UOL Notícias Internacional
 

15/04/2010

Unidade nacional nascida da tragédia aérea é rompida na Polônia

Le Monde
Piotr Smolar
Enviado especial a Varsóvia (Polônia)

A França tem o Panteão; a Polônia tem Wawel. É ali, na cripta da catedral de Cracóvia, que estão enterradas as maiores figuras da história nacional. Lado a lado ficam os reis da Polônia, o poeta Adam Mickiewicz, o marechal Jozef Pilsudski, pai da independência em 1918, ou ainda o general Wladyslaw Sikorski, chefe do governo exilado em Londres durante a Segunda Guerra Mundial, morto em um acidente de avião. No domingo (18), o presidente Lech Kaczynski e sua esposa Maria, duas das 96 vítimas do acidente de Smolensk, no dia 10 de abril, integrarão esse panteão, diante de um público excepcional. São esperados, entre outros, Barack Obama, Angela Merkel, Nicolas Sarkozy e certamente Dmitri Medvedev.

O lugar do enterro devia ser escolhido pela família, mas não se sabe muito bem quem teve essa ideia. Algumas fontes mencionam uma iniciativa audaciosa do PiS (Direito e Justiça), partido conservador dos irmãos Kaczynski, validado pela Igreja, aliados em um patriotismo católico ancorado à direita. Já corre um mal-estar. Uma morte trágica faz um homem de Estado de envergadura? Essa decisão é “precipitada e emocional”, acredita o jornal “Gazeta Wyborcza” em um editorial, na quarta-feira, de quem cada palavra é considerada.

“Por enquanto, a sociedade, os políticos e a mídia se encontram em uma situação sem saída, da qual Wawel será a apoteose”, diz Marcin Krol, professor da Universidade de Varsóvia e historiador das ideias. “A Plataforma Cívica (partido de centro-direita do premiê Donald Tusk) se conduz com moderação. Mas eles sabem que todo gesto que vá contra o fervor popular seria mal visto. Dentro de alguns dias, a bolha vai estourar, certamente após o enterro”.

Na terça-feira, o irmão gêmeo do presidente, Jaroslaw, que parece ter envelhecido dez anos em quatro dias, manteve-se fechado em sua dor. Então foi um representante da Igreja que deu a notícia. O arcebispo de Cracóvia, o cardeal Stanislaw Dziwicz, mais próximo colaborador de João Paulo 2º durante trinta anos, defendeu a escolha de Wawel com um argumento: Lech Kaczynski teria morrido como “um herói”. O cardeal quis que o enterro consolidasse a unidade nacional.

“Sentimentalismo insuportável”

Mas não será nada disso. Essa unidade no luto começa a se romper. Grupos se formam no Facebook para criticar a escolha de Wawel. Algumas centenas de pessoas se reuniram diante da catedral, em Cracóvia. Na imprensa, começam a abandonar timidamente a exaltação da homenagem. Houve uma vida antes do acidente, um combate ideológico violento provocado pela revolução conservadora dos irmãos Kaczynski. A morte trágica do presidente lhe oferece um lugar na história polonesa que sua política controversa não autorizava.

É como se, apesar desse balanço e de sua fraca popularidade, ele tivesse se juntado aos mártires nacionais somente por ter morrido no mais terrível dos lugares para a memória dos poloneses, Katyn. “Essa decisão é terrível”, explica um padre progressista de Varsóvia, que recusa ter seu nome divulgado no contexto atual. “O luto se transforma em farsa. O sentimentalismo, inflado pela mídia, torna-se insuportável. Nós estamos em uma época de chantagem moral. Creio que no final, em vez de nos unir, o luto vai nos polarizar. Cedo ou tarde recairemos em uma confrontação”.

Tradução: Lana Lim

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