França celebra aniversário controverso das independências na África

Philippe Bernard

Togo celebrou, na terça-feira (27), em relativa confidencialidade e certa cacofonia política, o cinquentenário de sua independência. O caso togolês não é único dentro de uma África francófona que deveria comemorar, em 2010, o 50º aniversário de sua independência. Quatorze possessões francesas chegaram de fato à soberania em 1960, principalmente durante os meses de verão daquele ano.

Um jubileu como esse poderia servir de pretexto para analisar o passado e questionar o futuro. Mas, agora que as datas fatídicas se aproximam, esse aniversário corre o risco de passar despercebido, ao se deparar com a indiferença ou suscitar um mal-estar ligado a ambiguidades coloniais nunca superadas.

O convite feito por Nicolas Sarkozy aos exércitos das ex-colônias para desfilar nos Champs-Elysées no dia 14 de julho se concentra na controvérsia. “Um divórcio não merece um desfile ao lado de tropas francesas”, reclama Jean-Baptiste Placca, comentarista da Radio France Internationale. Muitos observadores africanos se espantam com o fato de o colonizador comemorar o fim de sua própria opressão. “É preciso lembrar os horrores (...) que marcaram a ocupação colonial? O que está sendo celebrado?”, pergunta Joachim Vokuma, redator-chefe do site de Burkina Faso www.lefaso.net.

Alguns exércitos convidados a desfilar participaram de sangrentas repressões em seus países. “Esse jubileu”, diz Nabbie Ibrahim Soumah, jurista da Guiné, “pode ser visto como uma dor dupla: após a colonização do passado, será a celebração da Françáfrica, uma cutucada nas populações torturadas pela miséria (...)”. O ex-ministro Jacques Toubon, encarregado por Sarkozy de organizar as comemorações francesas, tenta explicar que o desfile africano nos Champs-Elysées está sendo organizado somente em “homenagem ao sangue derramado” pelos soldados coloniais das duas guerras mundiais.

A organização, na véspera de uma “mini-cúpula” para a qual Nicolas Sarkozy convidou os presidentes das antigas colônias, obedece, evidentemente, a considerações mais atuais. Trata-se de “assumir, explicitar e renovar” a relação entre a França e suas antigas possessões, explica Toubon, ele mesmo figura do gaullismo africano.

O fato de que ele tenha chamado a reunião dos chefes de Estado francófonos em Paris de “familiar”, no dia 1º de abril durante uma coletiva de imprensa, foi mal visto. “Não se trata de paternalismo nem de nostalgia”, se defende. “Mas sim de uma proximidade que existe com os povos, não somente com os Estados”. O “secretário-geral do cinquentenário” quer “colocar um pouco de verdade e de complexidade” em uma relação franco-africana que “não é banal”. “A mentalidade francesa sobre a África”, analisa, “é uma mistura de familiaridade, de empatia e de uma forma de condescendência que coloca a imigração pós-colonial em uma posição muito particular. A história colonial é um componente da história da França. Ela tem de ser compartilhada”.

Dez meses após sua nomeação, Toubon recebeu um pequeno orçamento interministerial de 16,3 milhões de euros (incluindo manifestações organizadas na África). Ele ainda não obteve do palácio do Eliseu um sinal verde para suas iniciativas, exceto pelo desfile do dia 14 de julho e o concerto africano que deve vir em seguida no Campo de Marte.

Ele pede para que o cinquentenário não se limite a comemorações, mas que seja a ocasião de anúncios concretos em matéria de formação profissional de jovens africanos, da concessão de vistos, de promoção da diáspora africana na França, e de “descongelamento” das pensões dos ex-soldados coloniais (nivelamento com as pensões pagas aos franceses).

Mas a agenda política francesa – debate sobre a identidade nacional, eleições regionais - claramente entrou em conflito com essas ambições. Sarkozy, que devia lançar o “2010, ano da África” em dezembro passado, desistiu. A pesquisa de opinião, publicada por Toubon, que avalia em 69% a proporção de franceses que não se sentem “interessados” pelo cinquentenário, poderia reforçar esse silêncio.

No continente africano, o constrangimento também é perceptível, ainda que seja de uma natureza completamente diferente. O cinquentenário incomoda governantes que não têm nenhuma vontade de serem confrontados a um balanço muitas vezes desastroso. Então são raros os países que programaram cerimônias grandiosas, como fez o Senegal ao inaugurar seu Monumento do Renascimento Africano, no dia 3 de abril.

Na maior parte dos Estados, algumas proclamações emocionadas, um colóquio vago de historiadores oficiais e um desfile militar darão conta do recado. A população, ocupada em sobreviver, tem outras preocupações bem maiores. Mas a imprensa e a internet se apoderaram do assunto sem o menor pudor. Se o papel da França na falsa concessão de independências é criticado, o saque das riquezas e da ajuda internacional por elites africanas no poder é amplamente condenada.

“Que fizemos de nossos cinquenta anos?”, lamenta Abdou Rahmane Mbengue no jornal senegalês “Walfadjiri”. “Esse foi o meio século em que usamos o chapéu de burro da humanidade”. No jornal “Le Messager de Douala”, o historiador camaronês Achille Mbembe diz: “Será que realmente há o que se comemorar, ou é melhor começar tudo de novo?”

A dificuldade aumenta pelo fato de que os detentores atuais do poder raramente são os herdeiros dos combatentes pela emancipação. Em Camarões, onde a independência foi conquistada às custas de uma guerra contra a França, sangrenta mas totalmente encoberta, e do assassinato do líder nacionalista, Ruben UmNyobe, o cinquentenário reaviva dolorosas lembranças.

Em Iaundé, os militantes que tentam perpetuar essa tendência política, no dia 10 de abril chamaram de “provocação” a celebração feita por Paris das independências. “É no mínimo indecente que o escravizador comemore a liberdade do escravo que ele ainda mantém acorrentado”, protestaram, criticando a “arrogância do governo francês que se autoelege o organizador das festas nacionais de países supostamente independentes”.

Somente a Costa do Marfim de Laurent Gbagbo foi contra uma recusa categórica ao convite de Paris. “A Costa do Marfim pretende celebrar o cinquentenário sozinha, no contexto de sua política nacional de reforma”, declarou Jacques Toubon. Gbagbo, que foi eleito em 2000 por cinco anos e inicia seu décimo ano no poder, se pretende o apóstolo da “segunda independência” de seu país. Uma palavra de ordem que, no contexto da celebração do cinquentenário, assume uma singular atualidade.

Tradutor: Lana Lim

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