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14/03/2010

Chile: Terremoto revelou os sintomas do mal-estar social

Le Monde
Jean Pierre Langellier
  • Policial prende mulher acusada de saque em um supermercado na cidade de Concepción

    Policial prende mulher acusada de saque em um supermercado na cidade de Concepción

O terremoto e o tsunami de 27 de fevereiro no Chile deixaram um pesado balanço material e humano: 497 mortos "identificados" e sem dúvida mais de 800, segundo uma contagem oficial; 500 mil residências destruídas e um milhão, danificadas; dezenas de escolas, hospitais, pontes, estradas a reconstruir.

O governo avalia em 3,5 bilhões de euros o custo provisório da reconstrução das infraestruturas públicas. Mas talvez seja mais difícil reparar os danos políticos, sociais e psicológicos provocados por uma catástrofe ocorrida 12 dias antes da transmissão de poder, efetuada em 11 de março, entre a presidente socialista Michelle Bachelet e seu sucessor, eleito em 17 de janeiro, Sebastián Piñera.

Com uma popularidade recorde na véspera do abalo sísmico – 84% de opiniões favoráveis – e legitimamente orgulhosa de um mandato globalmente bem-sucedido, Bachelet sonhava em deixar a cena com elegância. A natureza em fúria decidiu diferentemente. A amplidão do cataclismo, que teria apanhado de surpresa qualquer governo, fosse no Chile ou em outro lugar, não dispensa a presidente de tirar lições de alguns erros de julgamento e, sobretudo, de fraquezas do Estado, em um país que seus cidadãos gostam de apresentar como o mais moderno da América Latina. E isto, apesar de a popularidade de Bachelet não ter sofrido com a catástrofe: segundo uma pesquisa publicada em 9 de março, 75% dos chilenos aprovam sua maneira de administrar essa difícil situação.

O diagnóstico inicial incorreto da Marinha, que excluiu a possibilidade de um tsunami, custou centenas de vidas. A essa confusão acrescentaram-se outras disfunções: a má coordenação entre civis e militares, a espera demasiada longa para enviar o Exército ao local, a síncope das redes de comunicações.

Em uma entrevista ao jornal "El Sur", José Antonio Viera Gallo, secretário-geral da Presidência da República, admitiu que ele mesmo não pôde se comunicar com as autoridades das regiões sinistradas durante "vários dias". Nesse sentido, os clubes de radioamadores lamentam que ninguém tenha pensado em solicitar seus serviços. Essas graves deficiências são ainda mais surpreendentes em um país de longa memória sísmica. Piñera prometeu reformar profundamente e modernizar todos os procedimentos de alerta.

O caráter especialmente assassino da catástrofe, o temor das réplicas, a impotência das autoridades locais, o aparente desaparecimento da força pública, a falta de produtos básicos, reais ou supostamente iminentes, favoreceram ao mesmo tempo uma psicose da escassez e um vazio de poder, propícios às ações criminosas.

Principalmente em Concepción, os saqueadores aproveitaram o caos dominante para roubar e incendiar os supermercados. Também atacaram pequenos comércios ou simples casas particulares. As imagens desse saques feriram profundamente o orgulho da maioria dos chilenos. Depois de dois dias, os 14 mil soldados mobilizados nas regiões sinistradas foram recebidos com um imenso alívio.

"Pensávamos ser um povo desenvolvido. Percebemos que nos parecemos mais com o Haiti do que com o Japão", lamenta o cientista político Patricio Navia. "O que nos aconteceu?", pergunta a socióloga Lucia Dammert. "Esse vandalismo é o pior de nós mesmos!", lançou um repórter de uma rádio local.

Segundo o Exército, em Concepción, 90% dos saqueadores presos não têm antecedentes criminais. A maioria pertence a um meio modesto, os outros à classe média. A pequena máfia local também aproveitou a ocasião. Temor ou remorso? Muitos "restituíram" seu butim abandonando-o nas ruas, como os carabineiros pediram.

Enquanto prometia aos cerca de 300 saqueadores presos uma punição severa, o governo tentou relativizar o acontecimento, citando cenas parecidas em 2005 em Nova Orleans depois da passagem do furacão Katrina. Elas são próprias das situações de catástrofe, quando a ausência de autoridade provoca uma perda de confiança no Estado. Para muitos analistas, essas pilhagens são reveladoras de uma fratura social. Nessa região, uma das mais pobres do país, os saqueadores teriam expressado sua raiva e sua frustração diante de uma realidade percebida, segundo o sociólogo Emilio Torres, como "cada vez mais desigual".

Vinte anos de centro-esquerda no poder permitiram reduzir para 14% o índice de pobreza. Mas o bom funcionamento da economia social de mercado, que está na origem do "milagre chileno", não reduziu o abismo entre ricos e pobres, enquanto os primeiros concentram 45% da riqueza nacional.

Orgulhoso de ter aderido em janeiro à Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômicos (OCDE), o Chile continua sendo um dos países mais desiguais da América Latina. Um em cada quatro jovens está desempregado; três em cada dez não encontram emprego ao sair da universidade. Empresário multimilionário, representante de uma direita descomplexada, "cristã e humanista", Piñera conseguirá curar o mal-estar social cujos sintomas surgiram nesses dias trágicos?

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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