UOL Notícias Internacional
 

10/04/2010

Reprimido pelo governo, principal movimento de oposição no Egito está dividido quanto a seu futuro

Le Monde
Patrice Claude
Enviado especial ao Cairo (Egito)
  • Egípcios simpatizantes do grupo Irmãos Muçulmanos protestam contra Israel nas ruas do Cairo

    Egípcios simpatizantes do grupo Irmãos Muçulmanos protestam contra Israel nas ruas do Cairo

Dezesseis altos membros dos Irmãos Muçulmanos detidos no mês de fevereiro foram libertados, na quinta-feira (8), depois de uma decisão da Justiça. Em um país onde o estado de urgência em vigor há trinta anos permite a detenção indefinida de qualquer um que desagrade ao governo, essa decisão não é capaz de tranquilizar a irmandade, há meses alvo de uma campanha de repressão.

Khaled Hamza, o webmaster do movimento, tem certeza disso: “O governo de Hosni Mubarak decidiu nos tirar de cena”. Khalil al-Anani, do Centro de Estudos Estratégicos de Al-Ahram no Cairo, um dos mais importantes pesquisadores egípcios sobre o tema, concorda: “Parece que o regime decidiu excluir totalmente os Irmãos do jogo político”. Amr al-Shobaki, da mesma instituição, acaba de publicar uma cuidadosa pesquisa sobre a irmandade pela editora Actes Sud. Ele também acredita que o movimento, que tem o apoio de vários milhões de egípcios, não terá condições de “repetir seu desempenho de 2005” nas eleições gerais do fim de 2010. Hossam Tammam, outro brilhante pesquisador, acredita que os Irmãos dessa vez enfrentam “uma verdadeira ameaça existencial”.

Fundados em 1928, proibidos em 1954, os Irmãos Muçulmanos, que representam o mais poderoso e mais bem organizado dos movimentos de oposição à autocracia egípcia, são tolerados “de facto” por um governo que reconhece sua contribuição sócio-educativa a uma sociedade onde metade dos 80 milhões de pessoas sobrevive, mal, abaixo do nível de pobreza.

Em 2005, sob pressão externa, o governo havia autorizado os Irmãos a se candidatarem de forma “independente” e aceitou uma inspeção da justiça sobre a probidade da eleição. O movimento, que recusa qualquer confronto com o governo desde seu abandono da violência como meio político no início dos anos 1970, havia obtido os 88 mandatos (de 453 na Assembleia) para os quais concorria. “Um erro que não se repetirá”, disse recentemente o ministro do Interior.

De fato, para surpresa geral, a repressão que se abate sobre os Irmãos – pelo menos 330 membros ainda estão atrás das grades, sob o golpe de acusações diversas diante dos tribunais militares – começou “mais cedo do que o normal durante os períodos pré-eleitorais”, observa Amr al-Shobaki. Hassan Malek, Kheirat Shater e outros empresários próximos dos Irmãos e suspeitos de financiarem suas atividades, foram condenados, em 2009, a sete anos de prisão por tribunais militares reunidos a portas fechadas. Eles estão praticamente arruinados.

“Depois de terem destruído nossas finanças, eles querem nos esmagar politicamente”, constata Khaled Hamza em um café do Cairo. Engenheiro de informática, pai de seis filhos, o webmaster dos Irmãos Muçulmanos, 47 anos, acredita que “na melhor das hipóteses, o governo nos dará, em novembro, de cinco a dez cadeiras, e o dobro aos partidos de oposição laicos que são, como todos sabem, domesticados e inexistentes nas ruas”.

Em um país onde os resultados eleitorais anunciados pelo governo não são mais legalmente contestáveis, nem pela justiça, nem pela ONGs, Khalil al-Anani lhes dá “no máximo, 5% dos votos”. Mas, tanto para ele quanto para Shobaki, “o governo estaria errado em acreditar que com os golpes que ele lhes dá, os Irmãos vão se retirar da política ativa”. Para o movimento, que espera há vinte anos que lhe autorizem a formar um partido político legal, “se candidatar a todas as eleições que acontecem lhe é indissociável”. Primeiro, reconhece Hamza, “porque é o único meio de manter nossa existência e de forçar o governo a nos reconhecer”. Depois, para manter os membros “ocupados, e evitar que eles procurem em outras partes”.

Anani aponta para o risco: “Excluir os Irmãos é dar mais espaço aos salafistas (fundamentalistas sunitas)”, mais isolados e, portanto, mais propensos a algum dia se juntar a grupos violentos. Alguns pensam que talvez seja esse o objetivo buscado por um governo que sempre quis se apresentar, tanto dentro do país como no exterior, como o único bastião do fundamentalismo islâmico.

Mas é fato que o renovamento dos executivos do partido dos Irmãos, em dezembro de 2009, provocou sérios conflitos internos. A vitória dos conservadores sobre os reformistas, em sua maioria jovens conectados na internet e no Twitter, poderia incitar alguns deles a “procurar em outras partes”, como diz Hamza.

É o grande medo dos dirigentes do movimento, a começar por seu novo líder supremo, Mohammed Badia, que em janeiro se apressou em indicar que os Irmãos “não se retirarão da política ativa” e que eles poderiam até se mostrar “abertos à cooperação com outros opositores”. Assim que Mohammed ElBaradei voltou ao país no início do ano, Saad al-Katatny, porta-voz de seu grupo parlamentar, o encontrou para lhe exprimir, com o consentimento do líder supremo, o apoio prudente da irmandande.

Aos 67 anos, o ex-diretor da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) aparece cada vez mais como uma alternativa possível ao poder militar atualmente representado por Hosni Mubarak. Por enquanto, o ex-diplomata luta para reformar a Constituição e abrir o sistema político. Como “não se opõe à eventualidade de um partido político ancorado na religião, como foi o caso na Europa com a democracia cristã”, lembra, ElBaradei tem o apoio dos Irmãos nessa fase de sua luta.

“Não apareceremos com ele nas ruas, isso desencadearia uma repressão violenta e imediata do regime”, observa Hamza. “Todos nós sabemos que ele não é religioso, mas muitos Irmãos o apoiam. Não estou muito otimista quanto ao sucesso de sua campanha. Mas nunca se sabe, talvez ele seja o cavaleiro da mudança, e nós, sua montaria..."

Tradução: Lana Lim

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