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15/04/2010

A Europa está disposta a cumprir suas promessas sobre o clima, diz Connie Hedegaard, comissária da Ação pelo Clima

Le Monde
Jean-Pierre Stroobants
Em Bruxelas
  • A comissária dinamarquesa Connie Hedegaard, gesticula durante uma sessão de debata no Offshore for Climate Europe Conference, em Aberdeen (Escócia)

    A comissária dinamarquesa Connie Hedegaard, gesticula durante uma sessão de debata no Offshore for Climate Europe Conference, em Aberdeen (Escócia)

Connie Hedegaard, comissária para a Ação pelo Clima, considera inoportuna uma taxa carbono dentro das fronteiras da União

As negociações sobre o clima foram retomadas em Bonn, na sexta-feira (9), e terminaram, no domingo (11), em um compromisso sobre o estatuto do acordo de Copenhague de dezembro de 2009, com muitas dificuldades. Um mau presságio para a continuidade das negociações de 2010? Connie Hedegaard, comissária europeia para o Ambiente, resume a posição da União Europeia (UE) sobre esse assunto e sobre uma possível taxa carbono dentro das fronteiras da UE.

Le Monde: Pela primeira vez desde a cúpula de Copenhague de dezembro de 2009, as negociações sobre o clima foram retomadas em Bonn. Essa sessão quase resultou em fracasso. Será que as negociações mundiais sobre o clima ainda têm uma chance de dar certo?

Connie Hedegaard: Mesmo que os resultados esperados não tenham sido atingidos em Copenhague, continuo certa de que para mobilizar todos os países seria preciso estabelecer metas ambiciosas. Pela primeira vez, líderes mundiais ratificaram o princípio de manter o aquecimento global abaixo de 2°C. Pela primeira vez, os Estados Unidos e países emergentes aceitaram fazer parte de negociações internacionais. Mas na conferência de Cancun, em novembro, será preciso obter algo de mais concreto.

Le Monde: No entanto, a senhora anunciou recentemente não acreditar em um acordo global em Cancun...

Hedegaard: Não disse que não atingiríamos nenhuma meta importante em Cancún. Além disso, a Comissão Europeia indicou que seu objetivo era tornar possíveis decisões ambiciosas em Cancún e fazer com que as promessas feitas sejam convertidas em ações.

Le Monde: Então um projeto de acordo global continua sendo uma meta da União Europeia?

Hedegaard: É claro. A Europa não é o problema! A Comissão manifestou seu desejo de chegar a um acordo jurídico restritivo. Em compensação, outros países estão reticentes. Mas a abordagem que nós sugerimos – primeiro um acordo, depois uma forma jurídica - , é recebida de forma positiva. Pude verificar com nossos interlocutores americanos, mexicanos, chineses e indianos.

Le Monde: Há desentendimentos que se manifestam entre europeus quanto à renovação do protocolo de Kyoto, que vence em 2012, e portanto quanto a essas metas restritivas. Para a senhora, esse protocolo continua sendo um princípio de base?

Hedegaard: A Europa aprovou o protocolo e não quer comprometê-lo. Mas se todos os outros países recusarem essa restrição, pode-se exigir da EU que ela permaneça sozinha nesse sistema?

Le Monde: Oficialmente, a União propõe passar de 20% para 30% a redução nas emissões de gás de efeito estufa até 2020. Isso não se tornou uma utopia?

Hedegaard: A Europa está disposta a cumprir suas promessas, o problema é saber o que os outros países pretendem fazer. Nós estudamos – visando um próximo anúncio – as questões do custo real de uma redução das emissões: seu impacto sobre nossa segurança energética, sobre nossas exportações, sobre a criação de empregos, etc. Mas também existe um custo ambiental...

Le Monde: E quanto aos financiamentos prometidos em Copenhague aos países desfavorecidos: US$ 30 bilhões (R$ 52 bilhões) entre 2010 e 2012, e depois 100 bilhões?

Hedegaard: É um ponto crucial. A credibilidade dos países desenvolvidos está em jogo, e estou certa de que eles respeitarão seus compromissos.

Le Monde: As divisões entre os Estados-membros não ameaçariam uma Europa que pretende continuar sendo pioneira?

Hedegaard: O instinto sempre leva cada país a se perguntar se, sozinho, ele não faria melhor as coisas. Mas quanto mais vejo quão rápidas são as mudanças do mundo, mais acredito que a Europa deve falar com uma única voz. Se a Europa quiser manter um lugar que corresponda a sua potência econômica no século 21, ela deve coordenar mais suas ações. Mas às vezes dedicamos a maior parte de nossa energia para entrar em acordo sobre o que é preciso dizer, e para estabelecer os limites de nossa proposta.

Le Monde: Entre os fatores de divisão, existe a ideia de uma taxa carbono dentro das fronteiras da União, defendida por Nicolas Sarkozy, e que José Manuel Barroso, presidente da Comissão, deverá apoiar em junho. Mas um documento recente da Comissão sobre os financiamentos inovadores mencionou os inconvenientes de um projeto como esse...

Hedegaard: Algirdas Semeta, o comissário europeu para a Tributação, fará em breve uma comunicação sobre uma taxa carbono interna para a UE, visando harmonizar suas regras, uma vez que já existem sistemas de taxação do CO2 em diversos Estados.

Uma taxa carbono dentro das fronteiras não deve suscitar controvérsia, a não ser que se considere que ela deva ser substituída pelo sistema de mercado de carbono. Não vamos dar a impressão a nossos parceiros de que queremos lançar uma nova guerra comercial... Não vamos oferecer um pretexto para que resolvam não aderir às negociações internacionais.

Le Monde: A senhora insinua que o presidente Sarkozy fez uma confusão entre uma taxa carbono dentro das fronteiras e uma taxa de harmonização interna na UE?

Hedegaard: Não quero entrar nessa discussão, especialmente porque não conheço bem os elementos do debate francês. Noto que neste momento existem discussões intensas nos Estados Unidos, na Austrália e no Japão sobre a criação de mercados de carbono. E isso me parece ser um bom começo, tendo em vista a conclusão de um acordo global sobre o preço do carbono, como pedem os industriais.

Le Monde: O debate atual sobre o clima não está sendo poluído pela ascensão do “eco-ceticismo” entre a opinião pública?

Hedegaard: Creio que não. A opinião pública entende que a mudança climática é certamente um debate muito técnico, mas que recobre questões cruciais sobre o fornecimento energético, o crescimento e a sobrevivência de bilhões de indivíduos.

Tradução: Lana Lim

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