UOL Notícias Internacional
 

20/03/2010

A estratégia ocidental de contenção do Irã

Le Monde
Natalie Nougayrède
  • O presidente iraniano, Mahmud Ahmadineyad (centro), rodeado de cientistas, inaugura a primeira usina de combustível nuclear, marcando as celebrações do Dia Nuclear nacional, no Irã

    O presidente iraniano, Mahmud Ahmadineyad (centro), rodeado de cientistas, inaugura a primeira usina de combustível nuclear, marcando as celebrações do Dia Nuclear nacional, no Irã

Embora os detalhes ainda não tenham sido todos revelados, diplomatas confirmam que a França forneceu assistência militar técnica à Arábia Saudita durante sua intervenção contra a rebelião iemenita, de novembro de 2009 a janeiro de 2010.

Os sauditas haviam respondido então a infiltrações de grupos huthistas (xiitas) na zona fronteiriça, em apoio às forças governamentais do Iêmen. Eles sofreram graves perdas: uma centena de mortos.

Qual foi o grau de envolvimento francês? “Nós fornecemos à Arábia Saudita todos os equipamentos militares que ela queria”, responde um diplomata de alto escalão em Paris. Segundo outra fonte, também anônima, os militares sauditas “não sabiam muito bem como usá-los”, o que dá a entender que a França pode ter ajudado na utilização dos equipamentos ou dos dados fornecidos.

Esse episódio, recoberto de grande discrição, ilustra uma estratégia mais ampla. Os ocidentais, liderados pelos Estados Unidos, estão engajados em um esforço coordenado para tranquilizar os países árabes do Golfo frente às ambições regionais do Irã. Os emissários se alternam para reiterar a mesma mensagem: “Vocês não estão sozinhos; nós estamos prontos para ajudá-los e protegê-los”, resume um diplomata.

O objetivo é incentivar os países sunitas da região a aderirem a sanções para sufocar as redes financeiras utilizadas pelo Irã. É hora de elaborar novas medidas coercitivas, após o impasse da política da “mão estendida” americana, e a constatação de que Teerã elevou a um novo grau o enriquecimento de urânio.

A via preferencial na direção de novas sanções – a da ONU – parece condenada a resultar somente em medidas de ordem cosmética devido a reticências russas e sobretudo chinesas. Então outros caminhos são explorados: agir entre “países de mesma disposição de espírito” (likeminded) com medidas tomadas em nível nacional.

Os emirados do Golfo, que servem de plataforma para as atividades financeiras e comerciais do Irã e da Guarda Revolucionária, são fortemente solicitados a apertar o cerco econômico. Mas ao participar do endurecimento geral, eles temem se expor a represálias iranianas. Daí o esforço para retirar suas reticências ligadas em parte à presença de minorias xiitas em seu território.

O auge dessa política de escudo protetor foi a decisão, tomada no fim de janeiro, pela administração Obama, de mobilizar no Golfo baterias de mísseis Patriot. Notou-se em Paris que a base militar francesa em Abu Dhabi, inaugurada por Nicolas Sarkozy em maio de 2009, também participa dessa estratégia de contenção e de dissuasão.

Implicitamente, Washington continua enviando a Israel a mensagem de que qualquer plano militar contra o Irã seria um desastre. Os Estados Unidos também contam com o impacto das turbulências políticas no Irã. Um país cuja economia está “em ruínas”, observa-se no lado francês, apostando na esperança de que o Líder, Ali Khamenei, preferirá uma “volta à mesa das negociações” com os ocidentais a ver ameaçadas sua posição ou a sobrevida do regime.

Ainda há tempo para que as sanções sejam feitas, disse o general David Petraeus, comandante das tropas americanas na região. O Irã “felizmente se atrasou um pouco” em seu programa nuclear e não conseguirá ultrapassar a etapa decisiva para uma capacidade nuclear “este ano”, explicou na terça-feira perante uma comissão do Senado.

Mas a contenção em andamento do Irã também permite prever um outro cenário, que, sem ser a política oficial de Washington, ainda assim é debatida nos think-tanks: a preparação do “depois”. “Depois da bomba iraniana” é o título de um artigo muito comentado dos pesquisadores James Lindsay e Ray Takeyh, publicado este mês na revista “Foreign Affairs”. “Mesmo que Washington não consiga impedir o Irã de se tornar nuclear, ele pode conter e limitar as consequências” de tal evolução, afirmam os autores, mencionando o peso das garantias de segurança que seriam levadas aos países do Golfo.

Tanto em Paris como em Israel esse debate americano é visto com cautela. O grande perigo, comenta Pierre Lellouche, secretário de Estado para Assuntos Europeus e especialista em questões estratégicas, é o de uma cadeia “imediata” de proliferação nuclear no Oriente Médio, onde diversos países, liderados pela Arábia Saudita, se lançariam na corrida armamentista. Visto que “a tecnologia nuclear é difundida, e há pessoas que estão dispostas a vendê-la”, diz.

Conclusão: a contenção de um Irã nuclear não seria como a da URSS ou da China, na época da guerra fria.

Tradução: Lana Lim

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