UOL Notícias Internacional
 

11/03/2010

Em uma Europa em crise, Polônia é vista como uma exceção e exemplo a ser seguido

Le Monde
Florence Beaugé
Enviada especial a Varsóvia (Polônia)
  • Polonesas têm sua imagem refletida em janela de escritório da União Européia em Varsóvia, Polônia

    Polonesas têm sua imagem refletida em janela de escritório da União Européia em Varsóvia, Polônia

Ela se sente vingada. Ela, que só aderiu à União Europeia (UE) em 2004, discreta como a última da classe, agora é consagrada a “melhor aluna” da Europa! De todos os países da UE, a Polônia é a única a poder se gabar de um crescimento positivo (+1,7%) em 2009.

Todo trimestre o primeiro-ministro liberal Donald Tusk sente um prazer perverso ao realizar uma coletiva de imprensa sobre a economia polonesa na Bolsa de Varsóvia. Sob o olhar das câmeras, ele se posiciona ostensivamente diante do mapa da UE, todo vermelho, com exceção de uma ilhota verde: a Polônia... Mesmo dentro da Organização de Cooperação e Desenvolvimento Econômicos (OCDE), nenhum país pode se gabar de ter tido um desempenho melhor.

Sobre as razões dessa boa saúde, tão extraordinária quanto inesperada, os analistas divergem. Para uns, o país se beneficiou de uma conjunção de fatores felizes, quase um “golpe de sorte”. Para outros, o crédito desse desempenho notável é do governo, que desde 2008 soube administrar a crise financeira internacional “com sangue frio”, ao rejeitar o plano de retomada maciça “que todos lhe aconselhavam”, e ao conseguir “dar confiança à população”, como conta o ministro da Economia, Waldemar Pawlak.

Uma coisa é certa: mesmo caindo pela metade em relação ao ano anterior, o consumo continua a estimular o crescimento do país. Com seus 38 milhões de habitantes, a Polônia possui um amplo mercado interno. Menos aberta que seus vizinhos, menos dependente de suas exportações, dona de uma economia diversificada, ela não viu como um drama a desaceleração do comércio mundial.

Em Zlote Tarasy (Terraços Dourados), gigantesco centro comercial aberto em 2007 atrás da estação central de Varsóvia, o movimento é grande a semana inteira nas 250 lojas de estilo ocidental distribuídas em cinco andares. Podendo mudar de comportamento, se as circunstâncias exigirem. “Aqui, uma crise não é vivida como uma fatalidade. As pessoas se lembram do tempo em que não tinham nada e sabem apertar o cinto. Assim que entramos na crise financeira, a questão dos salários, que estava na ordem do dia, foi varrida para debaixo do tapete pelos sindicatos. Uma atitude dificilmente imaginada na França”, acredita François Colombié, presidente da Auchan para a Polônia e a Rússia.

Recuperar o tempo perdido parece ter se tornado a divisa nacional. Trata-se de compensar os anos de escassez da era comunista, mas também de atingir o produto interno bruto (PIB) per capita dos países mais avançados. “A Polônia é um dos países mais pobres da UE, apesar de seu crescimento contínuo há anos. Esse ‘efeito de recuperação’, aliado a seu tamanho, é uma das principais explicações de seu desempenho atual”, analisa Rafal Kierzenkowski, economista da OCDE.

Aqui é considerado como sorte que o país não faça parte da zona do euro. Desde 2000, as autoridades deixam flutuar a moeda nacional, o zloty, tornando as exportações mais competitivas durante a crise, sobretudo a dos carros de pequeno porte da Fiat e da Ford, fabricados aqui. Além disso, a Polônia lucrou muito com os incentivos para compra de automóveis na Alemanha e na França.

O ano 2015 é o novo horizonte fixado pelas autoridades para entrar na zona do euro. “Não estamos com pressa. O exemplo da Grécia nos faz pensar. Nada nos força a isso. Será preciso encontrar o momento certo”, declara Pawlak.

Num futuro próximo, a Polônia deve enfrentar sérios desafios. Seu déficit orçamentário é um deles: em 2009, ele atingia 7,2% do PIB (contra 3% autorizados pelo Pacto de Estabilidade Europeu).

O desemprego voltou a subir desde 2008. Ele chegou a 8,9% da população ativa segundo o Eurostat (mas 12,8% segundo as estatísticas polonesas), e às vezes chega a ultrapassar os 15% em algumas cidades. É o caso, por exemplo, de Lapy, pequena cidade de 20 mil habitantes no nordeste do país. “Todos os habitantes viviam graças a uma única empresa de restauração de vagões de trem. A companhia faliu no ano passado, foi uma calamidade”, conta Konrad Niklewicz, jornalista da “Gazeta Wyborcza”.

O estado desastroso da infraestrutura – estradas velhas, falta de autoestradas e de linhas ferroviárias... – também faz parte das urgências a serem resolvidas. Boa parte dos 67,3 bilhões de euros concedidos por Bruxelas em 2009 para o desenvolvimento do país até 2013 deverá ser destinada a elas.

Apesar dos obstáculos, os poloneses se mostram otimistas. Dois acontecimentos os incentivam a olhar para o futuro com confiança. No segundo trimestre de 2011, o país assumirá a presidência da UE. E em junho de 2012, a Polônia será coorganizadora (junto com a Ucrânia) do Campeonato Europeu de Futebol de 2012. Serão “provas”, como diz Aleksander Smolar, diretor da Fundação Batory, que garante que o país faz ainda mais questão de realizá-las com sucesso, uma vez que hoje seu coração bate firmemente pela Europa.

Todas as pesquisas indicam: de todos os Estados-membros da UE, a Polônia é aquele onde o sentimento europeu é o mais elevado. Para Philippe Rusin, diretor executivo do Centro de Civilização Francesa de Varsóvia, os jovens poloneses realmente se “apropriaram da Europa”. Agora que ela é membro da Otan e da UE, a Polônia se sente em segurança “pela primeira vez em sua história”, observa.

Tradução: Lana Lim

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