Em Madagascar, crise política favorece pilhagem de madeiras preciosas

Sébastien Hervieu

“Há duas semanas, vi mais uma vez no porto de Vohémar (nordeste de Madagascar) novos carregamentos de pau-rosa prontos para embarcar”, contou por telefone Sylvain Delomora, da organização não governamental Fanamby, de Madagascar, que luta pela proteção da biodiversidade. “As autoridades recentemente interditaram esse comércio, mas na prática, não vejo diferença, é desolador. Nas florestas, a derrubada continua.”

Desde o final de março, o corte e a exportação de pau-rosa e ébano foram oficialmente suspensos em Madagascar. Essa interdição por decreto visa acabar com a pilhagem das madeiras preciosas na ilha, situada ao longo da costa leste da África. A exploração ilegal da floresta aumentou consideravelmente desde o começo da crise política, principalmente nas áreas protegidas da região de Sava, no nordeste do país.

Desde a derrubada do presidente Marc Ravalomanana, na primavera de 2009, uma quinzena de empresas de extração de madeira instaladas em Madagascar se aproveitaram da instabilidade política para aumentar a exploração. A ONG Fanamby estima que entre 12 e 20 mil hectares de floresta foram derrubados desde a tomada do poder por Andry Rajoelina. Em novembro de 2009, duas organizações ambientais internacionais, Global Witness e Environmental Investigation Agency, denunciaram as falhas na legislação que enquadra esta atividade e a falta de ação do governo.

O diretor dos parques nacionais de Madagascar, Guy Suzon Ramangason, afirma que uma centena de pequenos madeireiros foram presos depois que a interdição entrou em vigor. “A inspeção é mais fácil, porque qualquer homem que transporte madeira é agora automaticamente suspeito”, explica. “Antes, os madeireiros enganavam a vigilância apresentando cópias de autorizações com um carimbo falso em vermelho, bem visível na parte de baixo.” Segundo algumas ONGs, 10 a 15 mil toneladas de pau-rosa cortado ilegalmente antes da data charnière ainda estão aguardando a exportação.

3 mil euros por metro cúbico

O mercado é lucrativo. O metro cúbico de pau-rosa, um tipo de madeira de uma solidez excepcional utilizada para fabricar móveis, pode ser vendida por mais de 3 mil euros na Ásia. As autoridades esperam obter a classificação dessa madeira no anexo 3 da Cites, a organização internacional de proteção às espécies ameaçadas, para tornar mais difícil a importação pelos países que a compram, principalmente a China.

Para conseguir exportar seus estoques, os operadores não hesitam em utilizar a corrupção. “Ela envolve todo mundo, do policial florestal em campo até os agentes de aduana, passando pelos membros do governo atual”, revela uma fonte que pediu para permanecer anônima.

Para reforçar a fiscalização, as autoridades pedem mais recursos. Considerando ilegal o atual regime de Andry Rajoelina, os donos de fundos internacionais suspenderam sua ajuda. “Estamos sem recursos, admite Julien Noël Rakotoarisoa, diretor-geral das florestas. A proteção ambiental deveria ser considerada como uma atividade humanitária, e portanto continuar a receber dinheiro.” A ONG Fanamby perdeu um terço de seu financiamento. “Isso vai atrapalhar nosso trabalho de sensibilizar a população quanto aos perigos do desmatamento”, inquieta-se seu diretor, Serge Rajaobelina. Um milhão de hectares de floresta foram destruídos em Madagascar em 20 anos.

Tradutor: Eloise De Vylder

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