UOL Notícias Internacional
 

16/03/2010

Esfria a relação entre os Estados Unidos e Israel

Le Monde
Laurent Zecchini (Jerusalém) e Corine Lesnes (Washington)
  • O vice-presidente dos EUA, Joe Biden, durante encontro com o primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, durante visita oficial do representante americano ao país em 09/03

    O vice-presidente dos EUA, Joe Biden, durante encontro com o primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, durante visita oficial do representante americano ao país em 09/03

“A crise ficou para trás”: na quinta-feira (11), algumas horas depois que o vice-presidente americano partiu de Jerusalém, a página foi virada, segundo Binyamin Netanyahu. O primeiro-ministro israelense observou que o último discurso de Joseph Biden havia sido conciliador, uma maneira de dizer que a raiva de Washington, que surgiu com a decisão israelense de anunciar a construção de 1.600 novos assentamentos em Jerusalém Oriental, durante a visita de Biden, havia sido acalmada.

No domingo (14), o balanço era bem diferente: a crise entre Israel e os Estados Unidos, segundo vários observadores, é a mais grave em pelo menos uma década; a coalizão governamental, sem ser ameaçada, está se degradando; e a imprensa israelense critica duramente um primeiro-ministro que conseguiu a proeza de indispor Israel com o único país que é indispensável para sua segurança.

Pela manhã, o chefe do governo reuniu seus ministros para dar o seguinte conselho, que também valia para ele mesmo: “Sugiro que mantenhamos a calma, não vamos nos irritar”. Na noite anterior, Netanyahu havia reunido com urgência seu gabinete, reduzido aos sete ministros mais influentes. A razão dessa convocação? A conversa telefônica de 43 minutos com a secretária de Estado americana, Hillary Clinton. Ou melhor, a “bronca” dada por ela no premiê israelense.

Palavras muito duras, segundo o departamento de Estado e a imprensa israelense, para condenar a “atitude profundamente negativa” de Israel em relação a Washington. E teria a secretária de Estado mencionado a seu interlocutor uma lista de exigências, em especial a anulação do programa de 1.600 assentamentos? Vários jornais afirmam que sim. No domingo, o conselheiro do presidente Barack Obama, David Axelrod, insistiu: “Isso foi uma afronta, um insulto, mas mais do que isso, comprometeu o frágil esforço de levar paz à região”, disse ele, julgando o momento escolhido para anunciar a retomada da colonização – a alguns dias do início das negociações indiretas entre israelenses e palestinos – “muito destrutivo”.

Tendo em mente sua lamentável reconsideração (em novembro de 2009) a respeito do congelamento total da colonização, recusado categoricamente por Netanyahu, os americanos decidiram não deixar passar essa ocasião para reafirmar uma certa autoridade em sua relação com o Estado judeu. A reação americana foi ainda mais forte se consideramos que Joseph Biden aproveitou sua viagem para reiterar o “comprometimento absoluto, total e sem reservas” dos Estados Unidos em favor da segurança de Israel. Além disso, a administração Obama havia iniciado uma série de reuniões estratégicas com o governo de Jerusalém a respeito do Irã. Vários altos dirigentes americanos foram a Jerusalém para conversar com seus colegas israelenses, e também ressaltar que Washington não veria com bons olhos uma iniciativa militar israelense contra o programa nuclear iraniano. É esse elemento iraniano que preocupa os observadores e os dirigentes políticos israelenses: o Irã continua sendo a maior obsessão de Israel, uma questão bem mais importante para Netanyahu do que o processo de paz entre israelenses e palestinos. “A ameaça nuclear iraniana precisa de um primeiro-ministro que seja queridinho do presidente dos Estados Unidos”, diz Ben Caspit, no jornal “Maariv”, “mas em vez disso temos um primeiro-ministro que está muito perto de ser declarado persona non grata em Washington”.

Ainda não se chegou a esse ponto, e a raiva americana tem seus limites, ainda que deixe marcas. Washington não tentou limitar sua ajuda financeira a Israel, ainda estabelecida em US$ 3 bilhões (R$ 5,3 bilhões) por ano. E Israel sabe que pode contar com o guarda-chuva americano na ONU para enfrentar as consequências negativas do relatório Goldstone, que denuncia “crimes de guerra” cometidos por Israel durante a guerra de Gaza do inverno de 2008.

E o mais importante: as negociações de paz “indiretas”. Dar tanta importância a esse encontro, após 17 anos de negociações “diretas” entre israelenses e palestinos, diz muito sobre o estado do processo de paz. George Mitchell, enviado americano para o Oriente Médio, estará de volta a Jerusalém na terça-feira, para ver se é possível retomar essas conversas natimortas.

Oficialmente, os palestinos se recusarão a debater caso Binyamin Netanyahu não cancele, pura e simplesmente, os 1.600 assentamentos que agravaram a situação. Isso seria um tiro no escuro: assim como os israelenses não têm uma alternativa para o parceiro americano, os palestinos não têm outro parceiro para conseguir a paz.

Tradução: Lana Lim

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