UOL Notícias Internacional
 

17/03/2010

Grupo cria o Coffee Party para se opor ao Tea Party

Le Monde
Sylvain Cypel
Enviado especial a Decatur (Georgia)

Todos compareceram ao café Java Monkey, no sábado (13), para o primeiro encontro do Coffee Party. Estamos na avenida Ponce-de-Leon, principal artéria de Decatur, bairro muito “classe média intelectual” com uma grande proporção de residentes afro-americanos, na periferia de Atlanta, a megalópole do Estado da Georgia. A avenida parece oscilar entre “descolamento” pós-moderno – chocolate e expresso ecossustentáveis – e vestígios de hippies californianos. É lá que acontece uma das 375 reuniões anunciadas do primeiro Dia Nacional dos Coffee Parties dos Estados Unidos.

O movimento começou no fim de janeiro quando uma documentarista, Annabel Park, postou no Facebook um apelo em oposição ao que lhe parecia uma submissão servil da mídia americana em relação a Sarah Palin, ex-candidata à vice-presidência em novembro de 2008, e de seus congêneres, que na sua opinião só sabem dizer não a qualquer iniciativa adversa. “Vamos fundar um Coffee Party! (...) Vamos ter um verdadeiro diálogo político, com conteúdo e compaixão” entre americanos. Seja um apelo sincero ou interessado (Annabel trabalhou na campanha eleitoral do senador democrata da Virgínia, Jim Webb), ele rapidamente teve repercussão. Sua palavra de ordem: “Acordem!” O público-alvo: todos aqueles que buscam “soluções positivas” para os problemas dos Estados Unidos.

É evidente a contraposição ao movimento Tea Party, que reúne uma parte da base conservadora, amplamente republicana. “Nós somos, por definição, uma alternativa cívica e racional ao Tea Party”, diz Solden Deemer, um ex-combatente do Vietnã. Mas para a organizadora da reunião, Stacey Hopkins, uma mulher negra de Atlanta, mãe de 5 filhos e bastante comunicativa, trata-se de “promover a ideia de fazer as coisas juntos, e não somente de fazer uma oposição” ao Tea Party. Sua esperança: “Dar a palavra ao povo, para que a raiva e o medo que voltam a dominar o cenário político americano sejam superados”.

No Java Monkey, o clima festivo e compenetrado lembra muito o de Berkeley nos anos 1970. Perto do púlpito, uma creche improvisada recebe cerca de vinte filhos dos membros, e nenhum destes pensaria em pedir para que fizessem menos barulho. Stacey esperava “pelo menos 75 pessoas”. Vieram mais de cem. Depois de ouvirem todas as intervenções, foi pedido a elas que se dividissem em pequenos grupos e redigissem “suas crenças” em cartolinas. Prioridade para a criatividade e para o investimento pessoal: lápis de cor foram distribuídos a cada grupo...

Depois de cerca de meia hora de intensa reflexão, cada um mostrou o resultado aos outros. Aclamado, um cartaz resume a ambição geral: “O Coffee Party é a favor da volta ao emprego, da igualdade de direitos, das eleições limpas, da economia para o povo, e não para o dólar”. Um outro demonstrava uma ambição mais comedida: “Todos os americanos têm o mesmo valor...”

Eles se cumprimentam, tiram fotos. Dessa alegre atmosfera emergem dois princípios: o primeiro é ajudar o governo. “Eu, como afro-americana, sabia que Obama logo voltaria a ficar sozinho”, garante Stacey.

Quando ele foi eleito, diz Alan Dynim, professor de piano, “acreditamos ter conseguido, mas nos enganamos”. “Nosso governo está paralisado. Voltamos a nos mobilizar porque há uma urgência, especialmente para a questão do emprego”, diz. “Queremos que em Washington as pessoas conversem, em vez de se insultarem”, grita uma jovem chamada Wanda. “Eu me entenderia melhor com um membro do Tea Party, porque frequentamos a mesma igreja, do que um político democrata com um republicano. Assim começam as guerras civis”, lamenta Moses Dailey, um pequeno empresário.

O segundo princípio parece preponderante: o sistema político está imobilizado, é preciso mudá-lo. “Quando a direita perde, ela continua a insistir que representa o ‘verdadeiro EUA’ e que seus adversários são ilegítimos. Ora, as regras parlamentares lhe são favoráveis. Enquanto se espera que essas regras mudem, é preciso se mobilizar para se fazer ouvir”, diz Robert DeHaan, professor de biologia aposentado. Stacey diz ter entrado no Coffee Party quando ela viu “como a reforma do sistema de saúde foi sabotada” por uma minoria. “É preciso reformar as leis sobre o financiamento das campanhas e dos lobbies”, diz Brooke Holt, desempregada. “Porque esse sistema é contra o povo”.

O Coffee Party de Decatur foi transmitido ao vivo pela rede social da internet USTream. O próximo encontro nacional será no dia 27 de março. Em seguida virá a fase crítica da passeata em Washington, o “café no Congresso” previsto para 11 de abril. Pois trata-se, afinal, de convocar os políticos a trabalharem pelo “bem comum”, cujo “sentido eles perderam”, repetem os participantes. Até lá, diz um dos oradores, Erik Zeil, “vamos nos estruturar”.

Tradução: Lana Lim

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