Questão nuclear iraniana é um problema impossível de ser resolvida

Alain Frachon

  • Reuters

    Técnicos iranianos manuseiam barril de 'yellow cake' (urânio ainda não enriquecido) na usina de Isfahan, a 420 km da capital do país, Teerã

    Técnicos iranianos manuseiam barril de 'yellow cake' (urânio ainda não enriquecido) na usina de Isfahan, a 420 km da capital do país, Teerã

Como conter a corrida do Irã pela bomba nuclear? Em um memorando “secreto” enviado à Casa Branca, e revelado em meados de abril pelo “New York Times”, o secretário da Defesa, Robert Gates, manifestou sua angústia: os Estados Unidos não têm nenhuma boa solução – talvez nenhuma solução. Vinda desse republicano nomeado para o Pentágono por George Bush, e que Barack Obama manteve no cargo, a confissão tem peso.

Aos 66 anos, Bob Gates, ex-diretor da CIA, ex-sovietologista, é o homem mais ouvido na Casa Branca a respeito de questões estratégicas. Esse nativo do Kansas é a quintessência do realista em política externa. Ele desconfia tanto dos “falcões” quanto dos “pacifistas”, abomina o “e se...”.

Mas Bob deixa transparecer um sentimento de impotência quanto ao Irã. É menos um sinal de fraqueza do que o reconhecimento da complexidade da questão. Nesse caso, há somente uma certeza: a República Islâmica quer ter a capacidade de produzir “a” bomba. Todo o resto é somente uma mistura de questões sem respostas evidentes. A seguir, uma análise de alguns parâmetros da equação iraniana.

A certeza, O Irã “preenche todos os requisitos da proliferação nuclear”, diz o cientista político François Heisbourg. O Irã está se munindo de uma capacidade de enriquecimento do urânio que só pode ter um fim: militar. Em recente relatório, a Agência Internacional da Energia Atômica (AIEA) suspeita que Teerã esteja trabalhando em um míssil destinado a levar uma ogiva nuclear. Até a Rússia e a China, as duas “grandes” do Conselho de Segurança da ONU mais próximas da República Islâmica, têm suas dúvidas. Elas ouvem com desconfiança as pacíficas declarações de intenções vindas de Teerã, que Mahmoud Ahmadinejad, o presidente iraniano, reiterou à ONU.

Mais diretos, os Estados Unidos acusam o Irã de estar preparando uma arma atômica, mas dizem não saber se ele tomou a decisão de passar para a produção da referida bomba. Segundo a revista “Time”, Washington pensa que os iranianos ainda estão hesitando e que precisariam, de qualquer forma, de dois a três anos para dispor de uma bomba.

"Ninguém pode questionar Irã por usar energia nuclear", diz o presidente do Irã

O Irã estaria decidido a ser “um país limiar”, ou seja, um país que possui todos os elementos para uma bomba atômica, mas não a fabrica. Problema: há poucos exemplos de países do “limiar” que tenham permanecido no “limiar”... Veja o Paquistão e a Índia. O que leva de volta à questão feita por Bob Gates: como deter o programa nuclear iraniano?

As sanções são eficazes? A opinião mais difundida é que elas não servem de nada. O Irã vive sob um regime de sanções desde 1979. Ele teve tempo de implantar uma rede de empresas de fachada que lhe permitem contornar todos os embargos. A ONU deverá decidir em junho uma nova série de sanções contra Teerã, acusado de não respeitar suas obrigações em relação ao Tratado de Não-Proliferação Nuclear. Mas a China, grande importadora de petróleo iraniano, e a Rússia, principal fornecedora militar da República Islâmica, disseram que só votariam em sanções modestas... daí a ideia americana, apoiada pela Alemanha, França e Reino Unido, de somar às sanções da ONU “sanções voluntárias” – unilaterais – que devem “prejudicar bem mais”.

Pois alguns acreditam que sanções mais duras – o Irã importa 40% de sua gasolina – podem enfraquecer seriamente o regime. E fazer com que seja questionado. A oposição iraniana é contra sanções que castigariam uma população em estado de revolta latente contra o governo.

Existe uma opção de “ataques militares limitados”? Resposta mais frequente: não. Tais ataques só retardariam momentaneamente o programa iraniano. Eles desencadeariam aquilo que queremos evitar: uma corrida armamentista nuclear na região, provando que somente os países que possuem a bomba – veja a Coreia do Norte – não são atacados. Enfim, eles têm todas as chances de não permanecerem “limitados”.

A resposta de Teerã pode levar o Oriente Médio à guerra: o Irã “colocaria” seus aliados, o Hezbollah libanês e o Hamas palestino, contra Israel, cuja réplica não se limitaria ao Líbano, mas atingiria a Síria, que por sua vez... A oposição iraniana, frente à agressão externa, se uniria ao regime.

Entretanto, nem Israel, nem os Estados Unidos dizem ter abandonado essa opção. Não é certeza que a República Islâmica tenha condições de responder, ou de fazer responder, seriamente a ataques limitados contra algumas de suas instalações. Ela também poderia decidir se submeter e depois retomar seu programa, desta vez se beneficiando da aura de “mártir”.

É possível aceitar um Irã nuclear? Opinião dominante: inaceitável. Seria um fator imediato, mecânico, para uma corrida armamentista atômica na região, com Egito, Turquia e Arábia Saudita nas primeiras fileiras. O americano Thomas Schelling, um dos grandes pensadores sobre o programa nuclear militar, observa que os Estados Unidos não poupariam esforços para dissuadir Cairo, Ancara ou Riad. O ex-secretário de Estado Colin Powell sugere uma “grande negociação” com Teerã: “O Irã mantém seu programa nuclear; eu friso o termo programa, e não bomba” e, levando em conta seus interesses de segurança, modera seu radicalismo regional. Uma vez tendo seu status de potência local reconhecido, ele para de torpedear qualquer negociação entre Israel e Palestina e de ameaçar a estabilidade da região do Golfo e do Líbano.

Um prognóstico (incerto)? O Irã, que não deve estar longe do “limiar”, acabará entrando em uma “negociação do tipo Powell” com os Estados Unidos.

Tradutor: Lana Lim

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