Solidez e estabilidade são as regras do euro, segundo Angela Merkel

Arnaud Leparmentier

Enviado especial a Berlim

  • Michael Gottschalk/AP

    A chanceler alemã, Angela Merkel, durante conferência de imprensa na sede do governo alemão, em Berlim

    A chanceler alemã, Angela Merkel, durante conferência de imprensa na sede do governo alemão, em Berlim

Em entrevista ao “Le Monde”, concedida na segunda-feira (17) em Berlim, a chanceler alemã fala sobre sua gestão da crise grega e pede mais rigor a seus parceiros.

Le Monde: Os alemães, que tiveram tanta dificuldade para abandonar o marco alemão, se sentem traídos por esta crise da Grécia e do euro?

Angela Merkel: Não, claro que não. Somos europeus com prazer, e sabemos o que o euro nos traz. Mas sentimos que estávamos certos em ter negociado duramente os pontos que são particularmente importantes para nós.

Le Monde: Que conclusões a sra. tira do plano de socorro à Grécia, e do euro?

Merkel: A estabilidade do euro, pilar fundamental da integração europeia, estava em jogo. Nós mostramos uma solidariedade importante e necessária. A Alemanha é reconhecida por isso.

Em segundo lugar, a crise mostrou que a zona do euro só pode funcionar se adotarmos uma cultura de estabilidade resoluta, o que significa ter finanças sólidas e integrar os critérios do pacto de estabilidade e de crescimento, como exige o Tratado de Maastricht. A solidariedade e a solidez são inseparáveis. Para a Alemanha, essa cultura de estabilidade ou de solidez não é negociável.

Por fim, isso também faz parte dos tratados, a adesão à zona do euro não poderia dar origem a uma União feita de transferências financeiras. É um ponto crucial para a Alemanha, assim como a independência do Banco Central Europeu.

Também comemoro o fato de que a cultura de estabilidade esteja se impondo no espírito dos Estados-membros. Nossa meta deve ser que todos os países um dia adotem o euro. Está estipulado nos tratados.

Comemoro o fato de que a Estônia tenha obtido a promessa de entrar na zona do euro. O pacto de estabilidade e de crescimento não vale só para os membros da zona do euro, mas também para os outros países. Foram feitos esforços consideráveis na Estônia, mas também na Irlanda.

Comemoro o fato de que a Espanha e Portugal também estejam indo por esse caminho. É muito importante.

Le Monde: Em compensação, os progressos em matéria de regulação financeira estão demorando para chegar...

Merkel: É meu terceiro ponto, que diz respeito às reais causas que levaram às tensões na zona do euro: todos nós constatamos que precisamos de regulação suplementar sobre os mercados financeiros. As especulações são excessos absolutos, que devem ser moderados.

Eu espero que a diretiva sobre os hedge funds [fundos especulativos] seja adotada nesta terça-feira (18) pelos ministros das Finanças em Bruxelas. É indispensável. Nós devemos aprovar o quadro de regulação financeira europeu, sendo que há diferenças consideráveis entre o Conselho e o Parlamento europeu. Nós só poderemos acompanhar melhor as agências de classificação financeira se esse quadro for adotado. É urgente. A Alemanha, junto com a França e outros, colocará uma pressão considerável.

Por fim, o conselho europeu de junho será para mim de uma significação muito importante, pois ali adotaremos nossa estratégia para o futuro. Concordo com o presidente Sarkozy, uma estratégia de crescimento lançará o sinal de que, com a estabilidade, nós devemos ter uma Europa em condições de enfrentar o futuro.

Isso significa que ela deve se preocupar mais com a pesquisa, com tecnologias modernas, seja sobre redes de eletricidade, conexões de banda larga e outros obstáculos tecnocráticos que devemos eliminar.

Le Monde: A sra. foi criticada por ter demorado demais para reagir durante a crise grega...

Merkel: Era importante atacar o problema pela raiz. Uma promessa rápida de solidariedade à Grécia, sem um verdadeiro retorno da estabilidade e da solidez neste país, não teria o efeito desejado. Estou certa disso. Nós tivemos um longo e difícil processo, como é sempre o caso na Europa.

Afinal, conseguimos uma participação do FMI (Fundo Monetário Internacional), com sua expertise. Era importante para mim. Nós temos um programa de consolidação grego de três anos que é muito difícil, e pelo qual o governo de Atenas se sente obrigado. Nós temos a solidariedade dos Estados-membros do euro. Esses três elementos são inseparáveis para mim.

