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09/04/2010

Construção de usina elétrica a carvão na África do Sul cria polêmica com os EUA

Le Monde
Bertrand d?Armagnac
  • Trabalhadores fazem reparos em uma usina a carvão no noroeste da China. A usina é semelhante a que a África do Sul pretende erguer no país, gerando polêmica

    Trabalhadores fazem reparos em uma usina a carvão no noroeste da China. A usina é semelhante a que a África do Sul pretende erguer no país, gerando polêmica

O possível apoio financeiro do Banco Mundial ao projeto entra em contradição com sua vontade de desenvolver as energias renováveis. Diversos países, entre os quais os Estados Unidos, estão preocupados.

Como passar para uma energia “verde” sem sacrificar o presente? O pedido de empréstimo da África do Sul junto ao Banco Mundial para um projeto de usina elétrica a carvão e analisado pelo Conselho da instituição financeira, na quinta-feira (8), ilustra esse dilema.

Além da importância do financiamento que poderá ser concedido à empresa sul-africana Eskom – US$ 3,7 bilhões (R$ 6,5 bilhões), dos quais 3 bilhões para a usina - , é a escolha do carvão pela África do Sul que entra em conflito com os países financiadores e as organizações não-governamentais (ONG).

O possível apoio do Banco Mundial a essa questão põe em evidência as posições ambíguas da instituição internacional, dividida entre seu apoio à luta contra o aquecimento global e sua repetida ajuda a projetos com base em combustíveis fósseis.

Segundo o governo sul-africano, é impossível abandonar a usina de Medupi, na região nordeste do país. O projeto – cujo custo total é de US$ 17,3 bilhões – deve permitir reduzir a insegurança energética do país. Com as seis unidades do local em funcionamento de 2012 a 2015, a usina deve mostrar uma potência de 4.800 megawatts (MW) e aumentar o potencial elétrico do país em quase 12%.

Para justificar seu apoio, o Banco Mundial aponta para a falta de eletricidade que pesa sobre o desenvolvimento da região. A África do Sul exporta energia para os Estados vizinhos.

“Nós apoiamos esse projeto porque a África do Sul, que não recebeu nenhum grande investimento em matéria de energia desde 1994, viu sua população com acesso à eletricidade passar de 31% em 1994 para 88% em 2010, resultando na necessidade de eletricidade adicional”, explica Inger Andersen, diretora de projetos de desenvolvimento sustentável na África.

“Não há alternativa”

“Não há alternativa para o carvão a curto prazo. Em compensação, a longo prazo talvez outras opções, como energias renováveis, possam ser desenvolvidas”, afirma Andersen. Dos US$ 3,7 bilhões do empréstimo, mais de 500 milhões seriam destinados à energia solar e eólica.

As opções do Banco Mundial não são unanimidade. Para países-membros do Conselho, como os Estados Unidos, o Reino Unido e a França, é difícil aceitar apoiar um projeto que será a quarta maior usina a carvão do mundo, e portanto um dos pontos industriais mais poluentes.

Em 2009, a administração Obama pediu a seus representantes nas instituições de auxílio multilateral que se certificassem de que os projetos apoiados facilitariam o desenvolvimento das tecnologias sustentáveis.

Em novembro de 2009, os Estados Unidos se abstiveram na votação sobre o projeto Medupi perante o conselho do African Development Bank, que também financia sua construção. Em outubro de 2009, o presidente da República, Nicolas Sarkozy, garantiu à ONG Amigos da Terra que a França cuidaria para que “os financiamentos públicos passem a ser coerentes com os objetivos (...) da luta contra o aquecimento global”.

Várias ONGs se mobilizaram, apontando não somente a falta de ambição em matéria de energias renováveis e de eficiência energética, mas também o impacto da abertura de novas minas destinadas a fornecer os 14,6 milhões de toneladas de carvão necessários a cada ano para operar a usina. Além disso, “a eletricidade produzida pela Medupi beneficiará sobretudo as indústrias mineradoras e metalúrgicas, e menos o cidadão comum”, acredita Anne-Sophie Simpere, da Amigos da Terra.

As pressões das grandes nações ocidentais sobre as instituições de financiamento multilaterais, entre as quais o Banco Mundial, ofenderam outros países emergentes, que também têm grandes necessidades em eletricidade.

Segundo a Agência Internacional de Energia, em países como China, Índia, Rússia e Brasil, o aumento da capacidade energética à base de carvão deverá atingir 250 mil MW de 2010 até 2020. O que não deverá facilitar a tarefa do Banco Mundial.

Tradução: Lana Lim

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