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08/04/2010

Investigação sobre rumores contra o casal Sarkozy vira caça às bruxas na França

Le Monde
Raphaëlle Bacqué e Gérard Davet
  • O presidente francês Nicolas Sarkozy e a cantora Carla Bruni durante visita às pirâmides de Giza no Cairo, quando ainda namoravam (30/12/2007)

    O presidente francês Nicolas Sarkozy e a cantora Carla Bruni durante visita às pirâmides de Giza no Cairo, quando ainda namoravam (30/12/2007)

O governo da França recorreu à contraespionagem para identificar a origem das alegações em torno do casal presidencial.

Uma investigação foi conduzida pela direção central da inteligência interna (DCRI), o serviço de contraespionagem francês, por ordens do palácio do Eliseu, para descobrir a origem do rumor que há quase um mês preocupa o governo. A DCRI garante que, antes de tudo, graças aos meios tecnológicos empregados, tratava-se de encontrar o suporte técnico, na França e no exterior, que tivesse facilitado a propagação do rumor que circulava sobre Nicolas Sarkozy e sua esposa Carla Bruni-Sarkozy. Nada mais, afirma a DCRI. A direção central nega ter instalado escutas telefônicas administrativas. E menos ainda ter investigado Rachida Dati.

Esta última, furiosa por ter sido acusada de ter espalhado um boato sobre supostas infidelidades entre o casal presidencial, se defendeu. “Estou sendo acusada indiretamente, acho isso absurdo. Nós estamos em um Estado de direito, isso precisa parar”, protestou, na quarta-feira (7), na rádio RTL.

O nome da ex-ministra da Justiça de fato foi logo mencionado pela equipe de Sarkozy. Conselheiro próximo do presidente, Pierre Charon, e também membro do Conselho de Paris, milita contra as ambições municipais da ex-ministra. Brice Hortefeux, ministro do Interior, já lhe tirou sua escolta policial e sua viatura ministerial. Entretanto, nada até agora confirma suas suspeitas de que a ex-ministra teria sido responsável pelo rumor.

Mas a investigação judicial ordenada em 2 de abril pela promotoria de Paris, por “introdução fraudulenta de dados em um sistema informático”, após queixa da direção do “Journal du Dimanche”, poderá permitir que a Brigada de Inquérito sobre Fraudes em Tecnologias da Informação (Befti) chegue à fonte das fofocas.

Tudo começou no dia 6 de março, sendo que o rumor sobre o casal presidencial invadiu a rede e o Twitter em meados de fevereiro. Carla Bruni-Sarkozy foi entrevistada por uma jornalista britânica da Skynews que mencionou o chefe do Estado e os rumores que “lhe atribuíam vários casos”. Bruni-Sarkozy, gélida, respondeu: “Ele não pode ser infiel. Você já viu fotos que provem o contrário?” Mas ao terminar a entrevista, ela explodiu em fúria. Ela entende que o rumor agora pareça crível, pelo menos aos olhos da imprensa estrangeira. No começo Sarkozy ignorou essas fofocas. Mas Bruni-Sarkozy, humilhada por sua entrevista televisionada, exigiu que acabassem com esses boatos.

Pierre Charon, que coordena parte da comunicação de Carla Bruni-Sarkozy, foi convocado. O caso está adquirindo dimensões maiores. Franck Louvrier, chefe da comunicação do Eliseu, também vem recebendo um número impressionante de telefonemas de jornalistas. Assim como o ministro do Interior. Sarkozy exigiu uma investigação policial, que foi confiada à DCRI.

No dia 9 de março, entretanto, as coisas tomaram um novo rumo. Por volta da 1h30 da manhã, um jovem funcionário da Newsweb, filial do grupo Lagardère responsável por administrar o site Jdd.fr, postou em seu blog aquilo que ele ouvia em todos os lugares. Esse funcionário de 23 anos foi contratado para gerar audiência nos sites. Então ele decidiu fazer uma nota humorística sobre o tema em seu blog. “Soubemos que o Eliseu foi atingido por um terremoto de magnitude 9...”, escreveu. Em algumas horas, a rede pegou fogo. A notícia foi reproduzida pela imprensa estrangeira que, desde a Índia até a China, apresentou a notícia como uma informação do “Journal Du Dimanche”, um dos títulos do grupo Lagardère. Com a garantia do “JDD”, o rumor tornou-se uma informação confiável. Mas em plena campanha de eleições regionais, essas supostas infidelidades conjugais foram vistas como uma perigosa ameaça política.

Por diversas vezes, tanto Charon quanto o advogado de Sarkozy, Thierry Herzog, prestaram queixas contra os sites. Dessa forma eles conseguiram, após uma advertência, que um servidor hospedado na Holanda retirasse informações consideradas “insultantes” sobre Bruni-Sarkozy.

O “Journal Du Dimanche”, por sua vez, fechou seu blog em algumas horas. Mas ele ainda não sabe de onde veio a informação. O presidente da República exige que o grupo Lagardère encontre a fonte. No dia 21 de março, Michael Amand, diretor de operações do site Newsweb, explicou que a crônica foi postada por um de seus funcionários, a partir de sua casa. A pessoa em questão logo foi demitida, e Michael Amand pediu demissão.

Ao contrário do que costuma fazer em matéria de difamação, Sarkozy não contra-atacou ele mesmo no plano judiciário. Ele deixou para o grupo Lagardère prestar queixa, no dia 26 de março. “Ou o funcionário que colocou essa informação no blog agiu por iniciativa própria”, explica Christophe Bigot, advogado do “JDD”, “ou ele foi usado”. Então a promotoria de Paris ordenou uma investigação à polícia judicial parisiense. Um diretor da Newsweb foi interrogado na sexta-feira (2).

O caso poderia ter sido contido, se Charon não tivesse dito que suspeitava de Rachida Dati. Ao “Nouvel Observateur”, ele chegou a garantir que “o medo deve mudar de lado”, e menciona uma “espécie de complô organizado”.

Ao “Le Monde”, ele explicou que “o procedimento judiciário pode permitir que se encontrem as fontes e as ramificações. São esses autores anônimos que devem ter medo agora, e não mais suas vítimas”. Correndo o risco de irritar ainda mais uma opinião pública que já acusa o presidente de ter dessacralizado o cargo.

Tradução: Lana Lim

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