UOL Notícias Internacional
 

04/03/2010

Administração Obama se divide quanto à nova política nuclear

Le Monde
Corine Lesnes
Em Washington
  • Evan Vucci/AP

    O presidente norte-americano Barack Obama (à esq.), acompanhado do vice-presidente Joe Biden, discursa na Casa Branca, em Washington

Esperada para dezembro, para fevereiro e depois para 1º de março, a publicação da nova definição da política nuclear dos Estados Unidos – a terceira desde o fim da guerra fria – foi novamente adiada, devido a divergências na administração Obama. Mas o documento deverá refletir a política de não-proliferação defendida por Barack Obama e comportar “uma redução espetacular” do arsenal dos Estados Unidos, indicou ao “Le Monde” um alto dirigente da administração. Estabelecido a pedido do Congresso, o documento (chamado “Nuclear Posture Review”) expõe as intenções da administração em matéria de defesa nuclear. O texto publicado pela administração Bush em 2001 autorizava um ataque contra um Estado que utilizasse uma arma química ou biológica, ainda que se tratasse de um Estado não dotado de arma nuclear. Ele também preconizava a fabricação de “mini-nukes”, armas de baixa potência, mas que conseguiriam perfurar bunkers, podendo banalizar o recurso à arma atômica.

Já a revisão à maneira de Obama pretende reduzir o papel do nuclear na segurança nacional. Ela deverá ser publicada antes do fim de março, afirma o alto dirigente, antes da cúpula convocada pelo presidente americano nos dias 12 e 13 de abril em Washington.

Anunciada desde o discurso de Praga em 5 de abril de 2009, essa cúpula será dedicada à segurança das armas nucleares. Para limitar a probabilidade de ver uma arma nuclear cair nas mãos de terroristas, Obama quer não somente reduzir seu número, mas coordenar os procedimentos de segurança.

Para Joseph Cirincione, um dos principais especialistas americanos em questões nucleares, o atraso da publicação do “Nuclear Posture Review” é “até um bom sinal”. Uma primeira versão, elaborada no outono pelo ministério da Defesa, havia alarmado os especialistas. “Era a mesma estratégia que a de Bush, um pouco editada. Ela não refletia a reflexão do presidente”, explica. O departamento de Estado e o gabinete do vice-presidente, Joe Biden, voltaram a tomar as rédeas. “Agora que as questões de infraestrutura e de contratos militares foram resolvidas, a discussão se dá sobre a política. Por que temos armas nucleares? Qual o objetivo da arma nuclear no século 21?”

Segundo o “New York Times”, a redução defendida deverá chegar a vários milhares de ogivas nucleares, número que não é desmentido pela administração (os Estados Unidos possuem atualmente 9.400 armas no total). Mas essa diminuição não impedirá “a continuidade de uma dissuasão forte e plausível”, afirma o alto dirigente, em especial “graças aos investimentos previstos no orçamento”: US$ 5 bilhões (R$ 9 bilhões) no decorrer dos próximos cinco anos serão dedicados à modernização das armas existentes.

Bombas antibunker

Essa medida, anunciada pelo vice-presidente Joe Biden em 18 de fevereiro, provocou a decepção dos partidários do desarmamento. Eles acreditam que ela contradiz a declaração de Obama a respeito de “um mundo sem armas nucleares”. Mas ela faz parte do acordo com aqueles que, como Robert Gates, preocupavam-se em ver o arsenal americano cair em desuso. O ministro da Defesa exigiu um programa de substituição para as ogivas nucleares obsoletas.

E em novembro, os 40 senadores republicanos, unidos pelo ex-democrata Joe Lieberman, escreveram a Obama dizendo que eles só ratificariam o acordo em negociação com a Rússia sobre as armas estratégicas Start se um programa “significativo” de modernização do arsenal existente fosse posto em prática.

Em sua estratégia de dissuasão, os Estados Unidos pretendem se apoiar mais nas armas convencionais e não veem “necessidade militar” para as bombas antibunker, indica esse dirigente. Essas bombas, capazes de penetrar nos subterrâneos onde o Irã, entre outros, detém seus armamentos, eram um dos dispositivos privilegiados pela administração Bush.

A maior parte do “Nuclear Posture Review” já foi aprovado. Resta o presidente decidir sobre o principal: os elementos “declaratórios”, ou seja, o papel da arma nuclear e os casos em que Washington consideraria poder empregá-la.

A administração está envolvida em um debate que transcende as fronteiras tradicionais (militares contra civis), indica Cirincione. Alguns oficiais estariam pressionando por um arsenal reduzido, e não se opõem ao desmantelamento de estoques de armas obsoletas. Já outros, que pertencem à “velha guarda” do conselho de segurança nacional, “querem ir lentamente”. Os especialistas suspeitam que Obama possa chegar ao ponto de declarar que os Estados Unidos serão os primeiros a se proibirem de usar a arma nuclear, como lhe pediram as associações. Mas a questão não está oficialmente decidida, informa uma fonte segura.

O debate trata sobretudo do objetivo da arma atômica. A versão inicial do documento indicava que o “principal objetivo” era “responder ou dissuadir um ataque nuclear aos Estados Unidos ou seus aliados”. O que dava a entender que poderia haver outros objetivos. Hoje, os especialistas se perguntam se o presidente dará o primeiro passo e declarar que o único objetivo é a resposta ou a dissuasão. Da política decorre o número. “Ele anunciará que o objetivo é a redução a um total de 1.000 armas?”, se pergunta Joseph Cirincione. Na ausência de consenso, a decisão está nas mãos do presidente.

Tradução: Lana Lim

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