aos simpatizantes da defunta ditadura.

Mas Ahmad Chalabi, cuja riquíssima família deixou o Iraque com a queda da monarquia em 1958, onze anos antes da chegada do partido Baath ao poder, nega qualquer manipulação. “A Suprema Corte do Iraque nos deu ganho de causa. A Constituição proíbe a apologia do Baath. Acredite, o trabalho não terminou. Há milhares de baathistas infiltrados em nossas instituições e nossas forças de segurança”.

Ahmad Chalabi não está longe de pensar, e ele não é o único, que os americanos, para facilitar sua saída anunciada e entravar as ambições iranianas sobre o Iraque, não se importam em deixar baathistas “reformados” voltarem ao poder. Enquanto ele estiver vivo, isso não acontecerá.

Número três em Bagdá,na lista da Aliança Nacional Iraquiana, a mais poderosa coalizão xiita religiosa do país, o ex-banqueiro, ex-agente duplo, ex-queridinho da administração Bush, tem praticamente garantido um mandato de deputado.

Em 2005, apesar da energia e das somas astronômicas gastas, a indestrutível fênix da política iraquiana obteve somente 30 mil votos em âmbito nacional. E nenhum mandato.

Nada desencorajado, eis que ele retoma sua ascensão. Ele quer ser primeiro-ministro. Dentro e fora de seu círculo, muitos apostam que ele fará parte do próximo governo, aconteça o que acontecer.

Pois a menos que aconteça algo dramático, nenhuma das três grandes coalizões políticas que se enfrentarão nas eleições de 7 de março parece ter condições de conseguir a maioria exigida para formar sozinha o governo. Será preciso negociar. E nesse campo, Ahmad Chalabi é imbatível.

Tradução: Lana Lim

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