UOL Notícias Internacional
 

27/03/2010

O segredo da longevidade do Partido Comunista Chinês

Le Monde
Thi Minh-Hoang Ngo*
  • Encerramento do 17º Congresso do Partido Comunista chinês, no Grande Palácio do Povo, em Pequim (China)

    Encerramento do 17º Congresso do Partido Comunista chinês, no Grande Palácio do Povo, em Pequim (China)

Para entender por que o Partido Comunista Chinês (PCC) dura tanto apesar das crescentes manifestações na sociedade, é preciso remontar à história da revolução comunista chinesa, no começo da guerra entre China e Japão (1937-1945). Pois foi nesse momento que o PCC fez a aposta de penetrar profundamente na sociedade, politizando-a ao extremo e transformando as identidades regionais e locais em uma identidade nacional.

Ao recorrer a métodos leninistas de crítica e autocrítica, e também à constituição de dossiês pessoais, o PCC interveio nas relações sociais e familiares, obrigando cada chinês a abandonar sua família, seus amigos e sua rede de relações pessoais para se identificar e se dedicar ao Partido.

A violência e a destruição psicológica que acompanharam esse processo revolucionário foram seguidas de uma reconstrução psicológica marcada pela submissão, mas também pela adesão e fidelidade ao partido.

A linguagem do PCC, seus princípios e suas normas foram adaptados pela sociedade não somente no espaço público, mas também no espaço privado que, apesar da coletivização agrária e da onipresença da unidade de trabalho (a “danwei”), não havia desaparecido totalmente. O espaço privado foi politizado, ele se conservou no espaço público que eram a vila coletivizada ou a unidade de trabalho. Esse processo revolucionário híbrido permitiu que o PCC estabelecesse uma relação direta com cada indivíduo e afirmasse sua onipresença dentro da sociedade.

Hoje, a intensa politização da sociedade permite que o PCC negocie com as manifestações e as várias reivindicações que se exprimem dentro da linguagem e utilizando as normas do partido. É da capacidade do PCC em desenvolver uma linguagem comum com as diferentes camadas sociais ao integrar suas reivindicações e suas preocupações ligadas ao meio ambiente, à saúde, à justiça social dentro de seu arsenal ideológico, que dependem a legitimidade do partido e sua capacidade em durar.

Identidade nacional
Por causa da história da revolução comunista, que estabeleceu os fundamentos das relações entre o partido e a sociedade, não se pode entender a China de hoje somente do ponto de vista dos dissidentes. É preciso pensar o Partido Comunista Chinês em sua interação com a sociedade em razão da linguagem comum que une um ao outro. Veja os camponeses, por exemplo. O PCC lhes deu o formidável poder de se exprimirem em uma linguagem revolucionária durante a revolução comunista chinesa. É esse poder de expressão que os camponeses utilizam contra as expropriações e os abusos dos dirigentes locais, apelando diretamente ao partido.

A sociedade chinesa é poderosa, e capaz de exprimi-lo hoje. O PCC sabe perfeitamente disso, pois foi ele mesmo que lhe deu esse poder, especialmente aos camponeses, no momento da revolução comunista chinesa.

Para durar, o PCC deve agora propor a essa sociedade uma identidade nacional forte, fundada sobre a história da revolução comunista, mas que também integra identidades ao mesmo tempo locais e inscritas em um espaço globalizado criado pela adoção do capitalismo, pelas migrações, pelas comunidades de chineses em outros países, pela revolução digital.

Seria o Partido Comunista Chinês capaz de propor uma linguagem e símbolos de identidade que permitam a adesão da maioria dos chineses? A revolução não terminou na China. A sociedade chinesa pede por direitos e poder. Será o PCC capaz de responder a esse desafio para manter sua legitimidade?

De qualquer forma, é mais do ponto de vista da história das relações e das interações entre o partido e a sociedade do que da repressão que se pode entender a evolução da China de hoje.

*Thi Minh-Hoang Ngo é historiadora especialista em China contemporânea, do Instituto de Pesquisa sobre o Sudeste Asiático (Irsea).

Tradução: Lana Lim

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