UOL Notícias Internacional
 

05/03/2010

Tropas americanas no Afeganistão mudam de estratégia na guerra contra o ópio

Le Monde
Jacques Follorou

Após terem feito pressão nesses últimos anos junto a seus aliados da Otan no Afeganistão para que investissem na erradicação da papoula, os Estados Unidos acabam de fazer uma mudança radical de política. A partir de agora, Washington privilegia “a ajuda ao desenvolvimento das culturas alimentícias”, indicou na segunda-feira (1º) David Johnson, secretário de Estado adjunto, responsável pelos assuntos sobre tráfico internacional de drogas. E assim ele oficializa o fim de uma política que criara tensões com seus parceiros britânicos e afegãos, entre outros.

  • AFP

    Agricultores afegãos em um campo de papoula próximo a Kandahar, no Afeganistão

Por muito tempo os Estados Unidos criticaram a resistência de seus aliados em destruir os campos de papoula, especialmente nas províncias de Candahar e de Helmand, que concentra a maior parte da produção. “Quando vejo um campo, vejo armas fornecidas aos talebans”, contou ao “Le Monde”, em junho de 2008, o general americano David McKiernan, chefe das tropas da Otan no Afeganistão. Segundo ele, a droga financiava a guerra dos insurgentes. Segundo a Agência das Nações Unidas contra a Droga e o Crime (ONUDC), 90% do ópio utilizado na produção mundial da heroína vêm do Afeganistão, ou seja, 60% de seu PIB. Ao sul, nas províncias de Candahar e de Helmand, principal foco taleban do país, de 20% a 30% da economia dependeria do dinheiro da droga.

Para os britânicos, responsáveis pela província de Helmand em nome da Otan, uma destruição das plantações levaria as populações locais para os braços dos insurgentes. Além disso, uma ação radical demais desestabilizaria a economia do país, dependente dessa produção. Em 2009, no vilarejo de Sanguine, a missão das patrulhas britânicas não era destruir as dezenas de laboratórios de transformação de ópio em heroína que ali se encontravam. Esses laboratórios eram compostos por um barril e produtos chamados fixadores, necessários para transformar a papoula e o ópio. Tudo isso valia US$ 50 e sustentava uma família inteira.

Trabalho de proximidade

Os canadenses, responsáveis pela província de Candahar, adotaram uma política bastante parecida. “Se interceptamos um caminhão de papoula, detemos os motoristas. Senão, preferimos iniciar um trabalho de proximidade junto aos agricultores, incentivando-os a optar por outros cultivos, como o trigo”, explicavam, na terça-feira (2), no quartel-general das Forças Canadenses em Candahar.

Em seu relatório, publicado no fim de 2009, a ONUDC garantia que os talebans só tiravam “10% a 15%” de suas rendas do tráfico de ópio, graças às taxas recebidas sobre o tráfico. Ainda segundo a agência, 60% dos deputados afegãos estão ligados a pessoas que têm algum interesse no tráfico de ópio. Esses interesses explicariam o pouco de empenho dos policiais afegãos encarregados da erradicação das plantações de papoula. Em 2008 e 2009, somente 4% das colheitas haviam sido destruídas.

“Tudo isso certamente explica a mudança de estratégia dos Estados Unidos. E, acima de tudo, isso vai ao encontro das técnicas de contra-insurreição aplicadas hoje e que implicam uma aproximação com a população”, observava, na terça-feira, um membro do departamento de Estado em Candahar.

Já em Cabul, dois dias após a decisão de Washington, o governo anunciou um plano de erradicação dos campos de papoula em grande parte do país, especialmente no Sul.

Tradução: Lana Lim

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