Na zona desmilitarizada entre as duas Coreias, o menor incidente pode sair de controle

Philippe Pons

  • Kim Do-Yoon/Yonhap/ Reuters

    Tanques do exército sul-coreano fazem disparos durante exercício próximo à zona desmilitarizada que separa as duas Coreias

    Tanques do exército sul-coreano fazem disparos durante exercício próximo à zona desmilitarizada que separa as duas Coreias

A implicação de Pyongyang no naufrágio de um navio sul-coreano é a causa das tensões

Em uma paisagem de pequenas montanhas verdejantes que se estendem até o horizonte, sem nenhum sinal de vida humana, uma cerca elétrica de quatro metros com arame farpado por cima, que ondula por 280 quilômetros de leste a oeste, seguindo pelos cumes para depois descer até os vales, delimita a zona desmilitarizada (DMZ) que separa as duas Coreias desde o armistício de 1953. Mais além, a dois quilômetros, corre a linha de demarcação. De ambos os lados da DMZ, bunkers, peças de artilharia e dois exércitos em pé de guerra.

Cerca de 20 quilômetros ao norte da cidade de Yanggu, no posto de guarda do cume da “colina 931”, reina a maior tranquilidade. Mas no clima de tensão provocado pela acusação da Coreia do Norte por Seul no naufrágio de seu navio militar “Cheonan”, que se traduziu por uma escalada verbal, qualquer incidente ao longo da DMZ – provocado ou não – pode sair de controle, acreditam fontes militares.

Por enquanto, o Sul ainda não voltou a colocar em funcionamento, como havia anunciado, os gigantescos alto-falantes que, ao longo da DMZ, jorravam decibéis de propaganda na direção do Norte. Uma guerra psicológica que estava parada há seis anos. Se essas emissões voltarem, avisou Pyongyang, esses equipamentos serão alvo de tiro de artilharia.

Os sul-coreanos certamente estão acostumados com erupções recorrentes de tensão na península, mas, desta vez, a apreensão é maior. Uma preocupação que no início da semana levou a uma queda da Bolsa de valores. O naufrágio do Cheonan, que em março causou a morte de 46 marinheiros sul-coreanos, chocou profundamente a opinião pública. Uma equipe internacional de investigação concluiu que o navio militar de 1.200 toneladas foi torpedeado por um submarino norte-coreano, o que Pyongyang nega.

O presidente Lee Myung-bak prometeu fazer com que a Coreia do Norte “pague por sua agressão”, impondo novas sanções, e anunciou ter apelado para o Conselho de Segurança da ONU. Seul reintroduziu o conceito de “inimigo principal” para designar a Coreia do Norte, uma vez que esta se declara pronta para uma “guerra total” e colocou o país em estado de alerta. Todos os contatos entre as duas Coreias foram rompidos. Somente as comunicações entre militares foram mantidas.

Apoio ambíguo de Pequim

Na quarta-feira, na zona industrial de Kaesong (na Coreia do Norte, cerca de 20 km ao norte da DMZ), onde diversas empresas do Sul investiram, empregando 40 mil norte-coreanos, oito funcionários sul-coreanos foram expulsos. Mas, por ora, a atividade continua nessa região, símbolo da reaproximação das duas Coreias: todas as manhãs Pyongyang autoriza a passagem de engenheiros do Sul pela fronteira entre os dois países.

Durante uma escala em Seul, na terça-feira, a secretária de Estado norte-americana, Hillary Clinton, garantiu o apoio americano a Seul e pediu por uma “resposta firme e moderada” em relação à Coreia do Norte. Hillary chegava de Pequim, onde conseguiu somente um apoio ambíguo da China, principal aliada da Coreia do Norte. Os dirigentes chineses declararam que continuariam com sua própria “avaliação” da questão e que esperavam que “as partes mantivessem a calma”. O primeiro-ministro chinês, Wen Jiabao, é esperado em Seul na sexta-feira: é pouco provável que ele vá ser mais explícito.

Às vésperas das eleições locais, no dia 2 de junho, a tensão com o Norte está no centro da campanha: a oposição acusa o governo de ser responsável por uma volta a uma situação de confronto em razão de sua política intransigente em relação à Coreia do Norte, em ruptura com a de seus antecessores de centro-esquerda, que visava uma reaproximação entre Coreias.

Tradutor: Lana Lim

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