Israel adota postura defensiva a respeito de seu arsenal nuclear

Laurent Zecchini

Em Jerusalém

As autoridades israelenses comemoraram um pouco rápido demais no fim da conferência sobre segurança nuclear, nos dias 12 e 13 de abril, em Washington. Apesar das intervenções de representantes árabes condenando o status singular do armamento nuclear de Israel, o alerta não havia sido muito duro porque o programa nuclear do Irã dominou os debates. Mas a história foi outra com a declaração adotada no dia 5 de maio, em Nova York, pelos cinco membros permanentes do Conselho de Segurança da ONU (Estados Unidos, Rússia, China, Grã-Bretanha e França), paralelamente à conferência de acompanhamento do Tratado de Não-Proliferação Nuclear (TNP).

Uma potência nuclear

Tratado de Não-Proliferação Nuclear. Israel não é membro do TNP e não assinou a Convenção sobre as Armas Biológicas. O Estado hebraico assinou, mas não ratificou, a Convenção sobre as Armas Químicas.

Vetores. O exército israelense teria possivelmente três deles para utilizar suas armas nucleares: seus aviões F-16 e F-15; os mísseis balísticos Jericho I e II; mísseis de cruzeiro a bordo de três submarinos Dolphin.

Cinco zonas livres de armas nucleares. Criadas por meio de tratados, elas englobam a América Latina e o Caribe (Tratado de Tlatelolco, em 1967), o Pacífico Sul (Tratado de Rarotonga, em 1985), o Sudeste Asiático (Tratado de Bangcoc, em 1995), a África (Tratado de Pelindaba, em 1996) e a Ásia Central (Tratado de Semipalatinsk, em 2006)

Nesse texto, as cinco potências nucleares oficiais retomam por conta própria a resolução de 1995 do TNP, que havia defendido a criação de uma zona desnuclearizada no Oriente Médio. Essa iniciativa certamente visa o Irã, mas não somente. Israel é a única potência nuclear reconhecida da região, com um arsenal que a organização americana Arms Control Association avalia entre 75 e 200 ogivas nucleares.

Trata-se portanto de um revés diplomático – mas nesse estágio ainda limitado - para Israel, cuja política dita de “ambiguidade” (que visa manter a ilusão de que não “seria o primeiro (Estado) a introduzir armas nucleares no Oriente Médio”) é tacitamente apoiada há várias décadas pelos Estados Unidos. O fato de que Washington critica implicitamente o status nuclear de Israel é interpretado, em Jerusalém, como um sinal da deterioração das relações bilaterais.

Essa iniciativa dos Cinco é ainda mais preocupante por vir acompanhada daquela do diretor-geral da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), Yukiya Amano, que em uma carta do dia 7 de abril (tornada pública no dia 5 de maio), pediu aos ministros das Relações Exteriores dos 151 Estados-membros da organização de Viena que lhe fornecessem “seus pontos de vista” para tentar convencer Israel a assinar o TNP.

Já em setembro de 2009, a AIEA havia adotado uma resolução de título inequívoco (“Capacidades nucleares israelenses”), ordenando o Estado hebraico a colocar suas instalações nucleares, mais especificamente seu reator de Dimona, em Néguev, sob sua supervisão. No entanto, os israelenses não podem se surpreender com a declaração dos Cinco. Durante vários meses as autoridades americanas estiveram em contato com o governo egípcio, que assumiu a liderança da luta por um Oriente Médio livre de armas nucleares, que visa especificamente Israel.

O Egito, líder dos países não alinhados dentro da conferência do TNP, havia avisado que se não obtivesse satisfação com a declaração dos Cinco, seria contra qualquer outra decisão da Conferência. A secretária de Estado americana, Hillary Clinton, se esforçou para atenuar a preocupação israelense, ressaltando que a perspectiva de um Oriente Médio desnuclearizado não poderia surgir sem um acordo de paz regional. Ela também lembrou que os Estados Unidos pedem a todos os países da região que abandonem suas armas de destruição em massa.

As autoridades israelenses se recusaram a comentar a declaração dos Cinco. Entrevistada pelo “Le Monde” sob anonimato, uma autoridade israelense lembra, no entanto, a posição oficial: “Nós mantemos nosso apoio ao princípio de um Oriente Médio desnuclearizado. Mas para que essa opção seja abordada de forma séria, deve haver relações de paz entre todos os países da região, senão será apenas uma ilusão. Sem a paz, é uma iniciativa que não tem sentido algum.

“Além do mais”, diz, “é claro que não se devem visar somente as armas nucleares, mas todas as armas de destruição em massa. Ora, os países árabes não ratificaram quase nenhum tratado proibindo armas biológicas e químicas. Essa declaração não cita Israel nominalmente, ainda que saibamos bem o que devemos esperar”.

Israel não tem intenção nenhuma de assinar o TNP. Ele acredita que esse tratado provou ser ineficaz, uma vez que não impediu países como o Irã, mas também a Síria, a Líbia e o Iraque, de romperem clandestinamente certas etapas que levaram à produção de armas atômicas. Esses programas precipitaram, no passado, intervenções do exército israelense (no Iraque em 1981 e na Síria em 2007).

O arsenal nuclear de Israel, até hoje, raramente foi exposto a críticas. Ephraim Kam, especialista em assuntos nucleares e em Irã no Instituto de Estudos de Segurança Nacional (INSS) de Tel-Aviv, explica que se essa declaração dos Cinco não tiver continuidade, o revés provavelmente não terá consequências para Israel. “Tudo depende de se Washington irá mais longe, ao adotar medidas concretas, práticas, para pressionar Israel, a fim de que ele resolva aderir ao TNP”, observa. “Só assim veremos se os Estados Unidos mudaram de atitude. O diálogo sobre esse ponto será feito com Washington”.

Os israelenses entendem a intenção americana, que visa dar garantias aos países – Rússia e China, em especial – reticentes em adotar sanções mais duras contra o Irã, sendo que do seu ponto de vista, o arsenal nuclear de Israel se beneficia de uma espécie de impunidade por parte da comunidade internacional.

Mas eles acreditam que a tentação de não tomar partido nem do regime iraniano, nem das autoridades israelenses, é um posicionamento ao mesmo tempo injusto e perigoso.

Tradutor: Lana Lim

UOL Cursos Online

Todos os cursos