UOL Notícias Internacional
 

09/03/2010

Pequim dosa sua estratégia quanto à questão nuclear iraniana

Le Monde
Bruno Philipe (com Natalie Nougayrède em Paris)
Em Pequim (China)
  • Os presidentes do Irã, Mahmoud Ahmadinejad (à esq.), e Hu Jintao (China) chegam para a cerimônia de abertura dos Jogos Paraolímpicos, em Pequim

    Os presidentes do Irã, Mahmoud Ahmadinejad (à esq.), e Hu Jintao (China) chegam para a cerimônia de abertura dos Jogos Paraolímpicos, em Pequim

Para qual lado a China penderá, na ONU, a respeito da questão nuclear iraniana? A administração Obama endureceu sua posição após um ano de “mão estendida” na direção de Teerã. Os Estados Unidos começaram a divulgar um projeto de resolução que comporta novas sanções contra a República Islâmica. As últimas remontam a março de 2008.

A China entrava esse projeto. A República Popular é o único país-membro permanente do Conselho de Segurança a recusar o princípio de novas medidas coercitivas. “As pressões e sanções não podem resolver fundamentalmente essa questão”, repetiu, no domingo (7), seu ministro dos assuntos externos, Yang Jiechi.

Mas outros sinais também foram enviados, podendo anunciar uma certa flexibilidade. Após a recente visita a Pequim do secretário de Estado adjunto americano James Steinberg, a China reiterou sua vontade de ver a questão iraniana sendo resolvida por vias diplomáticas, ao mesmo tempo em que pedia a Teerã que reforçasse sua cooperação com a Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) a fim de “eliminar as dúvidas” quanto a seu programa nuclear. O último relatório da AIEA sobre o Irã trouxe a hipótese de que esse país realiza até hoje trabalhos de ajustes de uma ogiva nuclear.

A estratégia chinesa tem diversos componentes: retardar ao máximo a imposição de sanções, ao mesmo tempo em que se pronunciam, se for necessário, a favor destas últimas, a fim de evitar o isolamento diplomático, e isso depois de ter se esforçado para atenuar a dimensão deste.

Nesse contexto, uma votação rápida na ONU parece estar fora de cogitação. A secretária de Estado americana Hillary Clinton disse esperá-la “no decorrer dos próximos meses”. O cronograma poderá escorregar para além da conferência de exame do Tratado de Não-Proliferação (TNP) previsto para maio.

Ao bloqueio chinês se somam as reticências do Brasil, um país que Hillary Clinton, que na semana passada esteve em Brasília, não conseguiu convencer quanto à ideia das sanções. A atitude chinesa age, segundo alguns, como um encorajamento aos países menos dispostos a endurecer o tom contra Teerã.

Quanto à questão iraniana, a China navega mais perto de interesses às vezes contraditórios. Ela precisa levar em conta simultaneamente a importância de sua relação com o regime dos mulás, peça central de sua penetração no tabuleiro de xadrez do Oriente Médio, e a primazia de seu diálogo com os Estados Unidos. Uma relação que acaba de sofrer estremecimentos por causa de Taiwan e do encontro entre Barack Obama e o dalai lama.

A China é tradicionalmente contrária à imposição de sanções e privilegia uma política de “não-interferência”. Ela defende o princípio da não-proliferação nuclear mas sustenta, no caso iraniano, que nada prova uma vontade de desenvolver a bomba atômica, nem a capacidade de consegui-la a curto prazo. Sendo assim, a seu ver, o problema não justifica tal mobilização internacional.

Entretanto, os diplomatas ocidentais acreditam que Pequim, que já se associou três vezes a uma série de sanções limitadas contra Teerã, entre 2006 e 2008, não usará de seu direito de veto para bloquear uma resolução, ainda mais que a Rússia se disse disposta a aderir a esse texto. A China poderá se abster. Ela também deve encontrar a linguagem diplomática adequada, vista a importância de sua relação com o aliado iraniano.

O Irã é o terceiro maior fornecedor de petróleo da China, depois da Arábia Saudita e de Angola. As companhias petroleiras chinesas investiram US$ 120 bilhões no Irã em cinco anos. Em 2009, os dois países assinaram dois importantes contratos para desenvolver dois campos petrolíferos no Irã, um em Pars e outro em Azadegan. E como o Irã não possui capacidade suficiente de refinação, os chineses lhe forneceriam, segundo o “Financial Times”, entre 30 mil a 40 mil barris de petróleo por dia. A China se aproveitou desses últimos anos de discrição das empresas ocidentais, impedidas de negociar com o Irã por causa de sanções e pressões americanas.

A proximidade geográfica e cultural do Irã com a província chinesa de Xinjiang, região dividida pelas intenções “separatistas” de sua população muçulmana uigur, também obriga Pequim a garantir para si a boa vontade de Teerã.

“A busca da via diplomática retarda ações punitivas e permite que Pequim valorize ao máximo suas capacidades de barganha na direção do Irã e dos países do Ocidente”, observa o centro de análise Crisis Group, em um relatório recente, muito detalhado, sobre o jogo chinês diante da questão nuclear iraniana. Oficiais indicaram assim que a continuidade da venda de armas americanas a Taiwan prejudicaria na cooperação chinesa “em importantes questões internacionais”.

Entretanto, observa a sinóloga britânica Sarah Raine, “uma resolução moderada do Conselho de Segurança permitiria que a China mantivesse a reputação diante dos Estados Unidos e da Europa, seus principais parceiros comerciais. Mas é primordial, do ponto de vista chinês, que essas sanções tenham um impacto mínimo sobre seus interesses”.

É a razão pela qual os Estados Unidos incitaram a Arábia Saudita a garantir um aumento de suas entregas de petróleo à China, para possivelmente compensar as do Irã. Pequim não teria nada a ganhar em caso de corrida armamentista ou de instabilidade na região do Golfo, evoluções consideradas inevitáveis caso as atividades iranianas não sejam interrompidas.

Tradução: Lana Lim

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