Em Xangai, aposentados humildes passam os dias apostando na Bolsa

Claire Gatinois

Enviada especial a Xangai

Foi em 1992, nem dois anos após a criação da Bolsa de Xangai, que Cheng Trang, aposentado do setor de construção civil, começou a apostar na Bolsa. “Para ganhar dinheiro”, diz, sem rodeios. “É como pescar com rede, você puxa da água e depois olha para os peixes que pegou”, brinca o sexagenário.

Não é sempre que o sr. Cheng pega peixes. Mas pouco importa. Todos os dias, há quase vinte anos, ele segue o mesmo ritual. Às nove horas em ponto, ele chega à sucursal da Bolsa de Xangai, a Shenyin & Wango Securities, em GuangDong Lu, para só sair de lá ao meio-dia; almoça com sua esposa, e volta à tarde, das 13h30 às 15h00.

Às vezes o sr. Cheng não aposta. Ele olha para as cotações passando pela grande tela que cobre uma parede da sala, fala das atualidades, de geopolítica com os frequentadores. Todos aposentados ou desempregados. “Vimos para cá porque não temos mais nada para fazer”, explica o idoso.

São cerca de cinquenta como ele que vêm de segunda a sexta, a este salão um pouco estranho com jeito de saguão de ferroviária. Os investidores da terceira idade se sentam em cadeiras de plástico diante de uma tela gigante como a que se pode ver em Wall Street. Eles conversam e brincam. Mas nesta quarta-feira chuvosa de abril, com a Bolsa em baixa, alguns se irritam.

Nenhum deles parece se interessar realmente pelo mercado financeiro. “Compro minhas ações por instinto”, explica Xehu, um operário aposentado. “Eu vejo a televisão, mas escolho minhas ações seguindo minha intuição pessoal”, diz Ma Mei, uma ex-costureira de 57 anos. Uma tática que permitiu a essa pequena senhora ganhar 100 mil yuans (cerca de R$ 25.400), comprar uma bolsa Louis Vuitton e adquirir mais facilmente um apartamento. “Minha filha, que mora em Paris, se preocupa um pouco quando cai, mas quando o mercado sobe, daí ela fica contente!”, diz.

Na China, a Bolsa é coisa do povo. Por quanto tempo? Xangai, no centro da atenção do mundo com a Exposição Universal, procura modernizar sua praça financeira, substituindo esses pequenos poupadores por profissionais do mercado financeiro.

Por enquanto, entretanto, “a bolha chinesa” parece ainda pertencer às pessoas das ruas. Eles representariam entre 40% e 60% dos investidores, dos quais muitos são idosos. Para eles, “a Bolsa é como corrida de cavalos”, explica Janxu Huang, advogado empresarial. “Alguns chegam a ir apostar de pijama”.

Como resistir? Um funcionário público aposentado ganha de 1.200 a 3.000 yuans, uma soma que pode chegar a 4.000 yuans para os ex-funcionários do setor privado. Há alguns anos a Bolsa vem ganhando ares de caça-níqueis, para eles. Foi em 2007, quando o mercado literalmente disparou (+96,66% em um ano), que os chineses realmente se conscientizaram da oportunidade . “No momento do boom, só se falava disso”, conta Wancheng Gu, uma jovem estudante de jornalismo. “Minha mãe chegou a usar meu nome para poder criar uma nova conta e investir mais!” Outros largaram seu trabalho para só apostar na bolsa e ganhar um pouco mais a cada dia.

Jovens, velhos, todo mundo começou a investir. E a crise não mudou muita coisa. Mas em vez de ir até as agências de rua, como os mais velhos, os quarentões e os estudantes investem pela internet. “Você só precisa clicar”, explica Yu Shan Chao, um jovem estudante da Universidade de Fudan em Xangai, para quem a Bolsa se tornou quase uma religião. “O budismo diz que os homens têm desejos, e que esses desejos os fazem avançar. A Bolsa também funciona assim, guiada pelo desejo dos homens”, explica.

Apesar de a ferramenta ser um puro produto do capitalismo, ninguém vê problemas nisso. Nem mesmo o Estado. “O governo não vê isso com maus olhos, pois a Bolsa é vista como um investimento que permite, de certa forma, compensar as reivindicações sobre os gastos sociais”, explica André Loesekrug-Pietri, codiretor de um fundo de “private equity” na China.

Na República Popular, a maioria dos custos de saúde e de educação não são cobertos pelo Estado, e as poupanças para o grande público são quase inexistentes ou dão um retorno muito pequeno. “Colocar seu dinheiro no banco é o mesmo que perdê-lo”, explica Zhang Hongjing, uma jovem estudante da Economic School of Shangai.

Mas logo essas pessoas das ruas certamente não poderão mais reinar no mercado de Xangai e fazer as cotações flutuarem, segundo suas “intuições pessoais”. Até 2020, o Estado pretende fazer desse mercado uma praça financeira internacional à altura de competir com sua vizinha de Hong Kong. As reformas se multiplicam para fazer dessa Bolsa um mercado sofisticado. No dia 16 de abril, uma nova etapa foi vencida. Nesse dia, as autoridades lançaram oficialmente contratos de futuros indexados, um produto financeiro da moda. Graças a ele, “os fundos especulativos poderão entrar no mercado”, prevê Wang Dingli, da empresa de investimentos Shangai Zhengding.

Para Cheng Trang e todos os frequentadores da sucursal de Shenyin & Wango Securities, a mudança deve ser radical.

Tradutor: Lana Lim

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