Sucessão de Lula à presidência ganha contornos de duelo no Brasil

Jean-Pierre Langellier

  • Pedro Silveira/O Tempo/AE

    Os candidatos Dilma, Marina e Serra participam de painel com prefeitos em Belo Horizonte

    Os candidatos Dilma, Marina e Serra participam de painel com prefeitos em Belo Horizonte

A candidata do presidente e o da oposição são os que têm mais chances na eleição

A intensa atividade diplomática do Brasil não deixa esquecer que em 2010 seu principal compromisso será um acontecimento político interno: no dia 3 de outubro, cerca de 135 milhões de brasileiros irão às urnas para eleger o sucessor do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Se nenhum candidato obtiver mais de 50% dos votos, um segundo turno acontecerá no dia 31 de outubro.

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A campanha oficial começará no dia 5 de julho. Ela se resumirá basicamente a uma disputa entre três candidatos, duas mulheres e um homem: Dilma Rousseff, 62, sucessora escolhida pelo presidente Lula sob a bandeira do Partido dos Trabalhadores (PT, esquerda); Marina Silva, 52, adotada pelo Partido Verde (PV); José Serra, 68, na disputa pelo Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB, oposição). A pré-campanha começou. Ela se transformará aos poucos em um duelo, certamente apertado, entre os dois únicos candidatos que podem esperar suceder o presidente Lula no dia 1º de janeiro de 2011: Dilma Rousseff e José Serra.

Segundo a mais recente pesquisa de intenção de voto, Rousseff teria alcançado seu concorrente que até agora liderava a corrida, com um avanço constante de pelo menos 5%. Mas esses dados são somente indicativos. No Brasil, é a campanha no rádio e na televisão que faz a diferença na reta final.

Rousseff e Serra têm um ponto em comum em suas trajetórias políticas: ambos foram jovens opositores à ditadura militar (1964-1985). Ela, estudante idealista e determinada, mergulhou na clandestinidade, foi presa, torturada, e cumpriu quatro anos de prisão. Ele, presidente da União Nacional dos Estudantes no momento do golpe de Estado, escolheu o exílio no Chile – onde foi pego em 1973 por outro golpe, contra Salvador Allende – antes de se refugiar nos Estados Unidos. Em seguida, seus percursos foram muito diferentes.

Última pesquisa Vox Populi de 17/05 mostra Dilma Rousseff na frente de José Serra

Rousseff teve uma brilhante carreira político-administrativa em Porto Alegre, a maior cidade do sul do país, antes de se filiar tardiamente ao PT. Em 2005, ela passou a ser uma espécie de primeira-ministra em Brasília, à frente da Casa Civil, o gabinete presidencial.

Serra, dono desde muito cedo de uma ambição política, ocupou em trinta anos todos os postos da República: deputado, senador, várias vezes ministro, prefeito (de São Paulo), governador (do Estado de São Paulo). Disputou oito batalhas eleitorais, perdeu três, sendo a mais importante contra Lula, pela presidência em 2002. Ele sabe que esta que se inicia será sua última chance de conquistar a função suprema. “Eu me preparei a vida inteira para ser presidente”, repete Serra.

Instintivamente autoritário e centralizador, desde sua derrota em 2002 ele aprendeu a delegar, escutar e unificar seu partido, que por muito tempo ficou dividido, em torno de um objetivo: retomar a cadeira presidencial ocupada por seu veterano no PSDB, Fernando Henrique Cardoso (1995-2002). Seu principal problema é de ordem estratégica: ele não pode pregar a ruptura com o presidente Lula, que goza de uma popularidade estratosférica (76% de opiniões favoráveis). Portanto, ele precisa se distinguir sutilmente do governo atual sem renegar seu legado social. E vem daí seu slogan de campanha: “O Brasil pode mais” – subentende-se que ele pode continuar no caminho de Lula, mas fazendo melhor.

Ele enfatiza sua experiência bem-sucedida de gestor competente e honesto. José Serra se apresenta como candidato “pós-Lula”. O problema para ele é que, em matéria de continuidade, os eleitores podem muito bem preferir o original: Dilma Rousseff não hesita em aceitar todo o legado de seu mentor. Mas ela tem como principal desvantagem nunca ter passado pela prova das urnas.

Rousseff e Serra, que mantêm relações cordiais, têm outros pontos em comum: são administradores eficientes e batalhadores, mas falta carisma a ambos. A julgar pelos seus programas, nada de essencial os separa. Há vários meses Rousseff está em treinamento pré-eleitoral intensivo sob a asa do presidente Lula, que tenta torná-la conhecida. O chefe do Estado lhe aconselha gentilmente: recentemente, ele lhe recomendou que se expressasse de maneira “menos técnica”, fosse “mais direta” e “mais concreta”. Será que ele conseguirá transferir pelo menos parte de sua popularidade à sua protegida? O resultado da eleição depende da resposta a essa pergunta.

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