Visita do presidente Lula ao Irã é uma aposta diplomática arriscada

Jean-Pierre Langellier

  • Sergio Lima/Folha Imagem

    Presidente do Irã, Mahmoud Ahmadinejad (esq.), cumprimenta o presidente Luiz Inácio Lula da Silva

    Presidente do Irã, Mahmoud Ahmadinejad (esq.), cumprimenta o presidente Luiz Inácio Lula da Silva

Nem a geografia, nem a História, nem a cultura destinavam o Brasil, democrático, tolerante e extremamente católico, a tecer relações privilegiadas com a longínqua República Islâmica do Irã, despótica, desconfiada e impaciente. Entretanto, o presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva será recebido como amigo em Teerã. Em novembro de 2009, ele recebeu em Brasília seu colega iraniano, Mahmoud Ahmadinejad. Foi a primeira visita ao Brasil de um presidente iraniano desde a passagem do xá pelo país, em 1965. Em abril, cerca de cem presidentes de empresas brasileiros passaram uma semana no Irã com o ministro do Desenvolvimento, Miguel Jorge.

Gigante político em formação, atual membro não-permanente do Conselho de Segurança da ONU – e candidato decidido a uma cadeira permanente – , o Brasil começou a ter um papel de primeiro plano no cenário internacional. Em nome dessa ambição, ele exibe uma diplomacia sem exclusões.

Isso explica a vontade do Brasil de colocar os pés em regiões pouco familiares, como o Oriente Médio, que apresentam também um interesse econômico para ele. O comércio entre Brasília e Teerã quadruplicou em cinco anos, uma vez que o Irã se tornou o principal fornecedor do excedente comercial do Brasil para o Oriente Médio.

Mas a viagem de Lula terá sobretudo uma dimensão política intimamente ligada à questão nuclear iraniana. O presidente brasileiro chegará a Teerã com a aura de um prestígio raro aos olhos do país anfitrião: ele é contra as sanções que os países ocidentais e a Rússia preparam na ONU; ele defende o direito do Irã de desenvolver sua energia nuclear para uso civil; quer que uma negociação seja retomada em torno da proposta feita, em outubro de 2009, pela Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA).

A AIEA havia proposto ao Irã que enviasse 85% de seu estoque de urânio levemente enriquecido a 3% para a Rússia e França e recebesse, em troca, combustível enriquecido a 20%, destinado a uso médico e impróprio para uso militar. Essa proposta foi recusada por Teerã. Segundo os ocidentais, ela foi arruinada pelo próprio Irã, em fevereiro, quando ele anunciou ter começado a produzir urânio enriquecido a 20%. Para o Brasil, essa proposta continua valendo.

Nessa parte diplomática tão delicada, Lula não pretende trazer uma “solução nova”. Ele quer somente “ajudar no diálogo”, e facilitar uma retomada das discussões. Ele espera de Teerã “um gesto” que demonstre sua vontade de negociar. Mas o Brasil, segundo palavras do seu ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim, não quer “julgar os objetivos finais” do Irã.

E é justamente esse o problema e fonte das divergências de pontos de vista entre o Brasil e o Ocidente, atento aos “objetivos finais” de Teerã. A Europa e os Estados Unidos lembram aos dirigentes brasileiros que a República Islâmica mentiu muito sobre essa questão durante anos, que sua principal preocupação é ganhar tempo para poder continuar com seu programa secreto, que o Brasil, ao se mostrar complacente, está entrando no seu jogo. E que ao investir nessa questão sua autoridade política e moral, Lula está oferecendo a Teerã um apoio inesperado.

A ambição geral da diplomacia brasileira é legítima. Em compensação, ela decidir se envolver na questão iraniana é uma aposta arriscada, onde tem mais a perder do que a ganhar. Mas entende-se por que ela escolheu esse campo para se afirmar. A questão nuclear é, de fato, um domínio onde o Brasil, que se preocupa em promover a soberania tecnológica dos Estados emergentes, está acima de qualquer crítica ou suspeita.

Ele inscreveu em sua Constituição a proibição de possuir a bomba atômica. Implantou junto com a Argentina mecanismos de inspeção mútua. Munido de seu direito de desenvolver a energia nuclear para uso civil, ele milita ativamente por um desarmamento mundial. É um país pacífico, que não se envolveu em nenhum conflito regional desde a guerra do Paraguai (1865-1870). Sua legitimidade nesse capítulo é impecável.

Mas as ligações perigosas entre o Brasil e o Irã desconcertam e preocupam o Ocidente, onde se teme, sem ser dito publicamente, que a sinceridade do presidente Lula seja uma marca de ingenuidade frente a um regime dissimulado. “Lula está cometendo um erro”, disse recentemente Bernard Kouchner, ministro das Relações Exteriores da França. O presidente brasileiro, ofendido, respondeu: “Que não me venham dar lições!” Sarkozy tentou amenizar, garantindo a Lula seu “apoio total” aos esforços do Brasil.

Em compensação, há um domínio em que não se deve esperar progressos da viagem de Lula a Teerã: o dos direitos humanos. O presidente não tem a intenção, como alguns lhe haviam sugerido em seu país, de encontrar dissidentes ou opositores iranianos.

Ele havia considerado “impossível” que tivesse havido fraudes em massa durante as eleições presidenciais iranianas em junho de 2009, comparando a disputa eleitoral entre Ahmadinejad e seus adversários a uma rivalidade entre dois clubes de futebol do Rio de Janeiro. Com essa infeliz metáfora esportiva, ele fez pouco de um princípio que lhe é caro, da não-interferência.

Tradutor: Lana Lim

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