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21/04/2010

Em 1783 o vulcão islandês Laki já tinha mergulhado a Europa no caos

Le Monde
Hervé Morin
  • Foto aérea mostra erupção de vulcão Eyjafjallajokull, na Islândia. A atividade vulcânica, a maior erupção na região em 200 anos, obrigou centenas de pessoas a deixar uma pequena vila ao sul do país e causou a interrupção de vários aeroportos pela Europa

    Foto aérea mostra erupção de vulcão Eyjafjallajokull, na Islândia. A atividade vulcânica, a maior erupção na região em 200 anos, obrigou centenas de pessoas a deixar uma pequena vila ao sul do país e causou a interrupção de vários aeroportos pela Europa

Há pouco mais de dois séculos, nuvens insalubres vindas da Islândia desolaram a Europa. Como hoje, especialistas e políticos se perguntaram sobre que respostas dar a tal cataclismo. Em 1783, o vulcão em questão era o Laki. O historiador Emmanuel Garnier (CRHQ, CNRS-Universidade de Caen), representante do Laboratório das Ciências do Clima e do Meio Ambiente (LSCE), relata na obra “Les Dérangements du temps: 500 ans de chaud et froid en Europe” [“Os distúrbios do tempo: 500 anos de calor e frio na Europa”] um episódio que segundo ele marcou “o ato de nascimento do Estado previdenciário na França”.

A erupção do Laki, de 8 de junho de 1783 a fevereiro de 1784, foi bem mais intensa do que a que assistimos hoje. Na Islândia, foi uma desgraça: 80% dos carneiros, metade dos bovinos e dos cavalos morreram de fluorose, logo seguidos por 20% da população, que sofreu com a fome. “Alguns historiadores relatam que um casal de homossexuais teria sido oferecido como sacrifício expiatório”, conta o historiador.

Bem antes que a notícia chegasse à Europa, pôde se sentir os efeitos perniciosos da nuvem. O dióxido de enxofre presente na bruma atacou o sistema respiratório dos mais fracos. Na Inglaterra, segundo o geógrafo John Grattan, a mortalidade foi 30% maior do que a média. Na França, os registros paroquiais revelam uma taxa idêntica, “especialmente entre as crianças de 1 a 8 anos, em todas as camadas sociais”, diz Emmanuel Garnier.

O Observatório de Paris e a Academia das Ciências, criados em 1670, mas também a novíssima Sociedade Real de Medicina (1778), foram mobilizados. Enviaram várias pipas até as nuvens, levando pedaços de carne que voltavam à terra “corrompidos”. Foram decretadas medidas profiláticas, mas no total 160 mil pessoas morreram na Europa.

Depois foi o clima que enlouqueceu, por causa das poeiras que cobriam o Sol: o inverno, precoce, foi especialmente rigoroso, seguido de um aquecimento súbito que ocasionou inundações por todo o continente.

O governo real destinou 3 milhões de libras para ajudar as vítimas, ou seja, 1% do orçamento do Estado. A imagem de Luís 16 “o Caridoso” saiu reforçada. Então o Laki não teve nada a ver com a Revolução Francesa? É “notícia requentada levada pelos anglo-saxões e pelos geólogos”, diz Emmanuel Garnier, para quem as tempestades de 13 e 14 de julho de 1788 que arrasaram as plantações de cereais tiveram mais peso do que o vulcão adormecido.

Tradução: Lana Lim

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