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24/03/2010

Escândalo de vacinas estragadas abala o sistema de saúde chinês

Le Monde
Brice Pedroletti
Em Xangai
  • Criança diagnosticada com ter excesso de chumbo no sangue recebe tratamento médico em um hospital em Chenzhou, na província de Hunan (China)

    Criança diagnosticada com ter excesso de chumbo no sangue recebe tratamento médico em um hospital em Chenzhou, na província de Hunan (China)

Quatro crianças morreram e 74 outras tiveram sequelas, algumas delas permanentes, como consequência de uma vacinação com doses provavelmente defeituosas, na província de Shanxi (nordeste da China). Esse foi o balanço provisório ao qual chegou o jornalista Wang Keqin após vários meses de investigação. A reportagem foi publicada no dia 17 de março pelo jornal “China Economic Times”.

O jornalista entrevistou cerca de trinta famílias, das quais algumas se endividaram seriamente para pagar os cuidados médicos. Segundo ele, as crianças haviam sido vacinadas contra hepatite B, raiva e encefalite japonesa pouco antes de os problemas aparecerem. Milhões de doses de vacina possivelmente defeituosas, por terem sido expostas a temperaturas excessivas, teriam sido administradas em 2006 e 2007. E isso apesar dos vários avisos dados por Chen Taoan, um perito do centro de controle sanitário de Shanxi, especialista em reações pós-vacinais anormais.

Chen Taoan, irritado com a negligência de seus superiores e relegado a tarefas subalternas depois de ter dado o alerta diversas vezes, conduziu o trabalho de Wang Keqin, jornalista famoso na China pela seriedade de suas reportagens.

O caso toca num ponto delicado dentro do país. Os deslizes por parte das autoridades encarregadas de supervisionar a saúde pública levaram a escândalos retumbantes, como o da melamina no leite em pó, no fim de 2008.

Investigação reaberta

Em um editorial mordaz, o jornal “Southern Metropolis News”, do grupo Nanfang de Cantão, conhecido por suas posições progressistas, pediu ao governo, no sábado (20), para “deixar a imprensa fazer seu trabalho” sobre as vacinas de Shanxi. O articulista falou da “profunda culpa sentida pela mídia” por não ter conseguido investigar o suficiente na ocasião do escândalo da melamina. “Toda vez que um caso trágico suscita uma grande preocupação e uma raiva generalizada entre o público, as reportagens da imprensa devem parar na hora”, escreveu.

Em Shanxi, os pais das vítimas, bem como Chen, receberam tanto ameaças de morte quanto ofertas de dinheiro para se manterem em silêncio, segundo o “South China Morning Post”. A agência sanitária de Shanxi realizou, na segunda-feira, uma coletiva de imprensa para rebater as alegações de Wang Keqin, ao mesmo tempo em que reconhecia que o diretor do centro de controle sanitário, um certo Li Wenyuan, havia sido demitido de seu cargo em 2009 por cumplicidade com a Beijing Huawei. Essa sociedade privada recebeu em 2006 o mercado das vacinas não-obrigatórias de toda a província por cinco anos.

Em Pequim, o ministério da Saúde enviou peritos para reabrir um dossiê sobre o qual ele já havia sido alertado em 2007 e 2008. Na época, o caso havia sido encerrado. As repetidas queixas de Chen Taoan, entretanto, levaram as autoridades a revogarem o contrato da Beijing Huawei em 2007.

Segundo o jornalista e Chen, as vacinas foram expostas a temperaturas muito elevadas. O problema apareceu quando foi preciso colocar manualmente etiquetas de certificação do centro de controle sanitário, que não colavam nas doses refrigeradas. Caixas de vacinas foram então empilhadas em um anexo do centro. Além disso, o caminhão refrigerado que deveria distribuir as vacinas estava com defeito.

“Esse problema de exposição ao calor me deixou desconfiado, e comecei a denunciar os problemas em maio de 2007. Em 2008, descobri os primeiros casos de doenças”, confirma Chen ao “Le Monde”. Ele conta que, depois disso, seu salário foi reduzido, e ele foi alvo de uma investigação da procuradoria, bem como de sua agência reguladora.

Tradução: Lana Lim

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