Decepcionados com seus dirigentes políticos e humilhados pela crise, os gregos manifestam sua raiva

Catherine Simon

Enviada especial a Atenas

  • Nikolas Giakoumidis/AP

    Manifestantes incendeiam carro em Atenas durante manifestação contra o plano de austeridade do governo grego

    Manifestantes incendeiam carro em Atenas durante manifestação contra o plano de austeridade do governo grego

Ele tem 22 anos e uma única ideia na cabeça: deixar a Grécia, que se tornou “como um país de terceiro mundo”. Stavros não esperou o pedido de socorro do primeiro-ministro, Georges Papandréou, solicitando oficialmente a ajuda financeira da União Europeia (UE) e do Fundo Monetário Internacional (FMI). Mas “isso foi a gota d’água”, explica o jovem, estudante de antropologia social na faculdade de ciências políticas de Atenas. Entre todos os gregos que encontramos nos últimos dias nas ruas da capital, o desespero é unânime, corado de vergonha ou raiva, muitas vezes mascarado por um sorriso.

Stavros já não acredita mais nas virtudes do rigor, defendidas por Bruxelas e Washington: “Talvez isso ajude a melhorar... daqui a trinta anos!”, ironiza. “Enquanto isso, vão pagar em demissões”, diz ainda o candidato à imigração. O país de seus sonhos? A Alemanha. Mesmo depois da avalanche de críticas lançadas contra a Grécia por uma imprensa alemã sarcástica, alternada com a relutância oficial e seca da chanceler Angela Merkel? “Quero ir embora para terminar meus estudos e encontrar um emprego. Na Alemanha ou em outro lugar será mais fácil do que aqui”, se irrita Stavros.

Sentados na grama, no meio do pequeno jardim florido que cerca a faculdade, Vana e suas amigas, estudantes de psicologia, se dizem “preocupadas” também com a ideia do desemprego e das demissões. “As pessoas dizem: ‘Pronto! Estamos como os africanos’”, suspira Vana. “Todos têm raiva dos políticos e do governo, que nos levaram a esse beco sem saída”. Seus pais são funcionários públicos. “Eles também estão com medo”, diz a jovem.

Somente Manos, estudante de ciências políticas, ousa comemorar em voz alta a ideia de que a União Europeia e o FMI interferirão nas contas da Grécia. “É nossa última chance, se quisermos tirar o país do buraco”, afirma o jovem, que também critica os “políticos”, que “mentiram e desviaram dinheiro da União Europeia para seus bolsos”. Para Manos, o fato de que a Grécia faz parte da UE é uma bênção. “Sem isso, seríamos um país do terceiro mundo”, explica, comparando a UE a uma “família”, cujos membros devem “ajudar uns aos outros”. Como Vana, Manos pretende votar nas próximas eleições (regionais) de novembro. Em quem? Ele também “não sabe muito bem”.

Esse casal de comerciantes, vendedores de móveis aposentados, que encontramos ao pé da Acrópole, votará na extrema direita? A classe política é “podre, tanto à direita como à esquerda”, dizem, e “pela primeira vez” em suas vidas, eles têm “medo do futuro”. Eles não reconhecem mais seu país, dizem, apontando para um trio de africanos, que tocam música diante de um semicírculo de turistas. “Há imigrantes demais. Alguns são capazes de matar por uma nota de 20 euros! Não estou mentindo, isso aconteceu”, repete a velha senhora.

O plano de austeridade, anunciado no início de abril pelo governo Papandréou, prevê entre outras coisas o congelamento da aposentadoria, uma diminuição dos salários e um aumento no preço do combustível. E outras medidas deverão seguir. “É preciso ver o detalhe. Mas, a princípio, o país vai sofrer uma recessão profunda”, prevê o economista Savas Robolis, diretor científico do Instituto do Trabalho, especialista junto aos sindicatos GSEE (setor privado) e Adedy (setor público).

O professor Robolis denuncia os flagelos de uma economia corroída pela “corrupção” em alto nível – “especialmente nas obras públicas” - , pela “mentira” dos governantes – quanto aos balanços estatísticos, entre outros – e por um “clientelismo desenfreado”, mas lamenta uma acusação brutal e geral demais. “Certo, a Grécia fez besteiras. Mas zombar de nós dessa maneira... ficamos magoados”, confessa.

Segundo o economista dos sindicatos, a prioridade é ”fazer de tudo para não sair da zona do euro”. Ele prevê que é a única maneira de impedir a Grécia de “se juntar ao colapso dos países da América Latina”, atingidos pela crise financeira.

“Temos vergonha, sim... de nossos políticos!”, exclama Pantelis Melissinos, fabricante de sandálias e poeta, que mora, assim como seu pai e seu avô antes dele, no ateliê-loja da rua Aghias-Theklas, a dois passos da praça Monastiraki. “Votamos neles, mas não gostamos deles. Eles nos mantêm reféns”, insiste. A Grécia está “doente por causa de seus políticos e de seu funcionalismo público”, mas o remédio que os especialistas querem lhe dar deve ser administrado “com tato”.

Ele desconfia do FMI e teme uma revanche das ruas. “Os gregos estão perturbados. E ainda nem sabemos o que vai acontecer...”, conclui.

Tradutor: Lana Lim

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