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16/03/2010

Cresce a diferença entre ricos e pobres na China

Le Monde
Bruno Philip
Em Pequim (China)
  • Morador de rua em Pequim; diferença entre a renda do mais ricos e a dos mais pobres está crescendo

    Morador de rua em Pequim; diferença entre a renda do mais ricos e a dos mais pobres está crescendo

É um bairro bagunçado composto por barracos sujos, às vezes tortos, prédios feios de sacadas cobertas por varais de roupas, ruelas lamacentas onde o lixo se acumula, tudo isso esmagado pela luz triste e úmida do céu baixo de inverno. Os mercados estão bem abastecidos de aves e peixes, mas cheiros acres e fortes saem dos botecos baratos. Na esquina de uma rua, um cozinheiro mexe uma comida esquisita em uma frigideira wok. Homens de jaqueta de couro falso e bonés estilo Mao conversam enquanto fumam. Mulheres ninam seus bebês embrulhados em cobertas.

A menos de quinze minutos de carro das grandiosas instalações olímpicas, Dong Xiao Kou é um bairro de proletários migrantes. Não é miserável, mas é pobre.

O lugar ilustra aquilo que a imprensa chinesa anunciou há cerca de dez dias: desde o início das reformas econômicas de 1978, nunca a diferença de renda entre o mundo rural e o mundo urbano havia sido tão grande. Aqui, apesar de estarmos em Pequim, quase todos os habitantes desse subúrbio são de origem camponesa. Eles fazem parte dos 230 milhões de “operários-camponeses” chineses – mingong, em mandarim – que vieram tentar a sorte nas cidades. Mas nem por isso conseguiram alcançar o status de “urbanos”. Consequência: muitos deles não recebem os benefícios sociais obtidos pelos citadinos.

A sra. Liu, 50, mãe de família, veio de Hebei, a província que cerca a capital. Ela não se queixa muito de sua sorte. É uma senhora simples, sorridente, falante. Mas precisa ser pressionada para enumerar a lista de suas dificuldades. Primeiro, munida de números, ela constata: “Trabalho como faxineira em um conjunto residencial. Ganho 900 yuans (R$ 217) por mês. Meu aluguel é de 300 yuans”. A sra. Liu mora aqui há oito anos e vive eternamente de maneira provisória: “Já fui despejada do primeiro apartamento onde morei, pois o proprietário vendeu seus imóveis para lucrar com a alta dos preços”. E agora? “Ora, já encontrei outra moradia, mas não tenho garantia nenhuma. Nada. Posso ser expulsa de uma hora pra outra!”, exclama.

Ela se sacrifica por suas duas filhas: uma conseguiu entrar na universidade, a outra é vendedora em um bairro comercial de Pequim. Para descrever sua instabilidade, a sra. Liu diz: “No meu trabalho, meus colegas e eu muitas vezes somos humilhados”.

As diferenças de renda entre os possuidores e os despossuídos do crescimento chinês são tão gritantes que o primeiro-ministro, Wen Jiabao, abordou o assunto na abertura da sessão da Assembleia Nacional Popular, que se encerrou no domingo. “Não basta que somente nossa riqueza cresça, também precisamos encontrar um sistema de distribuição de renda mais justo”, disse. Segundo os números da agência de estatísticas publicados no início de março, a renda média dos chineses das cidades era em 2009 de 17.175 yuans por ano – cerca de R$ 4.097 – contra 5.153 yuans no campo. Em 2005, os números eram respectivamente de 10.493 contra 3.255. Citado na imprensa no começo do mês, o diretor de um centro de pesquisas sobre a economia rural associado ao ministério da Agricultura, Song Hongyuan, confessava estar “alarmado com o fato de que o abismo entre campo e cidade continuaria a se aprofundar se o país continuasse a se concentrar no desenvolvimento urbano, e não no mundo rural”.

Um outro especialista, Zhang Dongsheng, diretor de um departamento da Comissão Nacional para a Reforma e o Desenvolvimento, acusava o governo de ter “dito mais do que feito”, em termos de redução das desigualdades. Alguns anos atrás, durante a sessão de primavera do Parlamento, o primeiro-ministro Wen havia anunciado a criação de um ambicioso programa de construção das “novas campanhas socialistas”. Tradução: desenvolver as zonas rurais e elevar o nível de vida dos camponeses. Neste ano, ele prometeu um orçamento de 800 bilhões de yuans – R$ 193 bilhões – para o mundo rural, 13% a mais em relação ao ano passado.

Muitos analistas estrangeiros acreditam que, se a China quiser continuar com seu ritmo de crescimento de 8%, ela precisará manter seu programa de urbanização, acabar com o controverso “passaporte interno”- hukou - , que desfavorece os migrantes que moram no meio urbano, e pôr um fim a uma situação de “apartheid” entre os chineses das cidades e os chineses do campo: os mingongs são explorados por seus patrões, não recebem reembolso pelo atendimento médico e precisam colocar seus filhos em escolas ilegais, que muitas vezes estão condenadas à demolição.

A “estabilidade social”, que tanto persegue um governo assombrado pelo pesadelo da insurgência, não poderá ser garantida se o abismo entre ricos e pobres continuar a se aprofundar. Enquanto a sra. Liu se mata de trabalhar no bairro de Dong Xiao Kou, os ricos enriquecem no império das desigualdades. Segundo Rupert Hoogewerf, fundador do centro independente Hurun, com sede em Xangai, que elabora a lista dos super-ricos na República Popular, “o número daqueles que possuem uma fortuna de pelo menos US$ 150 milhões (R$ 264 milhões) aumentou dez vezes desde 2004”. “Havia 100 deles seis anos atrás, e agora há 1.000”, explica. Na última lista da revista “Forbes” dos mais ricos do planeta, há 64 bilionários chineses, contra 28 no ano passado. Segundo Meng Pengjun, diretor da Luxury Asia Limited Markets, os ultraprivilegiados da China gastaram muito em 2009 no mercado de produtos de luxo, subindo para o segundo lugar mundial nessa área, atrás dos japoneses.

Tradução: Lana Lim

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