Apesar do desastre nos EUA, petroleiras continuarão a exploração do mar

Jean-Michel Bezat

É certamente uma ironia da História: a primeira verdadeira descoberta de petróleo offshore ocorreu em 1947, a 20 quilômetros da costa da Louisiana, Estado do delta do Mississippi que hoje é ameaçado por uma maré negra devastadora para sua economia e seu ecossistema.

Ao longo das décadas, as petroleiras conquistaram continuamente novas “províncias” petroleiras, as grandes jazidas de hidrocarbonetos que muitas vezes foram descobertas no mar a partir dos anos 1960: a alguns metros de profundidade, como em Kashagan (Cazaquistão) em 2000, a 1.400 metros de profundidade em Angola e na Nigéria. E a profundezas abissais (mais de 3 mil metros) no Brasil.

De 10% da produção mundial em 1960, a parte do óleo bruto extraído no mar agora ultrapassa os 30%, graças a importantes descobertas nos últimos cinquenta anos. Um quarto das reservas mundiais se encontra sob os oceanos, indica o Instituto Francês do Petróleo (IFP). E ainda mais, se somarmos as promissoras reservas da região ártica. As grandes companhias internacionais desenvolveram a produção no mar a partir dos anos 1970 por causa da decisão de determinados países, especialmente no Oriente Médio, de nacionalizar o setor dos hidrocarbonetos, proibindo (Arábia Saudita, Kuait, México) ou restringindo (Irã, Venezuela...) o acesso a suas reservas de petróleo.

O acidente na plataforma Deepwater Horizon, da BP, “não teve impacto significativo sobre a produção de hidrocarbonetos”, reconheceu, no sábado (1º), Thad Allen, o comandante da guarda-costeira que foi nomeado pelo presidente Barack Obama para liderar as operações de emergência. A produção no mar continuará sendo uma dessas “novas fronteiras” às quais os engenheiros petroleiros estão sempre resistindo. Um porta-voz da Total reconhece que, ainda que o grupo “espere com impaciência os primeiros resultados da investigação para dela tirar as lições”, nem por isso a catástrofe fará “reconsiderar sua estratégia”.

Novas campanhas de exploração

Apesar de estar pouco presente no Golfo do México, onde possui somente 17% do projeto Tahiti dirigido pela americana Chevron e por grupos de exploração, para a Total as águas da Nigéria e de Angola são estratégicas. Com o petróleo pesado (Canadá, Venezuela), o gás natural liquefeito (GNL) e o gás não convencional (especialmente nos Estados Unidos), o offshore profundo é um dos quatro eixos de desenvolvimento do grupo. Esses petróleos ditos “tecnológicos” precisam de grandes investimentos e só são rentáveis com um barril a US$ 60. A US$ 86, hoje, ultrapassa-se em muito esse limiar de rentabilidade.

Então as grandes companhias internacionais se desenvolvem no offshore. Só no Golfo do México, que não é mais esse “mar morto” descrito vinte anos atrás pelas petroleiras, os ativos da BP chegam a US$ 37 bilhões (R$ 65 bilhões), à frente da Chevron e da Shell, calculou o Deutsche Bank. Todas as grandes companhias fizeram importantes descobertas ali nos últimos anos, especialmente a BP, no verão de 2009. A Total, a Shell, a Chevron e a Eni também exploram ativamente o Golfo da Guiné.

Nos Estados Unidos, já esquenta o debate sobre o reinício das perfurações no mar que foram anunciadas no dia 31 de março por Obama, em nome da segurança de fornecimento energético dos Estados Unidos. Essas zonas haviam sido alvo de campanhas de exploração 30 anos atrás, mas foram transformadas em santuários. Segundo dados históricos da agência federal Minerals Management Services, a plataforma continental atlântica (oeste) contem pelo menos 3,8 bilhões de barris, observa o IHS-Cambridge Energy Research Associates (IHS CERA). Ele diz ainda que perfurações mais profundas poderiam confirmar a presença de grandes quantidades de petróleo e de gás sob uma camada de sal, como nas costas brasileiras.

Desde os anos 1970-1980, as petroleiras vêm fazendo enormes progressos na exploração-produção, graças à prospecção sísmica em três dimensões (combinada com a informática) e às perfurações direcionais. Novas campanhas de exploração devem ser lançadas, mas as primeiras implementações no Atlântico – se ocorrerem – são esperadas só para daqui a sete, dez anos. Também foram realizadas perfurações ao largo da Nova Inglaterra, da Georgia e da Flórida, e devem ser retomadas. A menos que a atual catástrofe obrigue a administração Obama a decretar um novo adiamento.

Tradutor: Lana Lim

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