UOL Notícias Internacional
 

26/03/2010

Em Kalandia, jovens palestinos sonham com a guerra santa contra Israel

Le Monde
Benjamin Barthe
Enviado especial a Kalandia (Cisjordânia)

O tráfego voltou a fluir na estrada que leva ao ponto de passagem de Kalandia, controlado pelos israelenses, entrada para Jerusalém utilizada pelos habitantes do norte da Cisjordânia. As latas de lixo, as pedras e os pneus carbonizados que recobrem o asfalto, marcas de uma semana de confrontos com os soldados israelenses, foram retirados.

Ahmed, um estudante de 27 anos, observa o desfile dos carros a partir da entrada do campo de refugiados vizinho, um labirinto de ruelas empoeiradas, que serve de base de retirada para os lançadores de pedras. “Para nós é rotina, é nossa vida”, diz, a respeito desses confrontos que fizeram somente algumas dezenas de feridos sem gravidade, mas que excitaram todos aqueles à espera do início de uma terceira Intifada. “Se a Autoridade Palestina tivesse deixado, os confrontos teriam se estendido”, garante o jovem. “mas em vez de encorajar nossos sonhos de libertação, esse regime os reprime. Ele nos obriga a reduzir nossas aspirações ao mínimo vital: comer, nos vestir”.

Desencadeados pelo anúncio de um novo projeto de colonização em Jerusalém Oriental, os tumultos na estrada de Kalandia, assim como no resto da Cisjordânia, culminaram em meados de março, durante a inauguração de uma sinagoga na antiga cidade de Jerusalém. Um evento visto como uma provocação pelos palestinos, convencidos de que judeus fanáticos conspiram contra a mesquita Al-Aksa, o terceiro lugar santo do islamismo.

Preocupada em preservar a estabilidade que causa admiração nos países doadores, e em não oferecer a Israel uma distração para as pressões da comunidade internacional, a Autoridade Palestina ordenou a suas tropas que mantivessem a calma. Um discreto bloqueio policial foi erguido sobre o campo de refugiados, que dezenas de shebabs (jovens), enfurecidos, rapidamente contornaram. Apesar dos apelos do Hamas para uma revolta geral, os confrontos na estrada de Kalandia perderam força no final de quatro ou cinco dias.

“Havia um cheiro de Intifada no ar”, diz Yacoub Asaf, líder local do Fatah, o partido do presidente Mahmoud Abbas. “Mas o movimento logo fracassou porque as pessoas ficaram desorientadas. Eles não entendem o jogo da Autoridade que, de um lado, se recusa a negociar, e de outro, impede as manifestações. Não há instruções, ou uma estratégia clara”. Durante a segunda Intifada, iniciada em 2000, Kalandia enterrou 25 shuhada (mártires). Cem habitantes ainda estão na prisão. Um preço pequeno comparado ao que foi pago pelo campo de Balata, perto de Nablus, capital da resistência armada que foi tomada por incursões e bombardeamentos israelenses.

Em compensação, os 11 mil refugiados de Kalandia foram os primeiros a sofrer com a asfixia da Cisjordânia. “Antes da Intifada, o posto de inspeção ficava a dois quilômetros de nós”, conta Asaf. “Depois o exército israelense o avançou para debaixo de nossas janelas. Ele construiu um muro e um observatório em concreto. Se iniciarmos uma terceira Intifada, eles são capazes de cercar cada uma de nossas casas com uma grade. Então, quando sentimos que os jovens estavam extravasando, nós os acalmamos”.

Sinal da angústia, da impotência e da falta de mobilização local, o fim da história também foi determinado pelos usuários da estrada. “Eles nos disseram que as pedras estragavam mais seus carros do que os jipes blindados do exército”, diz, desolado, Jamal Abou Keil, um dos líderes do campo. ”Sem uma melhor organização, esse movimento não irá a lugar nenhum”.

“As pessoas sobrevivem com dificuldade”

Hoje uma camada de tédio e miséria recobre Kalandia. Os dez minutos de carro que separam o campo dos cafés descolados de Ramallah parecem um ano-luz. Aqui, o dinamismo do primeiro-ministro, Salam Fayyad, adulado pela comunidade internacional, e os 7% de crescimento registrados em 2009 não impressionam ninguém. “Nunca os negócios estiveram tão ruins quanto desde o início da Intifada, em 2000”, diz Farès, que vende material de construção. “As pessoas sobrevivem com dificuldade graças aos programas de emergência das Nações Unidas, ou graças a seus magros salários de funcionário público. Elas não podem mais ir trabalhar em Israel”.

Os debates que agitam a sociedade civil de Ramallah sobre a importância da resistência não-violenta também não parecem ter repercussão. “Para vencer nosso inimigo, todos os meios são bons, está escrito no Corão”, professa Youssef, que acaba de cumprir uma pena de cinco anos de prisão por um plano de atentado em Jerusalém. “Haverá uma terceira Intifada, cedo ou tarde. Não será o Hamas que decidirá. Não é a Autoridade que nos impedirá. É o povo, como sempre, que tomará a iniciativa. E os partidos serão obrigados a acompanhar”.

Tradução: Lana Lim

Siga UOL Notícias

Tempo

No Brasil
No exterior

Trânsito

Cotações

  • Dólar comercial

    16h59

    -0,54
    3,265
    Outras moedas
  • Bovespa

    17h20

    1,36
    64.085,41
    Outras bolsas
  • Hospedagem: UOL Host