Nicolas Sarkozy visita a China para confirmar a reconciliação entre Paris e Pequim

Arnaud Leparmentier e Bruno Philip

Enviados especiais a Pequim e Xangai

  • Daniel Joubert/Efe

O voluntarismo do presidente francês é contrariado por interesses políticos e econômicos divergentes

Não há solução sem a China. É com essa constatação que Nicolas Sarkozy começa, na quarta-feira (28), uma visita de Estado de três dias a Pequim e a Xangai. A intenção é resolver os desacordos do passado e preparar a presidência francesa do G8 e do G20, em 2011, que reúnem as principais potências do mundo. Sarkozy pretende utilizar este fórum com fins internos, como ele havia feito para sua presidência da União Europeia no fim de 2008. Esse foi o único período de popularidade do chefe de Estado.

Mas a questão não está ganha. Sarkozy fez essa experiência no fim de 2009 na cúpula de Copenhague sobre a luta contra o aquecimento global. Ele esperava impor suas opiniões ao reunir o Brasil e os países mais pobres do mundo. Bateu de frente com a China, que soube influenciar os países africanos a seu favor e transformou a cúpula em tribuna antiocidental. Pequim enviou à mesa de negociações somente um oficial, enquanto o primeiro-ministro Wen Jiabao permaneceu em seu hotel.

Desde então, Sarkozy não parou de reclamar reservadamente dos chineses. A dimensão da disputa é de uma natureza diferente das brigas de 2008, quando o presidente francês se comoveu com os tumultos no Tibete, ameaçou não comparecer à cerimônia de abertura dos Jogos Olímpicos de Pequim e acabou encontrando às escondidas o dalai lama em Gdansk. Para Pequim, que agora critica com vigorosa sistemática qualquer encontro de um dirigente estrangeiro com o líder tibetano em exílio, o encontro da Polônia foi visto como uma traição, uma crise duradoura para a “amizade” franco-chinesa exaltada na época de Jacques Chirac.

Desde que Sarkozy conversou com o presidente chinês Hu Jintao em abril de 2009 em Londres, seguido pela visita a Pequim de François Fillon em dezembro, a relação franco-chinesa foi retomada. Mas tudo isso marca mais o fim do desacordo oficial do que o início de uma verdadeira cooperação. Como foi dito no ministério das Relações Exteriores, “a página foi virada, e agora recomeçamos. Mas temos divergências de interesses sobre muitos assuntos”.

Entretanto é preciso retomar as relações com Pequim se Paris quiser ter alguma influência no cenário internacional. Sarkozy, que normalmente é tão apressado, estará presente durante três dias na capital chinesa, em um encontro na quarta-feira com o presidente Hu, na quinta-feira com o presidente da Assembleia Popular Wu Bangguo, e na sexta-feira com o primeiro-ministro Wen Jiabao. Ele encerrará sua viagem no mesmo dia com a inauguração da Exposição Universal de Xangai e uma passagem pelo pavilhão francês. “A visita do presidente Sarkozy é uma visita de Estado, a China dá uma grande importância a isso. Nós esperamos que ela seja impressionante”, declarou Jiang Yu, porta-voz do ministério das Relações Exteriores.

Irã, turismo, economia

Para mostrar que se interessa por esse país, Sarkozy dedicará grande parte de sua viagem ao turismo cultural: com sua esposa, Carla Bruni, ele deve visitar o Exército de Terracota do Imperador Qin na ex-capital Xian, andar por uma parte selvagem da Grande Muralha, visitar as tumbas da dinastia Ming, além da Cidade Proibida em Pequim.

Ainda que Sarkozy pretenda aproveitar sua presidência do G20 para colocar em ordem o sistema monetário internacional, em Pequim ele evitará atacar o tema da subvalorização do yuan, a divisa chinesa. “Não abordaremos esse assunto por esse ângulo estreito”, explica o governo, que quer abrir “uma reflexão ampla”, em um “espírito cooperativo, construtivo, positivo, durante a presidência francesa do G20”.

Sarkozy, o mais ativo dos dirigentes sobre as sanções contra o Irã, acusado de fabricar armas atômicas, também deverá convencer os chineses, que se abastecem de petróleo em Teerã. “Os países importadores não podem ser vítimas de uma resolução de sanções”, garante o governo. Os chineses defendem, por princípio, a não-interferência nos assuntos internos dos Estados.

Também será preciso impulsionar as relações comerciais entre os dois países, uma vez que a parte de mercado da França na China está estagnada em 1,3%, bem atrás da Alemanha. “Serão discutidos grandes projetos de contratos (energia nuclear, aeronáutica, meio ambiente), mas não haverá anúncios. Eles serão feitos durante a visita do presidente Hu no outono”, explica o governo.

Na verdade, os chineses vêm adquirindo um crescente conhecimento em todos os domínios preferidos da França: nuclear, ferroviário, aeronáutico. “Uma das grandes questões desta viagem é saber se Paris pode recomeçar uma diplomacia de grandes contratos ou não”, diz, à agência Reuters, François Godement, especialista em China da Sciences Po Paris.

Tradutor: Lana Lim

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