O que o rei pode fazer para acabar com os conflitos na Tailândia?

Elise Barthet

  • Adrees Latif/Reuters

    Militar patrulha Bancoc diante de uma foto do rei Bhumibol Adulyadej

    Militar patrulha Bancoc diante de uma foto do rei Bhumibol Adulyadej

Seu retrato está por toda parte. Ele está em cada esquina, cada lar. Altares chegaram a ser erguidos em sua homenagem na entrada de centros comerciais. Ao longo das avenidas de Bangcoc, as glórias de seu reino aparecem sem fim sobre imensos medalhões dourados. Hierático e onipresente, Bhumibol Adulyadej, 82, é certamente o monarca mais respeitado do mundo. Adorado como um semi-deus por 64 milhões de pessoas, ele é hoje provavelmente um dos únicos que podem conseguir pôr um fim à crise que divide a Tailândia.

No domingo (16), um membro da oposição lançou um apelo solene ao palácio, acreditando que uma intervenção do soberano seria a “única esperança” para acalmar a situação. Garantia de estabilidade em um país que teve dezoito golpes de Estado desde 1932, o rei sempre teve um papel-chave no cenário político, apesar dos limites que a Constituição lhe impõe. Em 1992, por exemplo, quando o exército abriu fogo sobre manifestantes democratas em Bangcoc, ele conseguiu reunir o primeiro-ministro e o líder dos manifestantes. A televisão transmitiu imagens dos dois homens curvando-se diante do monarca. Pouco tempo depois, o primeiro-ministro se demitiu.

Mas desta vez, a situação é diferente. O rei guarda silêncio. Hospitalizado desde setembro por causa de uma infecção pulmonar, ele não se manifestou publicamente sobre as tensões que há mais de dois meses opõem partidários do governo e “camisas vermelhas”, nem sobre o ataque feito na quarta-feira pelo exército contra a base dos “vermelhos”. “A idade e a doença não permitem que ele mantenha o papel de negociador que teve no passado. Além disso, ele sabe que o país está passando por uma profunda crise e que a realeza pode ser maculada. Ao se manter discreto, ele protege a monarquia do caos. Uma monarquia para cuja sacralização ele contribuiu muito”, explica Sophie Boisseau du Rocher, especialista em Tailândia no Instituto Sciences-Po.

Uma monarquia de rede

Ele não tinha nem 19 anos quando herdou, após a Segunda Guerra Mundial, um trono prestes a afundar. Escondido atrás de óculos de fundo de garrafa, o jovem soberano sucedeu seu irmão, morto com um tiro na cabeça em circunstâncias obscuras. O país estava instável. Durante a invasão japonesa de 1941, a monarquia tailandesa se mostrou incapaz de assumir suas funções. O novo soberano tinha a reputação de ser um homem tímido e reservado. Apaixonado por jazz, ele só tinha um passatempo: o saxofone.

Entretanto, uma vez que se tornou Rama IX, o último descendente da dinastia dos Chakri (fundada em 1782), conseguiu devolver a grandiosidade à monarquia. Enquanto os militares governavam o Estado, o soberano percorria o país. Ele endureceu o protocolo, manteve vivos os ritos celebrados em honra da família real e instaurou uma “rede monárquica”- segundo a expressão do pesquisador britânico Duncan McCargo – , que permitiu que a Coroa se tornasse o primeiro fundo de caridade do país.

Em 64 anos de reinado, Bhumibol se tornou a encarnação suprema da identidade nacional. Um monarca que foi exercendo ao longo dos anos um papel cada vez mais determinante no cenário político. Mas essa influência também tem seus problemas. No reino tailandês, o crime de lesa-majestade é punido sem piedade. Enquanto a maioria dos monarcas aboliu ou deixou de aplicar esse tipo de lei, a Tailândia a endureceu nos anos 1970: qualquer crítica, ainda que moderada, é passível de três a quinze anos de prisão. Em 2007, um suíço foi condenado a dez anos de prisão por ter danificado retratos do rei em um dia de embriaguez.

Resultado: mesmo entre os universitários, são raros aqueles que se atrevem a criticar o soberano. Em uma biografia que causou polêmica quando foi publicada em 2006, intitulada “The King Never Smiles” (“O rei nunca sorri”), Paul Handley fala daqueles que destroem a imagem de democrata sustentada pelo monarca. O jornalista americano afirma que em 1976, o rei fechou os olhos para a constituição de milícias de direita que, ao lado do exército, reprimiram em um banho de sangue manifestações estudantis pacíficas. Desnecessário explicar que a obra teve sua publicação proibida na Tailândia.

Mais recentemente, após o golpe de Estado militar que derrubou em 2006 o ex-premiê Thaksin Shinawatra, o monarca e sua comitiva tomaram partido dos golpistas. “Hoje, o presidente do conselho privado de Bhumibol, o general Prem, deveria supostamente se manter afastado dos assuntos políticos. Mas não passa de mais um mito. Na verdade ele é amplamente considerado como o instigador do golpe de Estado de 2006. Lembremos que, pouco tempo antes, ele havia explicado que o exército pertencia ao rei, e que Thaksin era somente um peão, um ‘cavaleiro’ intercambiável”, observa a publicação “The Economist” em um artigo que revoltou a mídia tailandesa.

Um príncipe herdeiro muito impopular

Outro assunto polêmico: segundo a revista “Forbes”, o mais antigo monarca em exercício do mundo seria também o mais rico. “Ele multiplicou os ativos da Coroa nas grandes empresas tailandesas. Isso criou uma classe de mercenários e de burocratas que não têm nenhum interesse em ver uma mudança de configuração”, analisa Sophie Boisseau du Rocher. “Essa elite não tem nenhum interesse em dividir o acesso privilegiado da qual dispõe aos recursos econômicos e aos círculos de influência”. Para proteger a monarquia, será preciso que ela reaja.

Se o rei continua imensamente amado por seus súditos, não se pode dizer o mesmo do príncipe herdeiro. Seu único filho, Wajiralongkorn, nascido em 1952, está longe de ser unanimidade. Com fama de incompetente e muito frágil psicologicamente, ele é muito impopular. Uma antiga crença tailandesa afirma que o nono monarca da dinastia Chakri não terá sucessor. Que a profecia se realize ou não, a morte do rei poderá mergulhar o país em uma crise ainda mais profunda do que a que atravessa hoje.

Tradutor: Lana Lim

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