UOL Notícias Internacional
 

03/03/2010

Paris corteja Moscou para tentar impor sanções contra programa nuclear iraniano

Le Monde
Natalie Nougayrède

Em fevereiro de 2003, Jacques Chirac recebeu Vladimir Putin com grande pompa na França para atrelar a Rússia à posição francesa sobre o Iraque. Sete anos mais tarde, é sobre a questão do Irã e de seu programa nuclear que Nicolas Sarkozy quer consolidar uma frente unida na ONU com a Rússia, durante a visita de três dias do presidente Dmitri Medvedev ao país, recebido no Palácio do Eliseu na segunda-feira (1).

O chefe do Estado acompanhou sua diplomacia russa de uma impressionante seção de cooperação em matéria de armamentos e de diálogo político-militar, que complica suas relações com diversos aliados, um ano após sua volta às estruturas militares integradas da Otan e dezoito meses depois da intervenção militar russa na Geórgia.

  • RIA NOVOSTI/AFP

    Os presidentes da França, Nicolas Sarkozy (à esq.), e da Rússia, Dmitri Medvedev, se reúnem em Moscou para firmar acordos comerciais e alinhar disputas diplomáticas

Nicolas Sarkozy anunciou que a França e a Rússia estavam, “a partir de hoje, em negociações exclusivas” para o fornecimento de “quatro” navios militares franceses do tipo Mistral.

Paris havia até então divulgado seu acordo para a entrega de um único desses navios de projeção e de comando (BCP, sigla em francês). Sarkozy quer que dois desses navios sejam construídos em Saint-Nazaire.

Diante da imprensa, o presidente francês estabeleceu uma ligação entre a venda do Mistral e a busca de uma cooperação russa sobre a questão iraniana: “Não podemos dizer de manhã ‘Ah, eu confio em você, vamos votar uma resolução no Conselho de Segurança’, e à noite ‘Não, não, eu não lhe venderei o BPC’.”

O presidente Medvedev, que está em seu terceiro encontro na França com Sarkozy, após ter estado em Evian em outubro de 2008 e Nice em novembro de 2008 (cúpula União Europeia-Rússia), viu nesse anúncio um “sinal de confiança”. Ele deu um sinal positivo sobre a questão do Irã, confirmando uma virada russa que havia começado a se esboçar no outono de 2009. Mas suas declarações revelaram que Moscou pretendia limitar a amplitude de qualquer nova medida à ONU, como acontece desde 2006.

Se os esforços diplomáticos junto ao Irã não “resultarem em nada”, a Rússia “está disposta a examinar a introdução de sanções”, com a condição de que estas poupem a população e que elas “não saiam do quadro além do qual o diálogo [com Teerã] seria impossível”, disse. Nicolas Sarkozy, preocupado em enfatizar uma “grande identidade de pontos de vista”, explicou que gostaria de sanções tão “eficazes” quanto “inteligentes”.

O eixo Paris-Moscou de 2010 não é o mesmo de 2003, que visava enfrentar os Estados Unidos. Trata-se, do ponto de vista francês, de acompanhar ou até de levar mais longe o recente endurecimento da administração Obama frente ao Irã. Paris entende seu papel como um “controlador” dos ocidentais sobre essa questão da proliferação, e calcula que uma adesão russa permitiria convencer os chineses a não bloquearem nada na ONU.

O paralelo com a época Chirac se situa, entretanto, nas recaídas do novo diálogo franco-russo na Europa. A França teve de se explicar junto a alguns aliados. O sinal verde de Sarkozy ao Mistral foi muito mal visto na Polônia e nos países bálticos. Nos bastidores, esses países querem ser tranquilizados quanto às garantias de segurança fornecidas pela Otan, e lembram que a União Europeia possui um “código de boa conduta” – não opressivo – em matéria de entrega de armamentos a países que desprezam os direitos humanos ou que poderiam constituir uma ameaça para um Estado-membro. A capacidade da França de influenciar as discussões em curso quanto a um novo “conceito estratégico” da Aliança poderia ser afetada por isso.

Washington, sem dizê-lo publicamente, acredita que a França está queimando etapas ao abrir as comportas do fornecimento militar à Rússia. O Congresso americano faz críticas a esse assunto. Como já o fez a administração Obama, pela primeira vez Sarkozy reconheceu publicamente na segunda-feira que os acordos de cessar-fogo na Geórgia, que havia negociado com Medvedev em 2008, nem sempre foram respeitados. “É importante que eles sejam aplicados rigorosamente”, disse. Medvedev não deu atenção.

O presidente russo não escondeu sua estratégia: primeiro, assegurar Paris quanto à ideia de que ele é um modernizador mais voltado para a Europa do que o primeiro-ministro Vladimir Putin, enfim, um homem em quem se pode ter “confiança” e com o qual é “fácil de falar”, como ressaltou Sarkozy. O Eliseu quer acreditar em uma virada “ocidentalista” da Rússia frente à constatação de fraquezas intrínsecas da economia nacional e às ameaças ao Sul (terrorismo islâmico) e ao Oriente (ascensão da China).

Além disso, Dmitri Medvedev move seus peões em seu projeto de remanejamento da arquitetura de segurança na Europa. Ele elogiou a “iniciativa” demonstrada por Sarkozy em 2008 para “resolver uma crise difícil” no Cáucaso, e tirou desse episódio a conclusão de que a Otan não era o instrumento certo para garantir a estabilidade do continente. Sarkozy indicou que gostaria de incluir a chanceler Angela Merkel nas discussões franco-russas sobre a segurança da Europa. A França busca paralelamente recuperar parte de seu grande atraso em relação à Alemanha em matéria de cooperação econômica com Moscou.

Foram anunciados acordos franco-russos sobre o gás e as ferrovias. Em compensação, nada se falou sobre a erosão da democracia na Rússia, um tema que Sarkozy brandia com fervor em 2007 durante sua campanha eleitoral. O Eliseu pode comemorar o fato de que nenhuma pergunta constrangedora tenha sido feita sobre esse assunto durante a coletiva de imprensa.

Tradução: Lana Lim

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