UOL Notícias Internacional
 

07/04/2010

Adeptos de um islamismo moderado são visados pelos talebans paquistaneses

Le Monde
Frédéric Bobin
Enviado especial a Peshawar (Paquistão)

Em Peshawar, nas ruínas do santuário de um ícone sufi, a poesia se opõe à violência.

Restou somente um pedestal chato e redondo como um disco, de cimento rachado. No centro, o túmulo do santo, envolvido por um tecido púrpura e coberto com uma lona simples. A sepultura de Rehman Baba, famoso poeta pashtun do século 18, agora está sem proteção, exposto às intempéries, atingida pelo vento cheio de poeira que sopra da fronteira afegã, tão próxima.

Erguido em um subúrbio de Peshawar, principal cidade do noroeste do Paquistão, o mausoléu coberto por uma cúpula, que atraía multidões de peregrinos em rituais fervorosos, não resistiu ao atentado de março de 2009. A construção foi arrasada.

Rehman Baba, ícone desse islamismo sufi cujo misticismo é considerado herético pelos fundamentalistas, era um símbolo a ser atingido. O crime não foi reivindicado. Mas em Peshawar, todos os olhares se voltaram para o Lashkar-e-Islam (exército do islã), um grupo extremista que opera segundo o movimento ideológico dos talebans.

Canto a plenos pulmões

Estabelecido na zona tribal vizinha de Khyber, o Laskhar-i-Islam, ligado à escola deobandi, próxima do wahhabismo saudita, vem atacando santuários sufis nos últimos anos. Antes do mausoléu de Rehman Baba, ele havia destruído, nos arredores de Peshawar, as tumbas de Abu Said Baba e de Abdul Shakur Malang Baba, santos venerados pela população local.

Khan Sardar é o guardião do local. De barrete branco na cabeça, bigode escuro, seu olhar é coberto por emoção quando se lembra do atentado contra o túmulo de Rehman Baba. “Nós ficamos tão chocados”, suspira. “Não podíamos imaginar que um ato como esse pudesse ser cometido”.

Ele se lembra que panfletos haviam sido distribuídos durante a noite nas semanas anteriores. “Eles avisavam que o lugar ia ser atacado. Essas pessoas não acreditam nos santos”. O alerta não foi levado a sério. Os agressores conseguiram facilmente penetrar no local e colocar seus explosivos na base dos pilares do edifício. Khan Sardar colocou uma equipe de vigias no local. Mas foi tarde demais.

Apesar de o mausoléu ter sido destruído, o santuário continua a viver, a palpitar com fervor. Os fiéis continuam indo à mesquita – intacta – ou se entregam a duelos poéticos sob um teto de vigas. Sentado de pernas cruzadas sobre uma esteira de vime, um velho um pouco desdentado canta a plenos pulmões. A multidão se reúne em torno dele. Com sua voz trêmula, o ancião declama poemas de Rehman Baba.

Em intervalos regulares, ele fecha os olhos e levanta a palma da mão, com um sorriso de êxtase pendurado em sua barba branca. Ao seu lado, seus companheiros cadenciam suas estrofes também erguendo suas mãos para o teto de palha onde gorjeiam pardais. E o velho canta: “Ninguém poderá cicatrizar minhas feridas, pois cada ponto de sutura abrirá uma nova chaga”, “Você pode rir e dormir pois seu coração foi poupado pela dor, mas eu não posso”.

Do lado de fora do santuário, o tráfego é intenso. Misturados a carroças puxadas por burros, caminhões de caçambas pintadas com desenhos naif – tigres sobre um fundo de picos nevados – voltam para a fronteira afegã, depois de terem esvaziado suas cargas. Eles correm para o porto de Karachi para se reabastecerem. E, indiferente a todo esse coro de metal que vem da rua, o velho continua a declamar, embriagado com o verbo do poeta: “Ninguém poderá cicatrizar minhas feridas”.

Tradução: Lana Lim

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