No Japão, a Prada não gosta nem das gordas nem das feias

Philippe Mesmer

Em Tóquio (Japão)

  • AFP PHOTO / TOSHIFUMI KITAMURA

    Rina Bovrisse, ex-empregada da Prada no Japão, acusa a companhia de assédio sexual, discriminação e demissão abusiva

    Rina Bovrisse, ex-empregada da Prada no Japão, acusa a companhia de assédio sexual, discriminação e demissão abusiva

É a história de uma apaixonada por moda que reagiu contra os maus tratamentos infligidos às japonesas no local de trabalho. Seu nome: Rina Bovrisse. Seu alvo: sua ex-empregadora, filial japonesa da Prada, gigante italiana do luxo. A acusação: assédio sexual, discriminação e demissão abusiva.

Primeiro Bovrisse tentou, no fim de 2009, uma conciliação diante do equivalente japonês da Justiça do Trabalho, que fracassou por falta de provas, diz o tribunal. Apesar das negações por parte da Prada Japão, o caso agora será julgado. A primeira audiência ocorreu no dia 14 de maio.

Japonesa casada com um francês, Rina Bovrisse trabalha há quase vinte anos no setor de moda; em Paris, Nova York e Havaí, sobretudo na Chanel. Ela entrou para a Prada Japão em abril de 2009 para administrar as lojas do grupo no Japão, em Guam e em Saipan. Ela declara ter observado ali comportamentos “inaceitáveis”, especialmente com determinadas executivas. Como estas não agradavam mais aos diretores, apesar de seu profissionalismo, teriam sido vítimas de mudanças bruscas, transferências e diminuição de salário. “Nunca tinha visto tal nível de assédio em um local de trabalho”, afirmava Bovrisse, no dia 19 de abril, ao Clube dos Correspondentes da Imprensa Estrangeira em Tóquio.

No final de setembro de 2009, foi sua vez de ser o alvo. O diretor de recursos humanos teria lhe pedido, em nome do presidente da Prada Japão, Davide Sesia, para “mudar de estilo de penteado, perder peso e adotar o look Prada”. Ele teria dito ainda que o presidente tinha “tanta vergonha de sua feiura”, que ela “nunca seria apresentada aos visitantes da Itália”.

Discriminações

Ela afirma que foi demitida por ter reclamado à direção da marca em Milão, e então prestou queixa por ela, mas também pelas “japonesas que sofreram discriminação e assédio sexual”. E para denunciar uma legislação que ela considera “fraca”, em uma época “em que 41% dos trabalhadores são mulheres, e estão contribuindo para a economia como jamais se viu”.

De fato, o Japão demorou para adotar medidas. Uma primeira lei, em 1986, tratava da igualdade de tratamento entre homens e mulheres. Entre 1989 e 1992, um caso em que uma redatora processou seu superior por assédio sexual provocou uma conscientização sobre esse tipo de problema. Foi somente em 1999 que surgiu uma regulamentação a respeito, reforçada em 2006.

Mas os costumes mudam lentamente. “Devem ser tomadas iniciativas para garantir a aplicação apropriada da lei (...) que proíbe especialmente os tratamentos discriminatórios”, constatava, em 2009, o Instituto Japonês do Trabalho. Uma posição mantida por Bovrisse, que encoraja as vítimas a se manifestarem. Ela já teria convencido duas ex-funcionárias da Prada a testemunhar em seu processo.

Tradutor: Lana Lim

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