França poupa o Brasil de críticas no episódio do Irã para preservar a venda de caças

Natalie Nougayrède

  • Peter Dejong/AP - 17.dez.2009

    O presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva é cumprimentado pelo presidente da França, Nicolas Sarkozy, durante coletiva de imprensa na Conferência de Copenhage, na Dinamarca

    O presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva é cumprimentado pelo presidente da França, Nicolas Sarkozy, durante coletiva de imprensa na Conferência de Copenhage, na Dinamarca

O governo francês parabenizou o presidente Lula. Os Estados Unidos, pelo contrário, tomaram a dianteira para se opor à iniciativa turco-brasileira junto a Teerã

Na sequência diplomática, rápida e cheia de reviravoltas, que acaba de acontecer em torno da questão nuclear iraniana, a França se esforçou para poupar o Brasil de uma forma surpreendente, a fim de preservar os interesses comerciais e a “parceria estratégica” com o gigante da América Latina.

A questão da venda do caça Rafale para o Brasil parece ter contado bastante nessa abordagem. Além disso, o apoio de Brasília é buscado por Nicolas Sarkozy com a aproximação da presidência francesa do G20 em 2011. No fundo, os esforços do Brasil na questão iraniana foram considerados ingênuos e contraprodutivos pela diplomacia francesa. A iniciativa do presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva, no dia 16 de maio em Teerã, que consistia em fechar com o regime iraniano um acordo muito vago sobre o urânio enriquecido, em cooperação com a Turquia, ia de encontro com os esforços do Ocidente para aumentar a pressão sobre Teerã. O Irã, segundo um ponto de vista compartilhado pelos ocidentais, só estava manipulando os “emergentes” para ganhar tempo.

A contraofensiva diplomática frente a essa jogada do Brasil foi conduzida pelos Estados Unidos, que reagiram com grande rapidez ao anunciar, no dia 18 de maio, um acordo com a Rússia e a China sobre um texto de sanções na ONU, comportando pela primeira vez um embargo sobre as vendas de armas para o Irã.

A França, por sua vez, dosou cuidadosamente seus posicionamentos públicos, preocupada em evitar qualquer estremecimento em suas relações com o Brasil. Em um comunicado divulgado no dia 18 de maio, o governo francês manifestou seu “reconhecimento” e o “completo apoio da França ao presidente Lula pelos esforços que realizou”. O texto não fazia nenhuma menção ao papel exercido pela Turquia.

A presidência francesa considerou um “passo positivo” o projeto de entrega de urânio enriquecido fora do Irã. Filtrando suas reticências, o governo francês relativizou, lembrando que “o problema iraniano” ia “bem além” do simples plano de troca de urânio, e que o processo, se acontecer, deve “ser acompanhado logicamente de uma interrupção do enriquecimento a 20%”, um nível fixado em fevereiro pelos iranianos, desprezando as resoluções da ONU.

Pouco após esse comunicado, uma fonte anônima dentro da presidência francesa declarou à agência de notícias AFP que a França estava “confiante” quanto à venda do Rafale ao Brasil. Esse comentário foi feito a partir de Madri, onde Sarkozy acabava de se reunir com Lula, paralelamente a uma cúpula entre União Europeia e América Latina. “A preferência [brasileira pelo Rafale] deverá ser confirmada em breve”, afirmou essa fonte. O anúncio pareceu tomar de surpresa os brasileiros. Um assessor do presidente Lula, questionado pela imprensa, logo afirmou que a questão do Rafale não havia sido mencionada.A fabricante Dassault está concorrendo com suecos e americanos pela renovação da frota brasileira de aviões de combate (seria uma venda de 36 Rafales), uma licitação que Paris quer ver concluída antes do fim do mandato do presidente Lula, no final de 2010.

O discurso moderado do governo francês a respeito do jogo brasileiro e turco contrastava com o da secretária de Estado Hillary Clinton, abertamente crítica. Clinton comentou que o Irã havia aceitado a abertura turco-brasileira somente porque se esboçava uma ameaça de sanções na ONU. Sanções que, segundo ela, representam “a melhor resposta que poderíamos dar aos esforços feitos nos últimos dias em Teerã”. Além disso, ela criticou o “cronograma amorfo” do texto turco-brasileiro. Na quarta-feira (19), o Brasil e a Turquia enviaram uma carta ao Conselho de Segurança, protestando contra novas sanções “prejudiciais”.

 

Tradutor: Lana Lim

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