UOL Notícias Internacional
 

05/03/2010

Presentes nas cidades de Najaf e Karbala, iranianos tentam influenciar as eleições no Iraque

Le Monde
Patrice Claude
Enviado especial a Najaf e Karbala (Iraque)

Em torno dos mausoléus de cúpulas douradas dedicados aos imãs do xiismo mundial – Ali, genro do Profeta enterrado em Najaf, Hussein e seu irmão Abbas, netos do mesmo em Karbala - , milhares de peregrinos iranianos em grupos organizados esperam pacientemente para serem revistados antes de entrar. Grandes abayas [túnicas] pretas para as mulheres, jaquetas para os homens. Somente o olhar experiente de um iraquiano consegue diferenciar as nacionalidades. “A maneira de usar o véu, os sapatos, o aspecto geral, não dá para se enganar”, diz Ahmed Ali, jornalista local.

Não são os peregrinos, há séculos acostumados a fazerem a viagem até aqui, que preocupam os americanos. Para a administração Obama, que se prepara para trazer de volta a maior parte de seu corpo expedicionário até o fim de agosto, a grande questão é: o governo iraquiano que sairá das urnas em 7 de março mostrará boa vontade em relação a eles, ou pode ele ser mais pró-iraniano? Em outras palavras, será que no final das contas o segundo maior produtor potencial de petróleo no mundo cairá nas mãos de Teerã, sendo que foram os Estados Unidos que gastaram US$ 700 bilhões para conquistá-lo sete anos atrás?

  • Ali Al-Saadi/AFP

    Soldados iraquianos mostram seus dedos manchados de tinta depois de lançarem seu voto

Na semana passada, segundo o “New York Times” de 25 de fevereiro, o general Ray Odierno, que comanda as tropas, atualizou discretamente o governo iraquiano. Segundo suas informações, “o Irã interfere no processo político iraquiano, fornece dinheiro, material de campanha e formação política a diversos partidos e candidatos de sua escolha. Ele se esforça para criar alianças entre aqueles que lhe são favoráveis”. A começar por Ahmad Chalabi, ex-favorito da administração Bush e agente duplo segundo Washington, que Teerã “gostaria de ver” no lugar no atual primeiro-ministro, Nouri al-Maliki, ele mesmo concorrendo a um segundo mandato.

É claro, como ressalta o excelente dossiê publicado no fim de fevereiro pelo International Crisis Group (ICG), o Estado iraquiano ainda está “tão fraco, sua soberania é tão permeável e sua classe política está tão dividida, que é quase um convite à ingerência”. A Jordânia, a Síria, a Arábia Saudita, os Emirados do Golfo e os Estados Unidos mesmos não se privam, a título “privado” ou estatal, de tentar influenciar o que se passa em Bagdá. O Iraque está se reconstruindo e se lhe resta um longo caminho a percorrer antes de reencontrar estabilidade e prosperidade, é importante que seus vizinhos e outros se posicionem lá nesse momento.

“Eles continuam sendo persas”

Para encontrar o vestígio da “influência iraniana palpável, que se estende a todo o país e a sua elite política” como afirma o ICG, a visita de Najaf e Karbala – as duas cidades santas do islamismo xiita, adotado por 60% dos iraquianos e 90% dos iranianos – era necessária. Primeira constatação: nenhuma dessas cidades de meio milhão de habitantes, ao sul de Bagdá, exibe em suas ruas os imensos cartazes glorificando o aiatolá Khomeini ou seu sucessor à frente da República Islâmica, Ali Khamenei, onipresentes no subúrbio sul xiita de Beirute, por exemplo.

As duas cidades, sendo que uma delas, Karbala, até a virada do século 20 tinha até 75% de habitantes de origem persa, continuam vivendo essencialmente de peregrinações. Os comerciantes iraquianos mantêm com os clientes uma relação complicada. “Precisamos deles, mas não gostamos muito deles”, revela Hassan Abu Zeinab, joalheiro em Karbala. Em Najaf, entretanto, o Irã se prepara para entregar um hospital de 400 leitos. Um outro será construído em Karbala. Oito voos por semana passam a ligar as duas cidades a Teerã e Mashad. Projetos econômicos comuns estão em curso. Os dois países estão indiscutivelmente mais próximos do que antes. Mas, como dizem todos os iraquianos que encontramos, “nós somos árabes, e eles continuam sendo persas”.

Para eles, escolher entre o Irã e os Estados Unidos não faz muito sentido. “Nós temos 1.400 quilômetros de fronteira comum com o Irã. Os americanos vão voltar para a casa deles”, lembra o professor Hayder Sayyed Salman que leciona ciências políticas em Najaf. “O problema é mais o regime dos iranianos do que eles mesmos”, diz. “Veja, existe um único partido concorrendo às eleições que afirme abertamente sua simpatia por Teerã? Nenhum, e isso diz tudo”.

Que a Guarda da Revolução Iraniana conduz aqui operações clandestinas e entrega armas a milícias xiitaa, é incontestável. Assim como o fato de que o Irã gasta “pelo menos US$ 20 milhões por mês”, segundo os serviços americanos, para influenciar partidos políticos, entre os quais o Conselho Supremo Islâmico, fundado em Teerã em 1982, e seu aliado, a corrente sadrista cujo líder, Moqtada al-Sadr, se refugiou em Qom, a cidade santa iraniana, há quase três anos. Dito isso, conta Salah al-Obeidi, porta-voz de Al-Sadr em Najaf, “os iranianos cometeram tantos erros aqui” que não é preciso se preocupar demais.

Tradução: Lana Lim

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