A Exposição Universal de Xangai, vitrine do poder chinês

Brice Pedroletti e Bruno Philip

Enviados especiais a Xangai

Dezenas de bilhões foram investidos na organização do evento, inaugurado no dia 30 de abril. Cerca de 100 milhões de visitantes são esperados.

Oficialmente, a noite de abertura da Expo 2010 em Xangai, na sexta-feira (30), devia ser moderadamente espetacular. Além disso a mídia chinesa não deixa escapar nada sobre os detalhes da cerimônia. Mas a imprensa de Hong Kong revela: pelo menos 120 mil tiros de fogos de artifício, mais ainda do que em Pequim 2008, um novo recorde mundial.

Xangai está totalmente pronta para sua entrada em cena. Prédios foram reformados. As fachadas das ruas populares foram recobertas de lâminas de madeira, os tetos foram refeitos, graças ao subsídio da prefeitura distribuído pelos comitês de bairro. A rede de metrô quase dobrou. Xangai espera receber entre 70 e 100 milhões de visitantes, e com isso incrementar o setor de turismo e de serviços. E espera um retorno para um investimento colossal: cerca de 400 bilhões de yuans (R$ 92,4 bilhões) para a infraestrutura e 28,6 bilhões de yuans somente a Exposição.

Mas o que acontece em Xangai ultrapassa o perímetro da megalópole. Dois anos depois dos Jogos Olímpicos de Pequim, a China convida o mundo a uma nova demonstração de poder. É sua capacidade de receber, de seduzir, de impressionar, mas também de promover o tema do desenvolvimento urbano sustentável, tema central da Expo 2010, que está sendo medida. Dessa vez é mais marketing e “soft power” do que competição: “Não há a dimensão competitiva dos Jogos Olímpicos, não é uma demonstração de poder que a China quer fazer, mas sim uma demonstração de integração. A China quer mostrar que é responsável”, declara Antoine Bourdeix, da Publicis Consultants, encarregada das relações públicas da Expo 2010.

Sinais de que as lições dos Jogos Olímpicos foram aprendidas – diversas restrições haviam sido impostas na época para os vistos de estrangeiros -, Pequim acaba de anunciar a retirada da proibição de entrada na China aos portadores do HIV.

O concurso de marketing nacional que é a Expo 2010 já começou. Para os países, as cidades, e também para algumas empresas que têm pavilhões, trata-se de defender sua marca no maior mercado do mundo, por meio de todo tipo de exposições artísticas e tecnológicas ou manifestações (shows, teatro...). A Dinamarca trouxe para seu pavilhão a Pequena Sereia de Copenhague, um sucesso imediato entre os visitantes chineses.

A dimensão política, no entanto, está longe de estar ausente. O pavilhão chinês, imenso pagode vermelho que permanecerá no local da Expo após seu término, por meio de sua arquitetura (projeção moderna da China milenar) e de seu conteúdo, está carregado de mensagens dirigidas aos chineses, mais do que ao exterior. Os visitantes assistem ali a projeção do filme “A China harmoniosa”, que mostra a evolução no tempo de uma família em torno de seu único filho (uma menina).

No começo morando de forma bem modesta, a família muda-se para apartamentos cada vez mais modernos e espaçosos. O filme é entrecortado por cenas de grandes realizações urbanas e tecnológicas de Xangai e da China. Assim como máximas de Confúcio, cuja convocação como pilar da nova ideologia do regime, a da “sociedade de pequena prosperidade”, não poderia ser mais explícita. No térreo do pavilhão, os estandes reservados para determinadas províncias problemáticas do ponto de vista político ilustram a visão chinesa da unidade do país. O Tibete é apresentado sob o aspecto do interior clássico de uma casa do País das Neves, com poltronas douradas e mesas vermelhas vigiadas pelos retratos do presidente Hu Jintao, de seu antecessor Jiang Zemin e de Mao Tsé-tung. As recepcionistas, vestidas com a tradicional “shuba”, a túnica tibetana, são chinesas Han.

No estande de Xinjiang, a província turbulenta dos uigures muçulmanos, uma foto panorâmica dos autóctones é musicada ao som de uma espécie de minueto. Graças a uma montagem digital, os visitantes podem tirar fotos vestidos como uigures, colocando-se diante de uma representação de trajes folclóricos sem rosto.

A Exposição também recebe os Estados párias dos quais a China é, por necessidade, por interesse ou por atavismo, a potência protetora: Coreia do Norte, Mianmar e Zimbábue. O do regime de Pyongyang recai em um realismo socialista de um novo gênero: três telas planas descrevem a vida sonhada na Coreia do Norte onde os banheiros são equipados com jacuzzis e vasos sanitários à moda ocidental.

Tradutor: Lana Lim

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