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08/04/2010

Renasce a desconfiança entre negros e brancos na África do Sul

Le Monde
Jean Philippe Rémy
  • O líder direitista sul-africano Eugene Terreblanche, assassinado brutalmente na África do Sul

    O líder direitista sul-africano Eugene Terreblanche, assassinado brutalmente na África do Sul

Em uma África do Sul que tenta se reinventar sob uma forma multirracial há menos de vinte anos, a cena parece um pesadelo. Diante do pequeno tribunal de Ventersdorp, onde na terça-feira (6) compareceram os dois supostos assassinos do líder de extrema direita Eugène Terreblanche, os brancos estão à direita. À esquerda, os negros. No meio, policiais amedrontados que queriam estender arame farpado entre os grupos vociferantes para evitar que o confronto racial virasse uma briga, mas seus caminhões atolaram. Um breve momento de relaxamento.

O que opõe as duas massas hostis é a abertura do julgamento do homem de 28 anos e do adolescente de 15 empregados na fazenda de Eugène Terreblanche, que o teriam matado em uma briga causada por sua recusa em pagar três meses de salários atrasados. Essa versão deve ser ouvida com cautela. No momento, ninguém se pergunta sobre o fato de que um menor seja empregado e aparentemente mal pago em uma fazenda sul-africana.

O julgamento, já pego pela fúria racial, será realizado a portas fechadas. Para as centenas de militantes ou simpatizantes do partido de Eugène Terreblanche, o Movimento de Resistência Africâner (AWB) – cujo eixo político foi por muito tempo a utilização da violência para impor os valores do apartheid - , Eugène Terreblanche era um “combatente da liberdade”, segundo Tiaan Theron, que pegou nove horas de estrada para vir até Ventersdorp defender o direito dos africâneres de “se autogovernarem”, e se define como “um bôer” (fazendeiro, e também todos os africâneres, descendentes de colonos europeus)”.

Em frente, membros da ANC (Congresso Nacional Africano, partido governista) organizam a contramanifestação. Entre a multidão vinda da municipalidade vizinha de Tshing, ainda se baixa o tom para dizer certas coisas. “Sempre tivemos medo dos fazendeiros. Não se pode brigar com essa gente, eles são perigosos demais”, acredita Godefrey Mokone. “À noite, eles dizem que os negros não devem ficar na cidade...”

Do lado da ANC há um herói: Julius Malema, líder do braço da juventude do partido, que trata das relações raciais usando uma linguagem que se inspira mais em Robert Mugabe, o ditador zimbabuano, do que em Nelson Mandela. Julius Malema acaba de colocar novamente em circulação uma antiga canção dos anos de luta, cujo refrão clama “Mate o Bôer!”

Ódio palpável

Os africâneres, por sua vez, devolvem a provocação apresentando-se como vítimas de uma campanha “de eliminação”, segundo Quentin Diederichs. Pois tanto entre os negros como entre os brancos, concorda-se em uma coisa: o assassinato de Eugène Terreblanche é uma formidável ferramenta de promoção política. Então não será derramado sangue em Ventersdorp hoje, pois cada lado sabe o quanto o espetáculo da violência seria contraprodutivo. O porta-voz da AWB, Piet Steyn, chega a anunciar que uma “vingança” está fora de cogitação.

A AWB estava prestes a ser extinta. O partido garante ter recebido a inscrição de “3 mil novos membros” desde domingo, e ganhou um novo líder, Steyn van Ronge, para promover “soluções não-violentas”, tentando aparecer como o partido dos brancos vítimas das injustiças da África do Sul pós-apartheid. “Como eu poderia estar feliz em ser o representante de uma minoria em um país governado por uma maioria que me é hostil, e onde pessoas como eu são mortas?”, pergunta Tiaan Theron.

Alguns agitadores desprezam as recomendações, como o senhor de braços grossos como coxas que não consegue resistir à tentação de dar uma breve aula de história, mas não seu nome: “Éramos só alguns poucos [no século 19, os primeiros africâneres] e conquistamos todas essas terras porque Deus estava conosco. Foi Deus que nos trouxe aqui, não vamos embora assim. Diga isso aos negros”. Do lado africâner, estendem as bandeiras do apartheid e das repúblicas bôeres de antes de 1910. Em frente, os negros cantam. O ódio é palpável, a história sul-africana não chegou ao fim, na terça-feira, em Ventersdorp.

Tradução: Lana Lim

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