Crise na Tailândia é sintoma do fim de um reinado

Rémy Ourdan

Enviado especial a Bancoc

  • Reuters

    Tropa de choque da polícia tailandesa atira contra "camisas vermelhas" em Bancoc, durante manifestação na semana passada. Acordo com governo colocou fim aos protestos no país

    Tropa de choque da polícia tailandesa atira contra "camisas vermelhas" em Bancoc, durante manifestação na semana passada. Acordo com governo colocou fim aos protestos no país

A Tailândia ganhou uma certeza: a crise provocada pelo movimento antigovernamental dos "camisas vermelhas" marca um ponto de virada na vida do reino. Uma virada em um ciclo político iniciado em 2006 com a derrubada por um golpe militar de Thaksin Shinawatra - o único primeiro-ministro tailandês a ter concluído um primeiro mandato e ter sido reeleito - e que terminará com a morte do rei Bhumibol Adulyadej, o mais antigo soberano do planeta, com 82 anos, dos quais 64 de reinado. A Tailândia entrará então na era de todas as incertezas.

É uma virada porque os "camisas vermelhas" revelaram aos tailandeses a extrema divisão de sua sociedade. Entre ricos e pobres, entre velhas elites conservadoras, monarquistas, financeiramente privilegiadas, e um campesinato vítima da industrialização e do êxodo rural. Uma nova elite, que teve acesso ao capitalismo triunfante dos anos Thaksin, também emerge e também rejeita as velhas classes dirigentes. Essas categorias ainda são muito caricaturais para descrever até que ponto as fraturas parecem múltiplas e profundas. E essas divisões, das quais os tailandeses tomam consciência, lhes causam medo.

Politicamente, há duas maneiras de se ver a crise. Thaksin Shinawatra, o primeiro-ministro mais popular que a Tailândia já teve, embora autoritário e corrupto, foi injustamente derrubado, e depois dois governos pró-Thaksin foram derrubados pelos "camisas amarelas" hoje no poder.

O atual governo de Abhisit Vejjajiva é portanto ilegítimo, nascido de intrigas palacianas e da vontade do exército. O que é verdade. No outro lado, explicam que Thaksin, ex-primeiro-ministro exilado entre Dubai e Montenegro depois de condenações por corrupção, levanta e financia uma horda de perigosos paramilitares e bandidos pouco afeitos às sutilezas da política, para ocupar o centro da capital e desestabilizar a economia de um país que só aspira à paz e à democracia. E não é mentira.

Mas os motivos profundos da crise são outros, a evolução de uma sociedade com desigualdades gritantes; a tomada de consciência de que ninguém, fora Thaksin, segundo seus seguidores, jamais considerou uma melhor divisão das riquezas; e o final de um reinado que abre a porta para os temores mais sombrios.

Não é por acaso que os atores do poder tailandês demonstraram moderação diante dos "vermelhos". Eles sabem que estes gozam de uma popularidade que supera de longe os desfavorecidos, e também atraem funcionários públicos, militares, policiais, intelectuais e empresários. Intervir radicalmente contra os "vermelhos" incluiria o risco de se isolar ainda mais uma grande faixa da sociedade. Sem contar que a chegada da democracia e a redução das desigualdades são desejadas muito além dos círculos "vermelhos".

O primeiro-ministro Abhisit Vejjajiva administrou a crise com prudência, recluso em um campo militar. Mas ele tinha alternativa? O exército e a polícia teriam lhe obedecido no caso de uma ordem mais radical? O chefe do exército, general Anupong Paojinda, apelou para um acordo político e avisou que se recusaria a usar a força contra os vermelhos. Mas, além de que ele terminará seu mandato em setembro e não desejasse partir com um golpe de Estado ou uma chacina, teria outra opção? Um golpe de força militar não teria assinado um divórcio histórico entre os tailandeses e seu exército? O rei Bhumibol Adulyadej, enfim, manteve o silêncio. Ele não fez, como em 1992, os protagonistas da crise ajoelhar-se e prostrar-se diante do trono. Mas - uma pergunta tabu no reino de Sião -, teria sido obedecido desta vez? Algumas pessoas duvidam.

Esta crise, além das reivindicações políticas e sociais, é também a manifestação de um fim de reinado. Sem mesmo pressagiar a dificuldade para o príncipe herdeiro Maha Vajiralongkorn suceder a um pai que teria reinado mais de seis décadas com um estatuto igual ao de um deus, a pergunta é: que Tailândia depois de Bhumibol? Até os monarquistas mais fervorosos se interrogam. O sistema, que repousa sobre um rei venerado, cercado de um conselho privado composto de fiéis generais (dirigido desde 1998 pelo poderoso e hábil Prem Tinsulanonda) e de um exército que controla ou influencia os governos, antes de lhes obedecer, parece pouco compatível com o desejo de democracia dos tailandeses.

O fato de a família real ser uma das maiores fortunas do planeta, em um país onde os desfavorecidos são esquecidos, também começa a ser criticado.

Se há uma guerra de sucessão, é portanto a de um sistema. Thaksin não foi derrubado unicamente porque era corrupto, ou porque desagradava ao rei, a Prem e ao exército, mas porque sua autoridade e sua insolente popularidade colocavam em risco o edifício. Porque ele fez os desfavorecidos entrever que tinham direitos, a começar pelo de ter um governo que se preocupe com eles, e aos urbanos que podiam pretender ser a elite de amanhã.

O slogan "Thaksin presidente", murmurado pelos próprios vermelhos assustados por tal audácia, não são raros. Isso não significa que a população queira trocar a monarquia por uma república, mas mostra que a sede de mudança não afeta apenas a política econômica e social.

O ponto de virada está aí, nessa liberação da palavra, essa liberação dos sonhos dos tailandeses. Conservadorismo e arrogância das elites tradicionais, corrupção, identidade nacional e classes sociais, o papel do conselho privado e do exército, a era pós-Bhumibol: todos os temas delicados são mencionados hoje. Em uma sociedade em que se ensina o povo a obedecer sorrindo, sem fazer perguntas, os tabus são pouco a pouco suspensos. As travas psicológicas arrebentam, provocando, veneno ou progresso, sem retrocesso possível, o que é ao mesmo tempo um medo e uma embriaguez do desconhecido.

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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