UOL Notícias Internacional
 

05/04/2010

No Egito, surge uma alternativa política viável frente a Hosni Mubarak

Le Monde
Patrice Claude
  • Garoto participa de manifestação diante da embaixada do Egito em Beirute, no Líbano. Cerca de 200 pessoas protestaram contra o ditador egípcio, Hosni Mubarak, devido à construção de uma barreira subterrânea entre o Egito e a faixa de Gaza

    Garoto participa de manifestação diante da embaixada do Egito em Beirute, no Líbano. Cerca de 200 pessoas protestaram contra o ditador egípcio, Hosni Mubarak, devido à construção de uma barreira subterrânea entre o Egito e a faixa de Gaza

A primeira aparição pública no Cairo de Mohamed ElBaradei, ex-diretor da AIEA, alimenta as especulações sobre suas ambições. 

Mais frágil do que nunca, Hosni Mubarak, presidente da República do Egito há mais de 29 anos, voltou ao país no sábado (27) após três semanas de licença médica. Na véspera, em grande forma física, Mohamed ElBaradei, possível concorrente do rais [presidente], fazia sua primeira aparição pública no Cairo desde sua volta em fevereiro após uma ausência de quase trinta anos. 

No aeroporto balneário de Sharm el-Sheikh, onde ele deverá descansar por mais quinze dias após ter sofrido uma operação na Alemanha para a remoção da vesícula biliar e de um pólipo, o presidente autocrata foi recebido por uma tropa de ministros e militares. Na mesquita Al-Hussein, no antigo Cairo, o ex-diretor da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) se viu cercado por uma multidão de pessoas gritando: “Viva o Egito! Viva Baradei! Você é nossa esperança!” 

Essas duas imagens da vida política de uma nação de 80 milhões de pessoas onde tudo parecia estagnado há tanto tempo ilustram, com 24 horas de distância, a transição que parece se abrir no Egito. O rais, que revelou um dia querer permanecer no poder “até o (seu) último suspiro”, ainda não disse se voltaria a se candidatar a um sexto mandato de seis anos à frente do Estado. Mas “independentemente do que acontecer”, acredita Amr El Shubaki, escritor e analista do Cairo, “é provável que Mubarak não se recandidate em 2011”. É o que também pensa o professor de ciências políticas Mustafa Kamel Sayed e outros observadores entrevistados pelo “Le Monde”. 

A idade do rais – ele fará 82 anos no início de maio – e sua frágil saúde, sobre a qual é proibido se especular no Egito, sob pena de prisão, estão presentes nos pensamentos de todos. O mesmo pode ser dito sobre a eventualidade de uma candidatura de ElBaradei, reformista proclamado de 67 anos que por enquanto se contenta em pedir em todas suas entrevistas às redes privadas árabes por “uma mudança profunda”, uma guinada de 180 graus na gestão política interna à qual, ele acredita, “o país aspira fortemente”. 

A questão da sucessão está formulada, mas a equação contém várias incógnitas. A primeira é saber se Mubarak, ex-soldado, presidente dos militares e dos serviços de segurança que apóiam seu governo, não teimará em continuar. Ao contrário de seus predecessores, o rais nunca nomeou um vice-presidente. A segunda incógnita consiste em avaliar as chances de uma sucessão dinástica. Mubarak afastou essa possibilidade. Mas Gamal, seu caçula que, assim como o filho mais velho, é um riquíssimo empresário, ocupa há algum tempo a direção do escritório político do Partido Nacional Democrático (PND), o partido do presidente. 

Por meio de eleições legislativas arranjadas, das quais somente 10% a 20% dos eleitores participam, há décadas o PND obtém entre 70% e 80% dos mandatos. A próxima eleição deverá acontecer em novembro. Antes disso haverá, no mês de maio, eleições para a Shura, espécie de Câmara Alta sem verdadeiro poder. 

Os analistas políticos acreditam, como conta um deles, que “as chances de Gamal, que aos 46 anos nunca disse se o cargo lhe interessava, diminuíram com a saúde frágil do pai”. De qualquer forma, como sempre, “é o exército que decidirá”. Assim, o nome do general Omar Suleiman, 75, homem de confiança do rais e poderoso diretor dos serviços secretos, continua a subir periodicamente. “Mubarak”, conta um jovem político do PND que prefere se manter anônimo, uma vez que no Egito ninguém pode falar das forças armadas ou da família do presidente sem correr o risco de ser preso, “sempre preferirá um militar”. “Após a invasão do Iraque, ele havia aconselhado os americanos a nomearem um general em Bagdá!” 

Há ainda uma grande incógnita: o mistério ElBaradei. Advogado, diplomata internacional, co-Prêmio Nobel da Paz em 2005 com sua agência da ONU por ter resistido, sem sucesso, às sirenes de guerra da administração Bush no Iraque, o “outsider” egípcio afirma que ele só se candidatará se tiver a garantia de que a eleição presidencial tem uma chance de ser “limpa”. Ele exige emendas constitucionais que limitem o poder quase faraônico exercido pelo presidente. Ele quer, entre outras coisas, um acesso midiático igual para todos os candidatos, uma supervisão judicial da votação e a abertura dos postos de votação para ONGs. 

No estado atual da Constituição, alterada em 2007 para impedir qualquer candidatura independente e todo direito de acesso a quem quer que seja, incluindo a magistratura, aos resultados anunciados, ElBaradei, homem sem partido reconhecido e sem apoio no Parlamento, não tem nem mesmo direito de se candidatar. 

Um mês após seu retorno, o ex-diretor da AIEA suscitou uma imensa esperança. Os intelectuais e ativistas que o cercam conseguiram mais de 200 mil assinaturas no site da internet criado em seu nome. Algo jamais visto! “No auge de seu apoio em 2004-2005”, lembra Amr El Shubaki, “o movimento Kefaya! (Basta!) lançado na internet por jovens opositores que exigiam a democracia, obteve somente 14 mil assinaturas”. Nada resultou disso. A prova de que, no Egito, ainda há uma distância entre o virtual e o real.

Tradução: Lana Lim

Siga UOL Notícias

Tempo

No Brasil
No exterior

Trânsito

Cotações

  • Dólar comercial

    16h59

    -0,54
    3,265
    Outras moedas
  • Bovespa

    17h20

    1,36
    64.085,41
    Outras bolsas
  • Hospedagem: UOL Host