A Europa provou que era capaz de agir quando necessário. Foi o mesmo processo para o plano de ajuda ao euro. Isso mostrou a todos nós, mais uma vez, que devíamos nos tornar mais competitivos e respeitar nossa estabilidade financeira.

Todos os Estados deverão respeitá-lo na futuro. A Alemanha, por exemplo, incluiu um mecanismo de contração de sua dívida em sua Constituição. É nesse espírito que apresentaremos nosso orçamento para 2011, que comportará medidas duras de economia. Mas penso que é o caminho certo.

Le Monde: A sra. não deveria ter sustentado seu discurso no Parlamento, pedindo por uma solidariedade com a Grécia, três meses atrás?

Merkel: Estou surpresa que isso tenha caído um pouco no esquecimento, mas no dia 11 de fevereiro, o Conselho Europeu enviou um sinal muito claro. Nós dissemos que, se surgisse uma ameaça para a estabilidade do euro de forma geral, os chefes de Estado da zona do euro agiriam de maneira rápida e decidida. Era nossa palavra, nós a repetimos e ela sempre prevaleceu.

Era importante para nós que a Grécia também fizesse sua parte. Os outros Estados europeus, especificamente Portugal e Espanha, devem fazê-lo agora. Mesmo aqueles que não estão na mira dos mercados, como a Alemanha, e, o presidente Sarkozy disse, a França, também deverão fazer sua parte.

Nós encontramos uma discussão que talvez durante anos não tenha sido conduzida com a intensidade necessária. O chanceler Schröder e o presidente Chirac, líderes dos dois maiores países da Europa, cometeram um erro em 2004 ao fazer pressão para enfraquecer o pacto de estabilidade. Isso fragilizou a cultura de estabilidade na Europa. Nós voltamos a orientações melhores e acredito que é importante.

Le Monde: No fim de 2008, após a falência do Lehman Brothers, a sra. relutou em adotar um programa de estímulo orçamentário defendido pelo FMI e seus parceiros econômicos. Esses estímulos não são responsáveis pela crise atual da dívida dos Estados?

Merkel: Nós mencionamos, durante a adoção desses programas de crescimento, o fato de que o endividamento dos Estados iria aumentar. Na época, indiquei que deveríamos encontrar um equilíbrio razoável.

Contudo, acredito que era fundamentalmente uma boa ideia adotar esses programas. Acabamos de passar por isso, a crise não acabou e devemos lidar com seus vários efeitos. As diferenças entre os Estados europeus se manifestam com ainda mais força. Nós devemos aproveitar a crise para reforçar nossa competitividade.

Le Monde: A sra. faz parte do legado europeu de Konrad Adenauer e Helmut Kohl? A Alemanha é acusada de querer ser uma grande Suíça ou uma pequena China.

Merkel: Isso não corresponde em nada à realidade. Sinto-me completamente como parte da continuidade de Konrad Adenauer e Helmut Kohl. Helmut Kohl, na época, lutou muito pelo pacto de estabilidade e de crescimento.

Poucos se lembram de que discutia-se cada vírgula. Precisar de orçamentos equilibrados e respeitar o pacto de estabilidade são condições indispensáveis. Mas devemos garantir nossa capacidade de preparar o futuro, comprometendo-nos fortemente em favor da pesquisa, do desenvolvimento, das patentes, das exportações.

Na Alemanha, a questão é feita com uma acuidade particular, pois somos um país que está envelhecendo.

A Europa é, de forma geral, um continente que não tem uma população dinâmica. Em um continente como esse, deve-se prestar muita atenção para ver se estamos preparados para o futuro. Para isso, é preciso controlar seu endividamento e se comprometer em favor de tecnologias. Isso terá um papel decisivo na estratégia de crescimento de cada Estado.

Le Monde: A Alemanha deve assumir um papel de liderança na Europa, mesmo contra sua vontade?

Merkel: A questão é que não seja um único país a assumir um papel de liderança. É muito importante que a França e a Alemanha entrem em acordo e depois atuem em conjunto. Isso dá uma impulsão a muitos outros países europeus. Sempre deu certo na Europa o fato de não haver dominação franco-alemã, e que os outros países se envolvessem no processo de decisão.

Agora nós somos em 27, nem sempre é tão fácil. Mas se cada país não for respeitado, a Europa não funcionará. A Alemanha insiste na cultura da estabilidade, e acredito que ela tenha contribuído para solucionar os problemas na raiz, ainda que seja um caminho exaustivo e doloroso.

Tradutor: Lana Lim

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