UOL Notícias Internacional
 

31/03/2010

Nações Unidas realiza evento para discutir a reconstrução do Haiti

Le Monde
Grégoire Allix
  • Homem caminha desolado pelos destroços do terremoto que atingiu a capital do Haiti, Porto Príncipe

    Homem caminha desolado pelos destroços do terremoto que atingiu a capital do Haiti, Porto Príncipe

É preciso reinventar Porto Príncipe? Como evitar que a ajuda estrangeira seja desviada? Essa deve ser a primeira pedra da reconstrução do Haiti. Após uma série de reuniões preparatórias que ao menos permitiram limpar o terreno das ideias, uma Conferência Internacional dos Doadores para um Futuro Melhor para o Haiti reunirá mais de cem países, na quarta-feira (31), na sede das Nações Unidas em Nova York.

Devastado no dia 12 de janeiro por um terremoto que fez pelo menos 220 mil mortos, deixou 1,3 milhão de desabrigados e arruinou sua infraestrutura, o Haiti vive há dois meses e meio na urgência humanitária. O tempo da reconstrução começou. “O que nós imaginamos hoje não é nada menos do que uma completa reforma nacional”, disse na segunda-feira o secretário-geral das Nações Unidas, Ban Ki-moon, em uma coluna publicada pelo “Washington Post”. Com o que se pareceria esse “novo Haiti”? A comunidade internacional esboça a visão ideal de uma Porto Príncipe “sustentável”, reconstruída com profissionalismo graças a um novo arsenal de normas parassísmicas. As favelas sobre buracos seriam esvaziadas para dar lugar a bairros residenciais construídos na periferia. Mais importante de tudo, tanto a população quanto a atividade econômica agora seriam harmoniosamente distribuídas pelas diferentes cidades do país em um engenhoso coquetel de desconcentração e descentralização, em vez de sufocar a “República de Porto Príncipe”.

Porto Príncipe continuará sendo pobre depois da reconstrução. “Os dirigentes ocidentais e alguns especialistas têm visões desconectadas da realidade”, acredita Jean-Yves Barcelo. Para esse diretor da ONU-Habitat, que definiu a intervenção da agência no Haiti no dia seguinte ao terremoto, o novo Haiti corre um grande risco de se parecer com o antigo. “Só poderemos fazer coisas modestas, não poderemos transformar Porto Príncipe na capital do desenvolvimento sustentável: o Haiti era um país pobre antes do terremoto, e ele continuará o sendo após a reconstrução, analisa. Um realismo compartilhado pelo primeiro-ministro haitiano, Jean-Max Bellerive. “Claro, nós queremos reconstruir um país com base no desenvolvimento sustentável, uma economia competitiva apoiada na inovação, e no sistema de saúde”, descreve. “Mas essa é a parte do sonho; nosso trabalho, hoje, é a realidade”.

Longe da utopia da tabula rasa, é de um bom remendo que Porto Príncipe precisará. Esse projeto existe. Em 2004, um plano de reurbanização havia sido organizado por Leslie Voltaire, hoje conselheiro especial do primeiro-ministro, com a colaboração de Jean-Yves Jason, atual prefeito da capital. O projeto havia sido esquecido em uma gaveta, por falta de recursos. “Ele previa basicamente novos eixos de desenvolvimento e meios para aliviar a cidade através da construção de pontes e estradas”, explica Voltaire, para quem “esse plano ainda é perfeitamente utilizável”.

A questão é realojar as pessoas em grande escala e rapidamente. O pragmatismo também vale para a própria reconstrução. Para muitos observadores, há menos urgência na definição de padrões internacionais de construção do que no treinamento direto da população em algumas regras elementares, cujo custo adicional não passaria dos 15%, segundo estimativas de autoridades haitianas. “A questão é realojar um grande número de pessoas rapidamente e com pouco dinheiro, ao mesmo tempo em que se elimina o risco”, resume Patrick Coulombel, presidente da fundação Architectes de l’Urgence, que conduziu diversas missões no Haiti. Para ele, “será muito mais barato reforçar os prédios danificados para torná-los parassísmicos e anticiclônicos do que demolir tudo para reconstruir. Mas é um trabalho pesado, que exige uma avaliação sistemática de terreno, e portanto o treinamento de pessoas para fazê-lo”. O problema é ainda maior para o setor da moradia, em sua maior parte informal. “Sabemos que as pessoas vão reconstruir elas mesmas suas casas, então é preciso ir até os bairros e comunidades, ensinar-lhes soluções simples para construir de forma sólida e segura”, argumenta o arquiteto.

Deter o êxodo para a capital

A reconstrução não livrará o Haiti das favelas onde viviam, antes do terremoto, 70% dos cidadãos do país, apesar das tentativas do governo de instalar a população em “vilarejos” estabelecidos em terrenos menos arriscados na periferia da cidade. “Nós estamos construindo locais permanentes a partir de abrigos temporários que as próprias pessoas melhorarão”, explica o primeiro-ministro. “Nós temos vários terrenos prontos para receber a população: tem água, sanitários, e traremos empregos”. O problema: “ninguém quer ir para lá”, reconhece Bellerive. As pessoas dizem que querem ficar perto do centro, mas de qual centro? Não tem mais nada lá!”

Destruída ou não, Porto Príncipe continua sendo a capital econômica do país, pondo em risco a esperança, compartilhada pela comunidade internacional e pelo governo haitiano, de que o milhão de vítimas que deixaram a região de Porto Príncipe não voltará para lá. Para Barcelo, da ONU-Habitat, “as pessoas voltarão porque é lá que se encontram as oportunidades econômicas, ainda que não passem de bicos. O risco é que a reconstrução atraia ainda mais pessoas do que antes à capital, ao criar muitos empregos e a esperança de ganharem uma casa”.

É somente desenvolvendo as moradias, os empregos e os serviços públicos nas cidades secundárias que aliviaremos Porto Príncipe, reconhecem os doadores. Uma descentralização delicada: ela exige que o Estado coloque funcionários públicos em todo o território. Ora, o terremoto fez 18 mil vítimas no setor da administração.

A França propõe a cooperação descentralizada, na qual comunidades locais ocidentais ajudariam diretamente seus colegas do Sul. “Para descentralizar, é preciso já ter um centro”, diz o primeiro-ministro haitiano. “Eu não tenho recursos orçamentários e quase nenhum controle sobre as competências normais de um Estado: o que é que vocês querem que eu descentralize?”

Tradução: Lana Lim

Siga UOL Notícias

Tempo

No Brasil
No exterior

Trânsito

Cotações

  • Dólar comercial

    17h00

    0,40
    3,279
    Outras moedas
  • Bovespa

    17h20

    0,95
    63.257,36
    Outras bolsas
  • Hospedagem: UOL Host