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20/04/2010

O primeiro-ministro chinês Wen Jiabao "reabilita" o ex-líder do Partido Comunista Chinês Hu Yaobang

Le Monde
Bruno Philip
  • O primeiro-ministro chinês Wen Jiabao durante entrevista coletiva no encerramento de sessão legislativa, Congresso Nacional do Povo, em Pequim (China)

    O primeiro-ministro chinês Wen Jiabao durante entrevista coletiva no encerramento de sessão legislativa, Congresso Nacional do Povo, em Pequim (China)

O artigo de Wen no “Diário do Povo”, elogiando o ex-dirigente reformista destituído em 1987, suscita diversas especulações políticas.

É uma boa razão para espantar o mais indiferente dos observadores da vida política chinesa: há alguns dias o primeiro-ministro, Wen Jiabao, escreveu um artigo exaltando os méritos de um ex-líder do Partido Comunista Chinês (PCC) destituído, e cuja morte desencadeou as manifestações da Praça da Paz Celestial em 1989!

É ainda mais espantoso por ter sido publicado no “Diário do Povo”, o órgão central do PC chinês, e por Hu Yaobang, morto em 1989, dois anos depois de sua demissão por “erros a respeito de princípios políticos importantes”, ter sido um reformista de uma audácia que a China nunca mais viu. Ele queria combinar reformas políticas e econômicas, denunciou no Tibete uma “colonização” pelos chineses Han e propôs que a região tibetana fosse administrada por membros tibetanos do partido.

“Constatei pessoalmente como Hu Yaobang se envolvia com seu trabalho dia e noite, trabalhando para o benefício do povo e para o partido”, escreveu Wen Jiabao nesse artigo, cuja publicação coincidiu com o 21º aniversário da morte do ex-secretário-geral do PC chinês.

Usando como pretexto uma recente visita a Guizhou, região pobre do sul atingida pela seca, o primeiro-ministro chinês fez um enaltecimento muito emocional de Hu, a quem um dia ele acompanhou nessa província: “Guardo em meu coração esses preciosos ensinamentos. Seu estilo e sua atitude influenciaram muito meu trabalho, meus aprendizados e minha vida”, diz, lembrando como o ex-líder do partido queria “conhecer o quanto possível a verdadeira situação das massas populares”. “Escrevo para dizer o quanto sinto sua falta”, conclui.

A iniciativa provoca a comunidade de observadores. Como interpretar isso que alguns especialistas descrevem como uma espécie de “choque” político?

Lutas em perspectiva

No momento em que a atual direção do sistema demonstra a maior covardia política e dá a impressão de estar em guarda ao prender violentamente os críticos radicais do regime, é difícil decifrar a intenção dessa revalorização do falecido, símbolo da abertura política chinesa dos anos 1980.

Claro, a relação mantida entre o atual governo e a memória de Hu Yaobang é das mais complexas: Hu foi destituído por Deng Xiaoping por ter deixado ocorrer manifestações estudantis em 1986, mas foi o mentor do atual presidente e líder do partido, Hu Jintao. Este último foi consagrado politicamente na Liga da Juventude Comunista, na época em que Hu Yaobang era seu presidente.

Entretanto, os aniversários de sua morte geralmente passam despercebidos. A ponto de, na semana passada, o dissidente Qi Zhiyong ter sido colocado em prisão domiciliar, para que não pudesse comemorar publicamente o aniversário da morte de Hu Yaobang.

Será que Wen Jiabao quer deixar sua marca antes de passar o bastão em 2012? Ele, que aparece na famosa foto na Praça da Paz Celestial, duas semanas antes do massacre de 4 de junho de 1989, ao lado de um outro liberal, ex-secretário-geral do partido, Zhao Ziyang? Será esse o anúncio de lutas dentro do sistema, já dividido pelo início do próximo congresso do partido em 2012? Esse artigo, que será um marco, pode continuar sendo um enigma. De fato, nada permite decifrá-lo como a promessa bem improvável de uma próxima democratização do regime.

Tradução: Lana Lim

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