UOL Notícias Internacional
 

04/04/2010

Países candidatos ao euro temem ser prejudicados pela crise grega

Le Monde
Marie de Vergès e Philippe Ricard
Em Bruxelas (Bélgica)

Eles estão fora da zona do euro, mas veem com maus olhos a crise provocada pelo desvio orçamentário da Grécia: os Estados jovens membros da União Europeia (UE), a leste e nordeste do continente, se preocupam por terem de esperar mais do que o previsto para poderem adotar a moeda única.

“Os Estados membros da zona do euro não respeitaram suas próprias regras”, criticou a ex-presidente da Letônia, Vaira Vike-Freiberga, hoje membro de um “comitê de sábios” encarregado de repensar o futuro da UE. “Acho que servir-se disso como desculpa para não manter suas promessas aos futuros membros é ridículo, sinceramente”, irritou-se durante um debate na Polônia, na segunda-feira (29), com autoridades governamentais e financeiras.

Entre os antigos países do bloco comunista, até hoje somente a Eslovênia e a Eslováquia adotaram a divisa europeia. A lista dos candidatos é longa. As três Repúblicas bálticas – Estônia, Letônia, Lituânia – já atrelaram sua moeda ao euro por uma taxa fixa.

A Estônia espera adotá-lo até 2011. A Bulgária quer integrar a partir deste ano o mecanismo de câmbio europeu (MCE II), porta de entrada para a zona. Usando a crise como argumento, a Polônia a Hungria chegaram a pedir, em 2009, que os fundadores do euro simplificassem os procedimentos de adesão. Em vão. Na época, a moeda única parecia constituir um escudo eficaz para se proteger da crise financeira. Mas o quase-naufrágio grego colocou à prova a coesão da união monetária (16 Estados membros), e fragilizou sua ampliação.

A princípio, os candidatos ao euro podem adotar a moeda única contanto que respeitem os critérios de convergência estabelecidos pelo Tratado de Maastricht: finanças públicas em ordem, controle da inflação, taxas de câmbio estáveis.

O Banco Central Europeu (BCE) é muito firme quanto ao cumprimento dessa lista de especificações. Para os diretores dos bancos centrais, não se trata somente de um teste: devem-se respeitar os critérios de seleção de forma estável. “Não basta passar pelo radar no limite da velocidade”, resume um alto dirigente monetário europeu. “Os países que querem entrar no euro devem ser capazes de respeitar esses critérios a longo prazo, mesmo com a política monetária do BCE”.

Passadas as turbulências desses últimos meses, os países maiores poderiam ficar tentados a concentrar seus esforços sobre a consolidação da zona do euro antes de ampliá-la. A França poderia enfatizar as dificuldades gregas para incentivar a Alemanha, que normalmente está mais predisposta a ampliar a zona do euro, a se manter prudente. “Está claro que a crise grega é um alerta”, diz um especialista financeiro. “Ela revela os problemas de competitividade dos países: o euro lhe dá cinco ou seis anos de déficit sem lágrimas, mas o castigo chega uma hora ou outra”.

“Não vamos impor novas condições só porque temos um problema com um membro de longa data da zona do euro”, retorquiu Angela Merkel. Intransigente com a Grécia, a chanceler alemã exige que os candidatos ao euro sejam tratados “com lealdade”.

Em Vilna, Sófia ou Varsóvia, teme-se um endurecimento das regras. “Seria um grande erro”, disse, no início de março, o primeiro-ministro lituano Andrius Kubilius, cujo país havia sido reprovado por pouco em 2007, por causa de uma inflação volátil demais. Alguns dirigentes europeus já pediram, no ano passado, por uma modificação dos critérios de seleção, integrando a eles o balanço dos pagamentos. Entre os novos Estados membros, muitas vezes ele é deficitário, por causa do afluxo de capitais estrangeiros investidos nessas economias em plena transição.

“Os dirigentes europeus certamente tentarão dissuadir discretamente alguns candidatos”, afirma Gunter Deuber, economista do Deutsche Bank e especialista em Leste Europeu. “A prudência é justificada para alguns, que ainda estão em plena regularização. Mas outros fizeram seu dever de casa e merecem sua adesão, como a Estônia”.

Os países da região não têm as mesmas fraquezas econômicas. A Hungria tem uma dívida pública grande que beira os 80% de seu produto interno bruto (PIB). Atingida em cheio pela crise, no outono de 2008 ela recebeu socorro financeiro do Fundo Monetário Internacional (FMI) e da UE. Os países bálticos sofreram uma inflação galopante antes de serem atingidos pela crise.

Mas muitos iniciaram grandes reformas estruturais para entrar em conformidade com as regras de Maastricht. A Estônia, por exemplo, tomou rígidas medidas de austeridade, entre as quais um corte de dois dígitos nos salários. Hoje ela é vista como uma candidata sólida. Mas atrás dela a porta poderá se fechar por um bom tempo.

Tradução: Lana Lim

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