Enfraquecida, Coreia do Norte busca ajuda da China

Philippe Pons

Enviado especial a Seul (Coreia do Sul)

  • Kyodo News/AP

    O ditador norte-coreano Kim Jong-il chegou à China na madrugada desta segunda-feira (3) para uma visita a sua maior aliada

    O ditador norte-coreano Kim Jong-il chegou à China na madrugada desta segunda-feira (3) para uma visita a sua maior aliada

A visita à China do líder norte-coreano Kim Jong-il, que chegou na segunda-feira (3) a Dalian, é sintomática da aproximação da China e da Coreia do Norte. Dando seguimento à visita do presidente chinês Hu Jintao a Pyongyang, em fevereiro, esta tem como pano de fundo um aumento de tensão na península coreana depois do naufrágio de um navio de guerra do Sul, que suscita em Seul especulações sobre o envolvimento do Norte.

A Coreia do Norte tem uma necessidade urgente do apoio da China: sua economia vacila e sua população sofre de uma grave carência alimentar, segundo ONGs sul-coreanas.

Mas não são somente os norte-coreanos que têm interesses: os dirigentes chineses também querem reforçar os laços com Pyongyang. “A China aumenta sua presença econômica e seu peso político na Coreia do Norte para evitar qualquer instabilidade assim que se abrir a era pós-Kim Jong-il”, acredita Choi Choon-heum, do Instituto para Unificação Nacional em Seul.

A visita à China do dirigente norte-coreano parece indicar que Pequim, que mostra uma grande prudência – assim como Washington – no caso do naufrágio do navio de guerra sul-coreano (cuja causa permanece sem explicação), não abraça a tese de um ataque feito pelo Norte, provocando certa irritação em Seul. Ela também faz pensar que a Coreia do Norte estaria preparada para uma retomada das negociações do grupo dos seis (Coreia do Sul e do Norte, China, Estados Unidos, Japão e Rússia) sobre sua desnuclearização, suspensas por Pyongyang em maio de 2009 em protesto contra as sanções da ONU, adotadas após seu segundo teste nuclear. Uma retomada das negociações desejada por Pequim, que poderia ser a compensação por sua ajuda.

A influência da China sobre a Coreia do Norte é uma questão recorrente. Quando os Estados Unidos e seus aliados lhe pedem para fazer pressão sobre a Coreia do Norte, Pequim responde não ter grande influência sobre Pyongyang. O que é uma meia-verdade. Mas esse não é o cerne do problema. Única aliada da Coreia do Norte, da qual é a principal parceira comercial e auxiliadora, a China certamente pode exercer pressões sobre Pyongyang, mas suas prioridades não são as mesmas dos EUA e seus aliados: “Ali há um mal-entendido fundamental: a China tem por prioridade estratégica a estabilidade da Coreia do Norte; a questão nuclear, obsessão do Ocidente, vem em segundo lugar”, segundo Choi.

Certamente há na China duas escolas de pensamento sobre a política em relação à Coreia do Norte: os “tradicionalistas”, para quem esta continua sendo um país-irmão, e os “internacionalistas”, que a consideram um fardo para Pequim, e defendem uma mudança de regime. “É um debate acadêmico que praticamente não influencia as escolhas estratégicas do Partido Comunista”, modera Choi.

Para a China, as ambições nucleares norte-coreanas são constrangedoras: elas provocaram uma crise internacional e podem se tornar um fator de desestabilização da região, ao abrir uma corrida armamentista. Desde 2003, Pequim exerce um papel de mediador nas discussões do grupo dos seis e votou, em 2009, nas sanções da ONU. Mas sua aplicação é problemática.

Para os dirigentes chineses, a estabilidade da Coreia do Norte é primordial: eles já têm problemas a oeste (Tibete e Xinjiang) e não pretendem ter outros a nordeste. Mas qualquer desestabilização da Coreia do Norte – com a qual a China divide uma fronteira de 1.400 quilômetros – teria sérias repercussões: afluxo de refugiados e possíveis problemas com a minoria coreana da região fronteiriça (províncias de Liaoning e Jilin), que Pequim pretende tornar um novo polo de crescimento, junto com Heilongjiang.

As sanções internacionais, combinadas com a política de firmeza de Seul em relação a Pyongyang, agravaram o colapso econômico da Coreia do Norte e a jogaram “ainda mais nos braços de Pequim”, diz Choi. “Até o fim de 2009, Pyongyang podia esperar que sua política de pacificação reiniciaria a cooperação com o Sul. Hoje, eles não se iludem mais”, afirma Cheong Seong-chang, do Instituto Sejong em Seul.

Para compensar uma deterioração da situação na Coreia do Norte, a China procura integrá-la ao desenvolvimento de suas três províncias do nordeste. Ela pretende fazer da cidade de Dandong, pela qual transita a maioria do comércio com a Coreia do Norte, uma “segunda Shenzhen” (zona de economia especial de Guangdong), e investir US$ 800 milhões na criação de zonas industriais sobre duas ilhas quase desertas do rio Yalu (que separa os dois países). Além disso, a China obteve de Pyongyang um direito de uso por dez anos do porto de Rajin, que lhe dá acesso ao mar do Japão.

Apesar de a Coreia do Norte ser rica em metais raros – dos quais a China vai aos poucos se apropriando - , os investimentos comportam riscos. Mas “a cooperação entre China e Coreia do Norte é guiada mais por considerações políticas do que por interesses econômicos”, acredita Park Byung-kwang, do Instituto de Segurança Estratégica em Seul.

O principal parceiro comercial da Coreia do Norte:

* Comércio - Em 2009, o comércio entre os dois países chegou a US$ 2,7 bilhões, representando mais da metade do total das importações da Coreia do Norte e um quarto de suas exportações.

*As exportações chinesas - Petróleo, equipamentos, máquinas e produtos alimentícios constituem dois terços das transações comerciais. Elas cresceram 46% entre 2007 e 2008.

Tradutor: Lana Lim

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