Estados Unidos consideram adiar retirada das tropas no Iraque

Patrice Claude

  • Khalil al-Murshidi/AFP

    Imagens do carro bomba utilizado no último atentado coordenado no país na última segunda-feira (10), matando mais de cem pessoas. A data foi a mais violenta do país neste ano

    Imagens do carro bomba utilizado no último atentado coordenado no país na última segunda-feira (10), matando mais de cem pessoas. A data foi a mais violenta do país neste ano

Os insurgentes aumentam suas ações em um país em busca de governo, agora que a retirada americana foi iniciada

Cerca de sessenta ataques em dez cidades, em doze horas. Além do saldo humano que foi o mais pesado do ano de 2010, com 119 mortos e 500 feridos, o grau de sofisticação e de organização mostrado na segunda-feira (10) pela guerrilha por todo o país literalmente paralisou o Iraque.

Periodicamente dados pelo governo central como vencidos ou quase, os grupos rebeldes jihadistas dominados pelo braço local da Al-Qaeda, e provavelmente ajudados por ativistas do antigo regime baathista, concluíram com sucesso na segunda-feira (10) uma série de operações como não se via há quase três anos. Não é uma coincidência que esses ataques estejam acontecendo no momento em que o Iraque, mais de dois meses depois das eleições gerais de 7 de março, continua a buscar um governo viável, e, sobretudo, no momento em que os americanos se preparam para partir.

Enquanto os partidos políticos iraquianos continuam a brigar sobre os resultados e sobre a escolha de um primeiro-ministro, comboios americanos com milhares de toneladas em equipamento já pegam, toda semana durante a noite, o caminho de saída para o sul via Kuait, e para o norte via Turquia.

As “tropas de combate” com 42 mil homens, ainda presentes no território, e que só atuam “a pedido do governo iraquiano”, teoricamente deixarão o país dentro de quinze semanas. Segundo os acordos fechados no fim de 2008, os 50 mil soldados remanescentes, logísticos e “conselheiros”, devem se retirar no dia 31 de dezembro de 2011.

Até agora, após cada onda de atentados - a última tendo sido no dia 23 de abril, quando a Al-Qaeda no Iraque, querendo vingar a morte de seus dois principais líderes cinco dias antes em um ataque, investiu contra a comunidade xiita (72 mortos em Bagdá) - o comando americano repetia que seu cronograma de retirada “não havia sido afetado”. Desta vez, conscientizando-se da gravidade dos acontecimentos, duas “altas fontes da administração”, citadas pela agência americana Associated Press, falam em “repensar todas as opções, inclusive a data limite de 31 de agosto”.

A retirada anunciada de 12 mil homens todos os meses até 31 de agosto poderá “começar em junho, talvez mais tarde” e não em maio, como anunciado anteriormente. Muitos iraquianos temem uma volta aos anos sangrentos de 2006-2007, quando os jihadistas ocuparam bairros inteiros de Bagdá, bem como vilarejos, e quando conseguiram, ao realizar diversos atentados contra os xiitas, dando origem a diversas milícias armadas, desencadear uma verdadeira guerra civil. Desmanteladas em 2008, algumas dessas milícias de autodefesa, cujo poderoso e mortífero Exército do Mahdi, criado pelo popular pregador antiamericano Moqtada al-Sadr, voltaram a aparecer nestas últimas semanas em determinados bairros da capital.

“Acordar” os sunitas

Visando essencialmente vilarejos de maioria xiita como Bagdá, Hilla ou Bassora, segunda maior cidade do país, os agressores do dia 10 de maio, que também querem “fixar” o maior número possível de soldados no Iraque para encontrar recrutas e financiamentos para seu combate, procuram sempre o mesmo efeito. Zarkawi, fundador da rede sunita jihadista no Iraque, diz que “é preciso que civis sunitas sejam mortos pelas milícias xiitas para que a comunidade inteira acorde e se junte a nós”.

Num momento em que a minoria árabe sunita do Iraque, que governou o país até a queda de Saddam Hussein em abril de 2003, se mostra preocupada com seu futuro sob um governo dominado pela maioria xiita, a estratégia da Al-Qaeda, que considera o xiismo como um desvio do islamismo, não mudou. Somente as táticas evoluíram. A maior novidade em oito anos, dezenas de homens disfarçados de funcionários municipais e munidos de pistolas com silenciador atacaram, nas primeiras horas da madrugada do dia 10 de maio, cerca de dez barreiras militares na capital, matando quase que discretamente quinze funcionários uniformizados.

Como em Bagdá e seu entorno há milhares de barricadas, levar até ali um veículo carregado de explosivos para detoná-lo perto de um prédio público, uma embaixada ou um hotel se tornou mais difícil, a menos que haja cumplicidade de certos funcionários da segurança. Esse tipo de ataque é mais simples de se realizar em lugares menos vigiados como Hilla, capital da província da Babilônia, ou Bassora, principal cidade do sul.

Com cerca de doze carros-bomba e um punhado de “candidatos a mártires” que só agem quando o resgate e os curiosos se juntam em torno de um local visado, os mandantes desses ataques em duas, ou até três fases, se certificam de fazer o máximo possível de vítimas. Houve 45 mortos e 140 feridos em Hilla, 30 mortos e 80 feridos em Bassora.

Tradutor: Lana Lim

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