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"O Brasil pode ajudar a criar confiança com o Irã", diz Celso Amorim, chefe da diplomacia brasileira

Jean-Pierre Langellier

Enviado especial a Brasília

  • Vahid Salemi/AP

    Ahmadinejad recebe em Teerã o ministro das relações exteriores brasileiro, Celso Amorim

    Ahmadinejad recebe em Teerã o ministro das relações exteriores brasileiro, Celso Amorim

O ministro brasileiro das Relações Exteriores, Celso Amorim, volta do Teerã, onde preparava a visita do presidente Luiz Inácio Lula da Silva nos dias 16 e 17 de maio. Ele explica ao “Le Monde” por que é preciso dialogar com o Irã. Le Monde: Em que resultaram suas conversas sobre a questão nuclear? Celso Amorim: A questão nuclear agora se assemelha a um problema de física: é preciso encontrar o tempo certo, a quantidade certa de urânio e o lugar certo para tratá-lo. Encontrei um estado de espírito positivo entre os iranianos. As relações entre o Irã e o Ocidente são uma questão complexa. Mas existe uma maneira de avançar: usar a proposta feita ao Irã em setembro e outubro de 2009 pela Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), e encontrar os ajustes necessários para chegar a um acordo que leve em conta as sensibilidade mútuas. A AIEA propôs ao Irã que enviasse 85% de seu estoque de urânio enriquecido a 3% para a Rússia e para a França, e recebesse em troca combustível enriquecido a 20% para uso médico e impróprio para uso militar. Le Monde: Teerã não deu seguimento e a proposta foi considerada ultrapassada por aqueles que a fizeram, sobretudo porque o Irã começou em fevereiro a produção de urânio enriquecido a 20%. Amorim: Se a oferta não é mais válida, é uma pena. Mas não acredito nisso. O porta-voz do departamento de Estado americano disse várias vezes que essa proposta ainda estava sendo discutida. Dito isso, esse acordo, ainda que estivesse fechado, não resolveria o grande problema das relações entre Irã e Ocidente, que é a falta de confiança. Mas seria uma porta de entrada para conversas mais profundas sobre outros assuntos. Le Monde: A proposta da AIEA era um teste de confiança em relação ao Irã que não resultou em nada. Amorim: Sim, mas a desconfiança é mútua. Os iranianos dizem muitas coisas para justificar sua falta de confiança no Ocidente, mencionam compromissos não honrados. O Irã deveria aceitar a primeira proposta, pois era positiva para ele. Por quê? Pois era a primeira vez que o Ocidente reconhecia seu direito de enriquecer seu urânio com fins pacíficos. Le Monde: O ideal para o Brasil seria que o Irã aceitasse a proposta da AIEA durante a visita de Lula. Amorim: O emprego do tempo do presidente não foi decidido em função dessa questão. Sua viagem, decidida há muito tempo, o levará a quatro outros países. é um pouco demais esperar que se anuncie um acordo detalhado durante essa viagem. Mas o Brasil pode ajudar a criar confiança, a eliminar mal-entendidos e preconceitos. Assim como a Turquia, país muçulmano, vizinho e membro de Otan. Le Monde: Essa desconfiança tem uma longa história. A AIEA acredita que o Irã escondeu por muito tempo a realidade de seu programa. Amorim: é por isso que um acordo fundamentado sobre a proposta da AIEA é tão importante. Poderia se verificar pela primeira vez muito concretamente que as coisas estão indo na direção certa. é possível? Sim. é fácil? Não. é preciso tentar? Sim. Pois qual é a alternativa? Sanções que só tornariam o Irã mais rígido, levando a sanções mais fortes. Já passamos por essa história com o Iraque.

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