UOL Notícias Internacional
 

19/03/2010

No Haiti, a vida se organiza nos acampamentos de Croix-des-Bouquets

Le Monde
Jean-Michel Caroit
Enviado especial a Croix-des-Bouquets (Haiti)
  • Barbearia funciona entre as barracas do acampamento montado por haitianos em frente ao palácio do governo, na capital do país, Porto Príncipe

    Barbearia funciona entre as barracas do acampamento montado por haitianos em frente ao palácio do governo, na capital do país, Porto Príncipe

Mais de dois meses após o terremoto que devastou o Haiti – que causou mais de 230 mil mortes e 1,3 milhão de desabrigados, em Porto Príncipe e em diversas cidades de província - , o primeiro “centro de alojamento” foi inaugurado em Croix-des-Bouquets, cidade situada a cerca de quinze quilômetros a leste da capital.

A maioria dos desabrigados está amontoada em acampamentos improvisados, em condições sanitárias abomináveis. Segundo o Escritório de Coordenação de Assuntos Humanitários da ONU, 220 mil deles são particularmente ameaçados pela estação das chuvas, que começa em abril. Depois da primeira fase de emergência, o abrigamento dessas vítimas é a prioridade para as autoridades haitianas.

Robustas tendas brancas e beges, cada uma delas com capacidade para acolher uma família de cinco pessoas, se alinham sobre o terreno de pouco mais de 4 hectares em Santo, à margem de Croix-des-Bouquets. “No total, nós pretendemos abrigar 400 famílias, cerca de 2 mil pessoas, nesse terreno com pouco mais de 4 hectares cedido por um ano pela família Romain”, explica Jean Darius Saint-Ange, prefeito de Croix-des-Bouquets. “É só o começo. Será preciso arrumar outros lugares. Nós temos quase 100 mil desabrigados na cidade. Além disso, é preciso retomar a atividade econômica, reabrir as escolas”, acrescenta o prefeito.

Emmanuel Eliannette é um dos felizes beneficiados. Esse pequeno comerciante de 29 anos e pai de três filhos perdeu tudo: sua casa, que desabou, e seu estoque de mercadorias. De short, ele instala os três colchões que acaba de receber dos socorristas vindos da vizinha República Dominicana. “Meus filhos receberam alimentos, mas minha esposa e eu ainda não”, diz, sentado em sua nova moradia.

Outros não tiveram a sorte de ver seus nomes na lista estabelecida pela prefeitura. “Tenho sete filhos, sou desempregado, dormimos na rua... me ajudem”, suspira Pierre Moise Augustin, que tenta a sorte junto das autoridades que vieram assistir à inauguração do centro de alojamento. À margem do acampamento, centenas de pessoas ainda estão amontoadas sob lençóis, lonas e papelões.

“Não é somente armar as barracas. Foi realizado um trabalho de nivelamento e de drenagem para que o terreno fique seco na estação chuvosa”, explica Marc Van Wynsberghe, coordenador do programa de prevenção de desastres da ONU. A ONG Oxfam é responsável pela distribuição de água potável e de kits de higiene pessoal, bem como pela instalação de latrinas. “Haverá uma latrina química para cada cem pessoas”, garante Jenny Lamb, diretora da Oxfam.

Por que, dois meses depois do terremoto, não foram instalados mais acampamentos com estrutura de segurança e equipados? “A grande dificuldade é encontrar terrenos disponíveis e não inundáveis”, observa Giovanni Cassani, coordenador da Organização Internacional para as Migrações (OIM), que forneceu as tendas. “Nós começamos a equipar dois novos terrenos; um deles poderá receber 3 mil vítimas, e o outro 1.500”, diz.

O governo haitiano iniciou negociações com diversos grandes proprietários de terrenos que dispõem de espaços que poderiam receber novos centros de alojamento. Mas ele não possui os fundos necessários para indenizá-los.

Nem a União Europeia, que financia em parte o centro de Croix-des-Bouquets, nem a OIM, nem as outras agências parceiras da ONU têm condições de bancar o custo do projeto. “Cerca de US$ 500 mil, sem contar o terreno, fornecido pela prefeitura”, estima Marc Van Wynsberghe. Segundo ele, a operação é um sucesso graças ao envolvimento da defesa civil dominicana, que garante a logística e a administração do acampamento.

“Os especialistas internacionais que chegam de helicóptero fazem mais e mais reuniões de coordenação e relatórios para que tudo seja perfeito. Os socorristas dominicanos estão acostumados a trabalhar com muito pouco. Quando os parafusos não chegam, eles resolvem o problema com arame”, conta. Uma cooperação entre países em desenvolvimento bem vista pelo prefeito de Croix-des-Bouquets, que ficou satisfeito com o fato de que a catástrofe permitiu que os antigos antagonismos entre os dois povos que dividem a ilha de São Domingos tenham sido superados.

Tradução: Lana Lim

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