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16/04/2010

Encontro de países emergentes em Brasília gera apelos contra o "neocolonialismo" chinês

Le Monde
Jean-Pierre Langellier
Enviado especial a Brasília
  • Os presidentes de Rússia, Brasil, China e Índia comemoram os avanços nas negociações entre os países chamados Bric, no final da cúpula dos emergentes

    Os presidentes de Rússia, Brasil, China e Índia comemoram os avanços nas negociações entre os países chamados Bric, no final da cúpula dos emergentes

Terceiro maior parceiro da América Latina, a China é acusada pelo Brasil de manter uma atitude “neocolonialista”.

A China se tornou um importante participante econômico na América Latina. Terceira maior parceira comercial do subcontinente, ela poderá, até 2014-2015, roubar o segundo lugar da União Europeia, segundo relatório publicado esta semana pela Comissão Econômica para a América Latina (Cepal). Devido ao forte crescimento de seu país no mundo “latino”, o presidente chinês, Hu Jintao, será a estrela da 2ª cúpula do Bric (Brasil, Rússia, Índia e China), o grupo dos quatro grandes países emergentes, na sexta-feira (16), em Brasília.

O presidente russo, Dmitri Medvedev, e o primeiro-ministro indiano, Mahmohan Singh, participarão desse encontro ao lado de seu anfitrião brasileiro, Luiz Inácio Lula da Silva. Hu Jintao fará uma visita oficial ao Brasil nessa ocasião. Será seu décimo encontro com o presidente Lula, e sua segunda vez no Brasil.

A expansão do comércio entre o gigante da Ásia e os países da região resulta da complementaridade de suas economias. De um lado, uma China ávida por matéria-prima, energia e artigos agrícolas; do outro, uma América Latina que os tem em abundância.

No entanto, essa próspera relação comercial mostra uma forte assimetria: a América Latina fornece à China quase que exclusivamente produtos de base, sendo que esta última lhe vende bens manufaturados com alto valor agregado. O petróleo representa 94% das vendas do Equador à China, e a soja e seus derivados correspondem a 80% das vendas da Argentina.

Líder econômico e político regional, o Brasil pede à China que corrija essa relação de tipo “neocolonialista” também sofrida por ele. Em 2009, a China se tornou seu principal parceiro comercial, destronando os Estados Unidos. As exportações do Brasil para a China aumentaram 15 vezes em valor desde 2000. Mas em 2009, 73% delas correspondiam a somente três produtos: o minério de ferro, o petróleo e a soja.

O Brasil sofre, como todo o mundo, os efeitos da subvalorização da moeda chinesa, o yuan, nesse caso conjugada a uma sobrevalorização de sua própria moeda, o real. Essa questão o preocupa, mas por enquanto não quer fazer dela um cavalo de batalha antichinês, pois, ressalta o presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, “nosso crescimento continua sendo puxado sobretudo pela demanda interna”.

O Brasil se preocupa mais com as exportações que a China lhe tira em seu território comercial natural, a América do Sul. “Isso está acontecendo nas nossas barbas”, reclamou recentemente o presidente Lula diante de seus ministros. O Brasil perde mercado na Argentina para a China, e vice-versa. Mas os dois vizinhos, que mantêm uma relação comercial tumultuosa, com o primeiro criticando o “protecionismo” tarifário do segundo, decidiram, no fim de março, reagir juntos promovendo missões conjuntas na China.

E a isso se soma a “guerra do ferro”, onde a China e o Brasil se enfrentam por intermédio de empresas. Principal fabricante de aço do planeta, a China acusa os três grandes grupos mineradores, as anglo-australianas Rio Tinto e BHP Billiton e a brasileira Vale, atual número um, com 33% da produção mundial, de se comportarem como um “cartel” que teria abusado de sua “posição dominante” ao quase dobrar o preço do minério.

E o Brasil acusa a China de não investir neles, sendo que precisarão de capital estrangeiro, especialmente para organizar a Copa do Mundo de Futebol (2014) e os Jogos Olímpicos (2016). Em sua primeira visita, em 2004, Hu Jintao havia prometido destinar US$ 70 bilhões (R$ 122,5 bilhões) à Argentina e ao Brasil. Não aconteceu nada disso. A China investiu no Brasil, entre 2007 e 2009, 1% do que a Holanda investiu.

Mas as coisas começam a mudar. Os dirigentes de 65 empresas chinesas estão participando nesta semana de seminários no Rio de Janeiro e em São Paulo. Eles afirmam querer investir e produzir no Brasil. A companhia chinesa Sinopec entrará na exploração de petróleo. Hu Jintao pretende visitar o porto que abrigará o terminal de exportação de ferro para a China. Em troca de uma participação em seu financiamento, Pequim terá uma garantia de fornecimento durante vinte anos.

“Não temos nenhuma ilusão romântica quanto a nossas relações com a China”, disse há pouco tempo um ex-embaixador brasileiro em Pequim. O Brasil percebeu bem a agressividade comercial da China e seus trunfos em matéria de competitividade. Exemplo: a China participará com prioridade da licitação da construção do trem-bala que ligará São Paulo ao Rio.

“Certamente há contradições, ou até conflitos entre os Bric, em especial com a China”, declarou ao “Le Monde” o embaixador Roberto Jaguaribe, coordenador da cúpula de Brasília. “Mas por enquanto, a emergência política e econômica da China é um acontecimento positivo. Nossos quatro países não pretendem, esta semana, tomar decisões. Nós queremos sobretudo reforçar nosso diálogo para promover ideias em comum, como a reforma da governança mundial”.

A reunião dos Bric foi precedida, na quinta-feira, de uma cúpula entre Brasil, Índia e África do Sul, representada pelo presidente Jacob Zuma.

Tradução: Lana Lim

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