Mesmo com protestos, economizar e gastar menos é o que resta para o grego comum

Catherine Simon

Enviada especial a Atenas

Eles manifestam e protestam... usando a calculadora. Diante das medidas de austeridade que se anunciam, Georgios Nikolakopoulos, 50, professor de matemática no ensino médio, faz suas contas. Esse homem robusto de jaqueta de couro já decidiu, ao mesmo tempo em que se mantém fiel aos rituais sindicais, economizar no consumo de cerveja e cigarros.

Com o aumento do IVA (imposto sobre valor agregado) em breve para 23%, a mercearia de seu bairro elevará o preço da cerveja de 1,05 euro para 1,20 euro – “para não falar nos 5 euros que se paga nos cafés de Atenas”. Ao mesmo tempo, sua renda de professor está condenada ao corte: seus 18.800 euros anuais perderão 2.500 euros. Adeus ao mercadinho e à feira livre do sábado de manhã! Georgios Nikolakopoulos comprará cerveja e legumes nas lojas de desconto.

Gastar menos ou trabalhar mais? É esse o dilema dos gregos. Alguns optam por apertar o cinto: um prevê não viajar mais para o exterior nas férias, outro pretende comprar menos livros ou limitar suas idas ao cinema. Mas muitos tentam encontrar o trabalho – no setor informal, possivelmente – que lhes permitirá melhorar suas condições de vida.

As aulas particulares, a domicílio, rendem a um professor do ensino médio entre 20 a 60 euros por hora – muito mais do que ele ganha em uma escola particular oficial (cerca de 10 euros por hora). Ora, não há nenhum aluno na Grécia que possa ficar sem aulas particulares, se quiser passar no ensino médio e entrar na faculdade.

“Não há alternativa ao plano governamental”

No departamento de comunicação, mídia e cultura da Universidade Panteio (Atenas), acaba de ser iniciada uma pesquisa para estudar esse “duplicamento” escolar para os jovens da “geração Y” (nascidos a partir de 1995). As virtudes ostentatórias do plano de austeridade – que visa prioritariamente os empregados do setor público – correm o risco de mascarar, tanto entre os professores como em outras categorias, uma corrida desenfreada aos empregos informais.

Impopulares, os funcionários públicos são alvo fácil: os trabalhadores do setor privado, muitas vezes menos protegidos, não se chocam necessariamente ao ver esses exércitos de burocratas cheios de ansiedade. Não dizem que no Parlamento – onde há 300 deputados – os funcionários seriam 1.500? E que até agora eles tiveram o benefício de um 15º e um 16º salários? Curiosamente, somente os salários dos funcionários públicos deverão diminuir. A redução do número, excessivo, de agentes no setor público, (ainda) não está prevista oficialmente. Alguns analistas pensam que isso pode acontecer no outono.

“Os gregos não sabem mais no que acreditar. Eles percebem que não há alternativa ao plano governamental. São como criancinhas que ficaram sem um brinquedo”, comenta Thomas Gerakis, presidente do Instituto de Pesquisa Marc SA.

A manifestação do dia 1º de maio, que reuniu quase 15 mil pessoas nas ruas de Atenas, deve ser amplamente ultrapassada pela de 5 de maio, dia de greve geral. Com ou sem deslizes.

Na terça-feira, houve vários desfiles e eventos – o mais espetacular teve como palco a entrada da Acrópole, onde cerca de 200 manifestantes comunistas conseguiram, logo pela manhã, abrir uma faixa, convocando os “povos da Europa” a se “revoltarem” ao lado da Grécia.

Tradutor: Lana Lim

UOL Cursos Online

Todos os cursos